A multinacional Statkraft, da Noruega, maior geradora de energia renovável na Europa e com sede brasileira em Florianópolis, começa 2026 com diversos planos de expansão, após um ano histórico em 2025, quando inaugurou dois grandes projetos híbridos no país durante a COP30. Quem está à frente da companhia é o engenheiro catarinense Thiago Tomazzoli, primeiro brasileiro a ocupar a presidência nacional da empresa.
O executivo destaca que a Statkraft planeja crescer neste ano com projetos próprios, mas não descarta estudar aquisições. A companhia tem, também, em fase de aprovação, dois grandes projetos que poderão elevar em 20% a potência instalada própria no país em cerca de três anos.
Veja mais imagens sobre a multinacional Statkraft e o seu presidente no Brasil:
As inaugurações do ano passado – durante a Conferência da ONU sobre o Clima (COP30) – contaram com a participação da presidente global da companhia, Birgitte Ringstad Vartdal. São duas usinas híbridas na Bahia (solares e eólicas).
Entre os projetos do ano passado estão, também, um contrato para atender a indústria Tigre, de Joinville, Santa Catarina, e outro que estreia novo aerogerador da WEG, atualmente o maior das Américas.
Nesta entrevista exclusiva à NSC, Thiago Tomazzoli fala de investimentos no parque gerador, de inovação, dos 20 anos do Complexo Eólico Osório (RS) e sobre a gestão diferenciada de pessoas desenvolvida por uma multinacional europeia focada em excelência.
Graduado em Engenharia de Produção Elétrica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com MBA em Gestão Financeira pela Fundação Getúlio Vargas, Thiago Tomazzoli tem 38 anos e desenvolveu a carreira na companhia até chegar à presidência. Em fevereiro de 2025, sucedeu o executivo espanhol Fernando de Lapuerta, que assumiu cargo na Europa. Saiba mais sobre a companhia e a trajetória do catarinense na entrevista a seguir:
Quais são os principais projetos de investimentos da Statkraft Brasil para 2026?
– A Statkraft é uma investidora de longo prazo e o Brasil é um mercado prioritário, concentrando cerca de 10% da capacidade e geração global do grupo. Para 2026, daremos continuidade ao plano iniciado em 2025, com foco na execução do pipeline de projetos estruturados.
Atuamos nos segmentos hídrico, eólico e solar e avançamos com um piloto de baterias, com possibilidade de crescimento via desenvolvimento próprio, construção e aquisições. O foco está na implementação de novos projetos e na otimização dos ativos operacionais.
Como funciona o piloto de baterias?
– Hoje, temos um ativo de 500 MW de eólica e 160 MW de solar no interior da Bahia. A esses dois projetos estamos acoplando uma bateria de 1 MW, como projeto piloto.
O projeto recebeu a primeira autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para a inserção de um sistema de armazenamento de energia colocalizado a uma usina de geração no Brasil, estabelecendo um marco relevante para o avanço regulatório do setor. O sistema está em fase final de trâmites técnicos para a entrada em operação.
Basicamente, o excedente de geração em determinados períodos pode ser armazenado na bateria, em vez de ser injetado no sistema. Quando houver déficit de recurso, descarregamos esse conjunto de baterias, que no presente caso totaliza 1 MW, como piloto tecnológico.
Primeiro ano e parcerias
O senhor acaba de completar o primeiro ano como presidente da Statkraft Brasil e é o primeiro brasileiro a ocupar o cargo. Como foi esse ano de estreia à frente da empresa?
– O ano 2025 foi muito relevante, marcado pela revisão da estratégia global e por avanços em eficiência operacional e rentabilidade, mantendo o foco na sustentabilidade de longo prazo. Participamos da COP30 em Belém, onde inauguramos remotamente dois ativos híbridos na Bahia.
Também entregamos o complexo solar de Serrita (Pernambuco), com 60 MW e produção anual de 153 GWh, e inauguramos um projeto eólico com tecnologia nacional da WEG, um repowering de 7 MW com o maior aerogerador onshore das Américas. Esse é um movimento totalmente alinhado à nossa estratégia de modernização de ativos.
