Fundado em 1932, o Grupo Asamar atravessou diferentes ciclos econômicos, mudou de setores e enfrentou crises, sem perder a base familiar e os princípios que sustentam o negócio até hoje.
Mas o que explica essa longevidade?
Como uma empresa familiar consegue crescer, se reinventar e manter a coesão entre os acionistas?
No Itatiaia Negócios Cast, Sérgio Cavalieri, presidente do conselho de administração do grupo, respondeu a essas e outras perguntas.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Seja bem-vindo, bem-vinda ao Itatiaia Negócios. Que é a oportunidade do grupo Itatiaia para levar até você o mundo dos negócios. Aqui nós apresentamos grandes histórias, grandes marcas e grandes decisões. Hoje aqui comigo Sérgio Cavalieri, presidente do conselho de administração do grupo Asamar. Seja bem-vindo.
Sérgio Cavalieri: Obrigado, Leo. Obrigado. Um prazer estar aqui com você, com a Itatiaia, com toda audiência da Itatiaia. Grande honra.
Leonardo Bortoletto: Você pode ter certeza que a honra é nossa. Certo. Todo mundo aqui em Minas Gerais conhece o grupo Asamar. Mas nem todo mundo tem a oportunidade que nós estamos tendo aqui agora e ter você para explicar. É, muito obrigado por essa oportunidade. Não tenha dúvida que para nós é enriquecedor também. Por favor, vamos começar pelo DNA do grupo.
Sérgio Cavalieri: Vamos, nós temos que voltar lá para 1932. Até mais atrás, talvez dependendo da conversa aqui, né? Vou tentar um grupo de quase 100 anos, né? Começou em 1932, fundado pelo meu avô e dois cunhados, né? Alberto Rodrigues Soares, Amynthas Jacques de Moraes, Antônio Faria Ribeiro. É, os três estudaram em Ouro Preto, fizeram na escola de engenharia em Ouro Preto. E os dois colegas, o Alberto, né, o Amynthas e o Antônio ficaram conhecendo as irmãs do Alberto e acabaram casando, né, com as irmãs do Alberto. Os três viraram cunhados entre si. É, e começaram a empreender isoladamente, fazendo pequenas obras para prefeitura, para governo. E com uma certa dificuldade de conseguir avançar muito os negócios, né? E aí um dia a sogra, né, a mãe do Alberto e sogra do Amynthas e do Antônio, teve a inspiração de recomendar, de dar o conselho para eles para trabalharem juntos. E aí nasce então o grupo Asamar, os três se juntam, primeiro escritório aqui em Belo Horizonte, na Rua do Caetés. Eles formaram então Alberto Rodrigues Soares, Amynthas Jacques Moraes, Antônio Faria Ribeiro, engenheiros associados e começaram então a fazer obras, ainda para prefeitura, para governo. Pequenas obras, pontes, pontilhões, estradas vicinais. E naquela época, o meio de comunicação mais eficaz era o telégrafo. E precisava, então, de um endereço telegráfico. Aí um irmão do Antônio, que trabalhava com eles, sugeriu o nome Asamar, que era as iniciais dos nomes dos três, né, Alberto Soares, Amynthas Morais e Antônio Ribeiro. E aquela sigla, aquela palavra era o endereço telegráfico para se mandar uma mensagem telegráfica de qualquer lugar, chegaria lá na Rua dos Caetés nos três, né? E isso mais tarde foi adotado como o nome do grupo, né? O grupo Asamar. E eu acho que naquela época o telégrafo era o e-mail de hoje, né?
Leonardo Bortoletto: Exato.
Sérgio Cavalieri: Ficou esse nome, ficou consagrado como o nome do grupo e com vários investimentos. O grupo começou em construção pesada, depois foi um grupo industrial, na área de cimento, produção de cimento e depois na área de combustíveis que o senhor é o nosso investimento maior e mais visível nos últimos anos, né? Mas que nós já saímos dele também. Então, o DNA do grupo é muito ligado a essa questão de família, muito ligado à religião católica, a família toda vida desde lá da sogra, né, da grande matriarca do grupo. Essa questão dos valores cristãos, os valores religiosos muito aplicados da família nos negócios. Isso deu sempre muito certo e continuamos até hoje com essa pegada de preocupação com o ser humano, preocupação com as pessoas, com meio ambiente, é, verdade, ética, comportamento adequado no mercado, em termos competitivos, em termos de inovação. Então é o que nós sabemos fazer é empreender, é a nossa veia é empreender.
Leonardo Bortoletto: Isso tá no DNA, mas porque é fundamento, permanece até hoje. O que não o que está no DNA de hoje que não estava no DNA no início? O que que se tornou uma marca do grupo nessa quase 100 anos?
Sérgio Cavalieri: Olha, os valores que nós praticamos, né, que aprendemos no meio familiar, no meio da família, esses valores cristãos, eles são valores permanentes, né? Então essa questão de fazer bem ao outro, de faça para o outro que você gostaria que fizesse para você, essa questão da, do respeito às pessoas, respeito às regras, às leis, às normas, isso continua da mesma forma e, não existe grandes mudanças, né?
Leonardo Bortoletto: São valores sólidos, né? Valores permanentes, universais. Valores eternos.
Sérgio Cavalieri: Eternos. Então, nós seguimos nessa linha de fazer bem feito, de produzir bons produtos para as pessoas com boa qualidade, criando riqueza para o país, distribuindo essa riqueza da forma mais justa possível, promovendo as pessoas, promovendo as famílias. É dessa forma que a gente tem conduzido os nossos negócios.
Leonardo Bortoletto: As pessoas, às vezes têm muita dificuldade de fazer essa associação direta à fé, como vocês abertamente no grupo Asamar fazem. E eu queria entender o que que isso verdadeiramente influencia dentro do grupo para negócio, Sérgio. Eu sei que são princípios, são valores, mas muitos princípios e valores de várias companhias ficam simplesmente na parede. Eu conheço bem o grupo, conheço você, conheço outros membros do grupo e sei que isso não é uma fala. Mas na decisão do negócio, o tanto que ela interfere?
Sérgio Cavalieri: Ela interfere demais, viu, Léo? É impressionante a questão dos por exemplo, os setores que a gente elege para trabalhar, né? Nós sempre buscamos trabalhar com setores que tragam algum benefício, alguma melhoria para a sociedade. Então, a questão, por exemplo, de jogos, a questão de bebida, alguma coisa ligada a vício, esse vamos dizer é um aspecto que já dá uma orientação. Depois a questão do respeito às pessoas, né? Queremos sempre valorizar cada vez mais as pessoas. Aí, não só os colaboradores, mas clientes, fornecedores, as outras empresas que nós nos relacionamos.
Sérgio Cavalieri: Então, é interessante que nós temos o nosso grupo está sempre pivotando, né, como a gente chama, nessa turma mais jovem, né, das startups. E nós, apesar de ser um grupo muito tradicional, já tivemos em vários negócios, fizemos muitas coisas, abrimos, fechamos, vendemos empresas. Então nós temos grupos que hoje ainda se reúnem, por exemplo, a fábrica de cimento, que foi um investimento nosso carro/chefe nas décadas de 70, 80, 90 e vendemos em 1996. Até hoje nós temos grupo de pessoa agora, usando o WhatsApp da fábrica de cimento, que se relacionam, todo dia mandam mensagens e geralmente a conversa é assim: "olha, puxa, foi a melhor época da minha vida, foi o emprego que eu mais me realizei, que eu tinha o melhor ambiente". Então isso que dá a maior satisfação para a gente. O que dá mais prazer para nós é isso, é gerar oportunidade de trabalho, gerar riqueza e distribuir essa riqueza da forma mais justa possível.
Leonardo Bortoletto: Você falou um termo aí que eu achei interessante que foi o de se reinventar, de pivotar. Então, bom, um grupo que aí eu conheço, já passou por construção pesada, já passou por combustíveis, energia, imóveis, tantas reinvenções. Como que o grupo pensa em pivotar antes que o mercado obrigue você a sair daquele segmento?