O senhor mencionou usinas híbridas, projetos híbridos, certo? Isso significa dois sistemas ao mesmo tempo?
– Sim, são projetos eólicos combinados com solares. No mesmo local, utilizando o mesmo ponto de conexão. Nosso perfil de geração eólica é predominantemente noturno, enquanto a geração solar ocorre durante o dia. Dessa forma, conseguimos uma curva de geração mais estável. Em um desses projetos híbridos instalamos o piloto de bateria, conforme falamos anteriormente.
Como funciona a parceria com a Tigre? Outras empresas também podem aderir a esse modelo?
– Trata-se de um projeto de autoprodução por equiparação. Entregamos 11 MW médios por ano, em um contrato de 15 anos. A energia fornecida vem de um parque eólico no interior da Bahia, atendendo cerca de 70% da demanda energética da Tigre. Nesse modelo, a Tigre é nossa sócia: participa da sociedade e tem assento no conselho da SPE, enquanto nós fazemos a gestão do ativo.
Os benefícios incluem previsibilidade de custos para o cliente e uma solução customizada que agrega valor para ambas as partes no longo prazo. Esse modelo pode ser replicado em novos projetos, com empresas de perfil semelhante ao da Tigre, data centers e outros nichos de mercado.
Vocês também atuam na comercialização de energia no mercado livre?
– Sim. A Statkraft é responsável pelos ativos de geração, e outra empresa do grupo dedicada à comercialização de energia. A comercializadora possui escritórios no Rio de Janeiro, em São Paulo e aqui em Florianópolis e é responsável pelo trading e pela originação da energia do grupo, além de prestar serviços para terceiros.
A companhia tem um plano de expansão de geração para 2026? Quanto vocês pretendem crescer em relação ao que têm hoje?
– Temos um plano de crescimento. Atualmente, contamos com dois projetos em fase avançada de desenvolvimento. São tecnologias que já fazem parte do nosso portfólio, mas, por questões estratégicas, ainda não podemos divulgar detalhes. Somados, esses projetos podem aumentar nossa potência instalada em aproximadamente 20%. Não é uma entrega imediata, trata-se de um horizonte de três anos.
E se surgirem oportunidades de venda ou compra de usinas, vocês estão abertos?
– Sim. Monitoramos o mercado para aquisições e também realizamos vendas oportunas de ativos por uma questão de diversificação do portfólio. Já vendemos, por exemplo, um projeto greenfield de 30 MW para a Celesc e três ativos no Espírito Santo, somando 11,5 MW, todas essas operações geraram valor para a empresa.
Temos obtido sucesso na estratégia de reciclagem do portfólio, o que reforça a atratividade do Brasil dentro do grupo. Mesmo em um cenário desafiador, mantemos critérios rigorosos de aprovação e margens de segurança elevadas. Todos os investimentos são feitos com disciplina e foco em rentabilidade sustentável.
Como a Statkraft inova no Brasil?
– Trabalhamos com performance e predição de falhas, desenvolvendo algoritmos que antecipam a falha de equipamentos. Também temos projetos de melhoria de performance de geração. Implantamos recentemente, na Bahia, um projeto em que aplicamos pequenas “barbatanas” nas pás dos aerogeradores, capazes de aumentar a eficiência de geração entre 1% e 2%.
Há ainda iniciativas para melhorar a eficiência da manutenção dos ativos. Com parcerias com entidades públicas e privadas, aprimoramos a execução da manutenção, reduzir custos e aumentar a produção. O último foi com a WEG, na implantação do aerogerador de 7 MW.
O Complexo Eólico de Osório, um ativo da Statkraft, chega aos 20 anos logo mais, em junho de 2026. Foi um projeto muito marcante para a Região Sul. O que ele representa para a empresa e como será comemorado esse aniversário?
– Foi um projeto pioneiro, com grande impacto na Região Sul e no Rio Grande do Sul, uma das primeiras eólicas do estado. Conta com 148 aerogeradores e 318 MW de capacidade instalada. Na época da implantação, foi uma referência de desenvolvimento sustentável, com forte impacto econômico e social.
Osório tem uma conexão muito grande com o parque no comércio local, nos restaurantes e até em produtos, como miniaturas de aerogeradores.