Sérgio Cavalieri: É, isso é o que eu diria, até lógico é uma arte por trás disso, mas é lógico também, às vezes a gente acredita e tem muita fé, acredita sempre na ajuda de Deus nessas decisões, né? E de fato a gente, na época da construtora, o mercado começou a ser invadido pelas grandes construtoras, grandes obras e um período que teve até uma falta de ética muito grande nesse mercado da construção, o grupo acabou entrando em situação financeira desfavorável, teve uma concordata que seria a recuperação judicial de hoje, né? E depois ela recuperou, pagou tudo. Aí começou a fase industrial, uma oportunidade de negócio. É um grupo sempre muito empreendedor, né? Também isso veio na veia já lá dos três fundadores,
especialmente o Amynthas Jacques Moraes, que era muito ligado a essa área de mineração. O irmão dele, Luciano Jacques de Moraes, foi um grande geólogo, fez descobertas importantes de jazidas no Brasil inteiro. Então o Amynthas era muito ligado a essa área de mineração, de indústria e ele saíaperco rrendo o Brasil inteiro aí na década de 30, 40, 50, buscando negócios. Esse DNA ficou no grupo até hoje, a gente está sempre inquieto procurando novos negócios e muito atento ao momento de começar e parar. Às vezes a gente começa cedo demais, o mercado não está pronto ainda e às vezes você estica demais, demora muito para perceber uma mudança de mercado, você também pode no final acabando se dando mal, né?
Leonardo Bortoletto: Entendo.
Sérgio Cavalieri: Então eu acho que assim, nós trabalhamos em grupo, né? Sempre não tem um nós não temos um CEO, não temos assim um presidente, não temos o executivo principal. Nós hoje lá somos cinco pessoas que representam a família nos negócios. E é uma interessante com uma decisão sempre colegiada de cinco e sempre consensuada. Às vezes demora um pouco mais, mas é preferível esse um pouquinho mais de tempo para poder ter uma decisão de qualidade.
Leonardo Bortoletto: Quando não tem consenso não avança?
Sérgio Cavalieri: É, assim, se um não está concordando, um tem que convencer os outros quatro, ou os outros quatro têm que convencer um, né? É muito interessante uma convivência super harmoniosa, as pessoas se dão muito bem, o ambiente é muito descontraído, agradável. Mas lógico, sempre com muita competitividade, inteligência, produtividade e trabalhando sempre de uma forma muito eficaz, muito eficiente, né? Porque o mercado exige isso também, né?
Leonardo Bortoletto: Sérgio, você citou aí a questão da concordata, né? Que seria a nossa RJ, Recuperação Judicial de hoje. É um episódio marcante no grupo, porque você entrou em concordata, mas você pagou todo mundo. Então, que lição que ficou desse processo todo, hein?
Sérgio Cavalieri: Olha, acho que a principal lição que ficou foi a questão de, na época, a Servieng era uma empresa quase que 100% trabalhava para governos, né? Governo Federal, Governo Estadual, prefeituras. E os principais problemas que a Servieng teve, sempre foram nessa área de questão de pagamento, né? O descumprimento dos contratos. Receber. Essa era a grande. Mais atrás, se você tem uma ideia, os contratos não tinham nem correção monetária, né? O Brasil já tinha uma inflação alta. E eu lembro que o papai foi fundou o Sindicato de Construção Pesada em São Paulo e uma grande luta que ele teve durante a vida toda dele foi para conseguir implantar a correção monetária nos contratos, né?
Leonardo Bortoletto: O que hoje seria até um absurdo falar.
Sérgio Cavalieri: É. E mas naquela época não tinha. E o atraso dos governos, o não cumprimento de contratos, então isso para um grupo que sempre procurou trabalhar de forma ética, ficou esse aprendizado. A Servieng nunca deixou de entregar nenhuma obra, né? Teve uma obra que metade tinha sido paga pelo governo e metade eles mesmos pagaram porque o dinheiro do governo só deu para pagar metade da obra. O nosso aprendizado foi assim, de ter um cuidado muito grande com o governo, não trabalhar com o governo. Atualmente procuramos estar bem distante dos governos e preferimos trabalhar com iniciativa privada.
Leonardo Bortoletto: Fala um pouquinho de governança. São cerca de 120 familiares acionistas e acho isso um desafio enorme de governança. Como é que é o dia a dia disso e como que vocês conseguem conduzir sem conflito?
Sérgio Cavalieri: Eu acho que a questão principal aí, de novo, vem a questão da religião, da fé, dessa vontade de ter um bom relacionamento entre as pessoas. Nós já tivemos mudanças assim muito fortes na parte da estrutura societária. A família Ribeiro mesmo, alguns anos atrás se retirou, conseguimos fazer um acerto com eles. Todo mundo frequenta a casa de todo mundo, é convidado para os casamentos, os batizados. É normal. Às vezes a família não tem sucessores ou tem uma outra visão de mundo. E aquelas famílias que achavam que era mais importante ter mais recursos na mão agora do que continuar empreendendo, nós até hoje sempre conseguimos dar essa liquidez. E a liga que fica é justamente isso, aqueles que querem ficar, continuam, mas todos com um relacionamento muito positivo e uma confiança enorme. Acho que a palavra chave nas empresas familiares é confiança. Porque nem toda a família vai estar representada à frente dos negócios. Se não houver confiança, a coisa realmente não vai funcionar, né?
Leonardo Bortoletto: Deteriora, né? Você começa a gastar mais tempo discutindo a relação familiar do que olhando os negócios, né?
Sérgio Cavalieri: Isso é uma perda de tempo que muitas empresas familiares não conseguem se desvencilhar, né?
Leonardo Bortoletto: É verdade. Deslocamento de energia. Sérgio, você é presidente do conselho de administração. Você tem o plano Asamar 2032, conselho de família. Explica um pouquinho para mim, o que que é cada um deles?
Sérgio Cavalieri: É interessante o que aconteceu na nossa história. Depois de Servieng, depois de Cimento Montes Claros, Ale Combustíveis, na década aí de 2015 a 2019, tivemos uma grande reorganização no grupo. Nós vendemos a Ale Combustíveis, paralisamos a Masb, que era uma construtora, Alvorada Petróleo nós vendemos para canadenses, Ativa Data Center vendemos para chilenos e um pouquinho antes da pandemia, nós começamos a repensar o grupo dali para frente. Como é que seria o nosso futuro? Fizemos uma consulta para todos os acionistas. Tivemos uma confirmação de acionistas que queriam continuar investindo, preservando bastante a questão de segurança, porque os dividendos são importantes para as famílias. E a partir dessa consulta surgiram também uma série de melhorias na nossa governança, que é como a empresa se relaciona com a família. Traçamos esse plano 2032, que é
justamente quando o grupo fará seu primeiro centenário. Uma das visões que nós tivemos é: queremos continuar juntos, mas para poder continuar ter o futuro, precisava de uma nova geração. Então, estamos trabalhando com a nova geração, aproximando do negócio. Mais à frente vamos também fazer a questão de sucessão nossa. Eu sou o mais velho atualmente lá. Para entrar os novos tem que abrir espaço, né? Decidimos também implantar um conselho de família que faz essa ligação da família com o negócio.
Leonardo Bortoletto: E a necessidade da família é porque há uma abertura para sócio externo agora,é isso?
Sérgio Cavalieri: O grupo tradicionalmente sempre foi dono 100% de todos os negócios. Quando nós, a terceira geração, teve oportunidade realmente de ficar à frente dos negócios, nós quebramos um pouco esse paradigma e passamos a admitir sócios externos. Por quê? Naquela época o mundo se globalizando, grandes empresas multinacionais vindo para o Brasil. Nós, para poder jogar esse jogo maior, sentimos que a gente quer reunir mais capital, mais competência. Então temos aceitado sócios externos sempre com muita precaução, por uma questão de valores, alinhamento de valores. Quando os valores se desalinham, aí vêm os conflitos, né? Os negócios ruins com sócios bons, você pode conseguir reverter. Um negócio bom com sócios ruins, o destino será o fim.
Leonardo Bortoletto: É muito mais importante definir o sócio do que o negócio, né?
Sérgio Cavalieri: Exatamente. Temos adotado esses sócios externos. Nós temos então as empresas ficam sempre profissionalizadas com executivos externos e as famílias em conselho de administração definindo as grandes estratégias.