Esse projeto deixou um legado e mostrou o potencial da energia eólica também no Sul, não apenas no Nordeste. Ainda estamos trabalhando como será feita essa celebração, mas o que posso antecipar é que é um marco que não passará em branco.
– Eu gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como chegou à presidência da Statkraft Brasil. Não é comum um jovem executivo, de 38 anos, chegar a esse posto à frente de uma multinacional. O que fez diferença?
– Estou há 14 anos na Statkraft. Entrei em 2012 como estagiário na área financeira, em um momento em que a empresa ainda era menor no Brasil, o que me permitiu atuar em diferentes áreas e acompanhar de perto o crescimento do negócio.
Ao longo dessa trajetória, passei por finanças, operações, regulação, comercialização, meio ambiente e gestão de ativos. Essa experiência diversa ajudou a construir uma visão mais ampla da empresa e do setor.
Acredito que o que fez diferença foi a combinação entre aprendizado contínuo, colaboração e disposição para ajudar a resolver problemas do negócio. Também tive a oportunidade de contar com a confiança de lideranças e com equipes muito qualificadas ao longo do caminho.
Com o tempo, vieram novos desafios, incluindo a vice-presidência de operações e gestão de ativos, até assumir a presidência da Statkraft Brasil no ano passado. Vejo essa trajetória como resultado de oportunidades construídas, do crescimento da empresa e do trabalho conjunto de muitas pessoas.
A Statkraft é uma companhia com gestão avançada também nas áreas social e ambiental. O que o senhor destaca?
– A dimensão social é uma das nossas licenças para operar, junto com saúde, segurança e compliance. Não basta entregar resultado: o modo como entregamos é fundamental. Quando entramos em uma região com um projeto, buscamos gerar impacto social positivo.
Sabemos que, no contexto brasileiro, há movimentos que nem sempre são favoráveis às renováveis, mas nossa intenção é desenvolver iniciativas que criem independência para a comunidade em relação ao empreendimento, seja ele eólico, hidráulico ou solar.
Priorizamos projetos de geração de renda que tragam benefícios de longo prazo. A lógica é “ensinar a pescar”, não apenas oferecer ações pontuais durante a construção e depois sair sem deixar legado. De forma geral, a percepção das comunidades em que atuamos é muito positiva.
E sobre a área ambiental?
– No prédio onde estamos sediados, em Florianópolis, por exemplo, temos geração solar própria e implantamos um dos primeiros pontos de recarga para veículos elétricos, ainda quando essa tecnologia estava ganhando espaço, como forma de incentivar o uso. Em termos ambientais, não nos limitamos às condicionantes das licenças. Procuramos ir além, sempre avaliando o impacto positivo para o entorno.
No Brasil, já alcançamos as metas corporativas, inicialmente previstas para 2030, relativas à emissão de carbono, e fomos um dos primeiros países do grupo a obter certificação I-REC, que comprova a origem renovável da energia e permite a comercialização de créditos.
As energias renováveis também geram impactos, mas são significativamente menores quando analisamos todo o ciclo de vida dos projetos. Buscamos minimizar danos, compensar impactos e, muitas vezes, superar as exigências legais para garantir que não haja efeitos ambientais relevantes.
Vocês também têm uma política salarial diferenciada em relação a outras empresas do setor nos seus projetos em construção. Como é essa prática?
– Temos uma preocupação grande com o salário digno, por isso o Living Wage é um diferencial social da empresa. Não nos limitamos ao salário-mínimo legal. Em obras e contratos com terceiros, estabelecemos um valor que garanta condições adequadas de vida para os trabalhadores.
Isso inclui regras como respeito às mulheres, às crianças e outras questões de inclusão?
– Sim. Algumas pautas são prioridades, como o Living Wage e a equidade de gênero. Há metas globais de participação feminina, mas sempre com base em competência. Nossa meta é um mínimo de 40% de mulheres até 2030, em todos os níveis. O essencial é não discriminar ninguém por gênero, raça ou qualquer outro fator, é construir uma cultura de respeito. Quando essa base existe, o equilíbrio acontece naturalmente. Hoje, temos cerca de 30% de mulheres na gestão.