Leonardo Bortoletto: Esse é o principal motivo para ter um sócio mesmo que ele seja investidor? Se não tiver um alinhamento de fé, um alinhamento de entendimento de negócio, já tá descartado?
Sérgio Cavalieri: Ah, exatamente. Lógico que cometemos erros no passado, né? Às vezes algumas desilusões com pessoas que a gente achava que ia ter um comportamento e tem outro. Tem até uma história interessante do Dr. Amynthas. Uma época que ele não tinha um sócio muito bom, ele chegou pro sócio e falou: "Ah, melhor a gente separar. Então eu vou fazer uma divisão aqui dos negócios, equipamentos, tudo, e você escolhe a parte que você vai ficar". O sócio falou que não podia ser assim. Então ele disse: "Ó, então você divide e eu escolho". "Não, Dr. Amynthas, não dá". Então ele falou: "Ó, então você divide e você escolhe". Quer dizer, é preferível encerrar o negócio do que continuar com um sócio ruim.
Leonardo Bortoletto: História sensacional. Vamos falar um pouquinho da Ale, porque eu acredito que talvez a Ale seja das marcas que mais alcançou visibilidade no grupo. Então, a gente pode dizer que a Ale, a criação dela foi uma das maiores startups do país?
Sérgio Cavalieri: Ah, hoje a gente conta essa história dessa forma, né? Mas foi realmente uma história muito interessante. Foi uma oportunidade de mercado, naquela época o Brasil estava abrindo o mercado de combustíveis. Nós conseguimos ter acesso a essa oportunidade porque a fábrica de cimento já era uma grande consumidora de derivados de petróleo. Ingressamos, montamos uma equipe excelente. Acho que um dos fatores de sucesso da Ale foi equipe. Conseguimos captar essas pessoas e ocupamos uma fatia importante do mercado em cerca de 12 anos. Em 12 anos estava entre as 50 maiores empresas do país. E foi tudo feito com muito carinho, a escolha das cores, da marca, o marketing. Um dos tios na época, logo após vendermos a fábrica de cimento, fomos contar para ele sobre a Ale. Ele falou: "Poxa, mas nós estamos acabando de sair de um setor extremamente competitivo, que era a área de cimento. E agora vocês, meninos, querem brigar com a Texaco, com a Esso, com a Shell?". Ele falou: "Estou fora". Mas até hoje a gente vê com muito gosto os postos Ale espalhados pelo Brasil todo.
Leonardo Bortoletto: Conta um pouquinho do processo de venda da Ale lá em 2018.
Sérgio Cavalieri: Esse foi um outro case interessante. Nós chegamos em um momento que para a Ale continuar crescendo, ela precisaria de novos investimentos e de novos sócios. Fizemos um processo de venda para o grupo Ultra, que é dono da Ipiranga. O CADE vetou a operação, o que foi uma surpresa geral. Demorou um ano. Imagina você administrar uma empresa vendida durante um ano. Em 2018 vendemos a Ale para um grupo suíço. Eles continuam tocando a empresa e praticamente não mudaram nada, nem a logo, nem as cores.
Leonardo Bortoletto: Em quase 100 anos, Sérgio, muita coisa deu certo, algumas provavelmente deram errado. Tem algum erro que se tornou um símbolo de aprendizado?
Sérgio Cavalieri: Acho que muitos erros e muitos acertos também. Mas o grupo nasceu de engenheiros, a família é muito ligada a Itabirito. O que os fundadores tiveram de marcante foi ser
precursores em muitas coisas. Eles foram os primeiros exportadores de minério de ferro na época da Segunda Guerra. Essa empresa que eles fundaram depois foi estatizada pelo Getúlio Vargas e essa empresa depois virou a Vale do Rio Doce, que é a nossa Vale de hoje. Então eles foram os precursores, fundadores da Vale, assim como da Acesita. Os três fundadores foram os nossos grandes exemplos.
Leonardo Bortoletto: Por que que Minas Gerais ainda é o centro das decisões do grupo Asamar?
Sérgio Cavalieri: É, acho que é uma questão da família praticamente a ligação maior é com Itabirito, né? Certo. O Alberto de Soares nasceu em Itabirito, meu avô nasceu em Itabirito, o lado Cavalieri também vem de Itabirito. aí, né, as famílias já se conheceram. E aí é justamente a história da família, né, do dos cavalheiros Soares Cavalieri, né? Meu sobrenome é Soares Cavalieri, Soares da mamãe, que era da família do Alberto Soares, toda da e das irmãs e dos cunhados, né? E o Cavalieri pelo lado italiano do primo Cavalieri, que era meu avô, já se conheciam, depois o papai estudou engenharia, eh e aí o Alberto convidou para trabalhar na Servieng, como engenheiro e acabou conhecendo a mamãe, que era a filha mais velha do Alberto, esse casal. Então essa ligação muito forte com o Itabirito, o vovô Alberto foi prefeito de Itabirito, foi deputado estadual representando a classe empresarial, do lado da mamãe também o Guilherme Gonçalves foi um médico muito importante de Itabirito, a rua principal de Itabirito leva o nome dele Dr. Guilherme, a praça principal Dr. Guilherme Gonçalves e temos uma casa lá que foi doada pela comunidade, pela comunidade de Itabirito, pela cidade para o Dr. Guilherme para que ele continuasse residindo no Itabirito. Interessante. Ficou doente, era um médico, eram dois médicos que atuavam em Itabirito naquela época. E a casa dele não tinha condição meio precária, estava com problema de tuberculose. E a família então deu, a cidade deu para ele uma casa em 1917, 1915. É, essa casa está até hoje lá, uma casa muito bonita no centro da cidade, é preservada. Então o ponto de encontro da família em Itabirito, né? Assim, muitas é, carnavais, Natal, Ano Novo, na família sempre unida em Itabirito. Itabirito, Minas Gerais, né? Toda a questão de mineração também? O grupo antes de existir a
Servieng, ainda o grupo foi o primeiro exportador de minério de ferro do Brasil, né? Na época ainda da Segunda Grande Guerra. Então temos essa ligação com as Minas Gerais e aqui todo mundo se sente em casa. E nós atuamos no Brasil todo, principalmente mais na região Sudeste.
Leonardo Bortoletto: Fala um pouquinho sobre infraestrutura do Brasil e o foco atual
Sérgio Cavalieri: Muita gente quando conversa sobre Brasil fala que a infraestrutura é o grande gargalo. É assim que você enxerga o grupo também assim enxerga? Ah, com certeza, né, Léo? Quando a gente viaja para o exterior, né, a gente vê o quanto que o Brasil tá atrasado. A gente vai para os países mais desenvolvidos, né? A nossa infraestrutura é muito é muito acanhada, né? Muito tímida em relação ao tamanho do país e em relação ao o que o país produz. Estradas, ferrovias, toda a parte de acesso, a logística custa muito cara para o brasileiro. Existe um desperdício muito grande de tempo, principalmente, imagina, trânsito, quanto milhões, né? Milhares, milhões de pessoas paradas num trânsito todo dia. As pessoas não podendo ou dedicar mais ao trabalho, não dedicar mais à sua família, ao lazer, ao descanso, né? É, perdas da produção agrícola, né, porque se perde muita coisa, até hoje atravessando estradas sem asfalto, quer dizer, uma coisa assim inacreditável, né? Em 2026, a gente ainda vê essa dificuldade da produção agrícola chegar nos portos para serem exportados, ou chegar às grandes cidades. Então, sem dúvida, um dos entraves que a gente tem no Brasil é a questão da infraestrutura que ela é muito deficiente em relação ao tamanho do país.
Leonardo Bortoletto: E falando de futuro, falando do plano de voo do Grupo Asamar, tá muito vinculado à infraestrutura também. Concorda?
Sérgio Cavalieri: Nós estamos ainda passando por esse período de recomposição do nossa dos nossos negócios, né, depois dessas da venda dessas empresas que a gente que teve aí nos últimos 5, 6 anos. E temos olhado vários setores, né? Essa questão essa busca, né, de novos negócios. Dá muito trabalho também, porque é sempre uma decisão estratégica.
Você estuda vários negócios e tem que eleger um para entrar e uma escolha errada ali é você, né, não só perda de tempo, perda de recursos e às vezes até prejuízos. E nós temos olhado muita coisa no setor de mineração, continuamos investindo muito na área de desenvolvimento imobiliário, com empreendimentos imobiliários importantes, o maior deles aqui na Lagoa dos Ingleses. Temos um outro empreendimento, um outro loteamento muito grande em Goiânia, que é o Portal do Sol. Temos um terceiro loteamento importante também, que é no Vale do Paraíba, entre Caçapava, entre São José dos Campos e Taubaté. Temos atuado bastante nessa área imobiliária. Área de energia, investimos agora mais recentemente em duas usinas solares, Pitanguinha e Capelinha, as duas aqui em Minas Gerais. É, estamos olhando novos negócios aí para investir
Leonardo Bortoletto: Falando nessa linha dos princípios, conta um pouquinho da ADCE e o que que você faz lá.
Sérgio Cavalieri: ADCE significa Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa. Meu pai foi um dos fundadores no Brasil em 1961. Esse movimento mundial se encaixou muito nos valores que o grupo defende. É um movimento empresarial que entende que as empresas têm um papel insubstituível no mundo. Sou atualmente presidente da ADCE Brasil e acredito firmemente que a melhor orientação para se conduzir os negócios estão nesses valores cristãos, que é chamada da Doutrina Social da Igreja. Quando você adota essa postura, é o alavancador de resultado da sua empresa. A sociedade começa a ver a empresa como um fato relevante e começa a torcer pela empresa.
Leonardo Bortoletto: É a grande diferença entre os princípios imediatistas e os princípios da gente.
Sérgio Cavalieri: Exatamente. É preciso persistir nesses valores para que você tenha um futuro.
Leonardo Bortoletto: Quadro Raio/X. Bate e volta. Tradição ou inovação?
Sérgio Cavalieri: Inovação com tradição. Se você não está conectado com as inovações, está fora de mercado. Mas as tradições do passado têm que estar ali dando o direcionamento.
Leonardo Bortoletto: Crescer com controle ou crescer rápido?
Sérgio Cavalieri: Crescer com controle. Tem que ter velocidade, mas tem que ter gestão. Quem não mede não pode gerenciar.
Leonardo Bortoletto: Capital próprio ou bons sócios?
Sérgio Cavalieri: Bons sócios. Sendo um bom sócio, ele agrega capital, inteligência e conhecimento de mercado.
Leonardo Bortoletto: Pergunta de Ouro, enviada pelo Luciano (EPR). Considerando que seu grupo tem 100 anos, como você explica essa longevidade e o que tem de especial para partilhar?
Sérgio Cavalieri: Acho que é manter os encontros familiares. A família se reúne todo ano em julho. O exercício desse valor está o tempo todo. Nas nossas reuniões de conselho, antes de começar a reunião, sempre rezamos um Pai Nosso. São características que vão passando de geração em geração. Mostramos para os mais jovens as dificuldades e o que já foi realizado. Nem todos terão local para estar no dia a dia, mas tem que ter essa confiança e esse desejo de continuar junto construindo essa história.
Leonardo Bortoletto: Algum conselho final sobre liderança?
Sérgio Cavalieri: Dar espaço para a equipe, deixar a equipe brilhar e crescer. Existe uma palavra pouco conhecida que é subsidiariedade: nós, como chefes executivos, atuamos de forma subsidiária à pessoa. Deixar a pessoa assumir responsabilidade e errar para ela poder crescer. Quando chegamos em uma determinada posição, não precisamos brilhar mais, o que precisa brilhar é a equipe. E o outro conselho é a humildade. Todo mundo tem sua competência e deve buscar sempre aprendizado.
Leonardo Bortoletto: Sérgio, muito obrigado pela tua presença.
Sérgio Cavalieri: Obrigado, Léo. Um grande prazer.
Leonardo Bortoletto: Muito obrigado por nos acompanhar até aqui. Te espero no nosso próximo episódio do Itatiaia Negócios Cast.
O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todas as terças-feiras, às 19h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
Grandes nomes. Grandes histórias. Grandes decisões.
Itatiaia Negócios Cast. Onde líderes se encontram.





