• Sábado, 30 de agosto de 2025

EUA consolidam protecionismo e remodelam comércio global

Tarifas, subsídios e medidas estratégicas nacionalistas provocam embates e transformam a política econômica no “país da liberdade”.

A economia norte-americana consolidou medidas protecionistas e nacionalistas, afastando-se do modelo liberal estabelecido, nas últimas décadas. Tarifas sobre aço, alumínio, produtos chineses, subsídios para microchips e incentivos à produção doméstica definem o novo padrão de política econômica, que já altera cadeias globais de suprimento e pode elevar pressões inflacionárias.

Os EUA historicamente privilegiavam integração global e acordos multilaterais. O movimento tem se alterado nos mandatos dos últimos 2 presidentes –Donald Trump 1 (2017-2021), Joe Biden (2021-2025) e Trump 2 (2025-atual). Hoje, a prioridade é produção nacional e proteção do mercado interno, com intervenção estatal concentrada em setores estratégicos e controle sobre exportação de tecnologia sensível.

Segundo o economista Thiago Velloso ao Poder360, “o movimento iniciado no Trump 1 se consolidou. Joe Biden (Partido Democrata) reforçou incentivos para fábricas retornarem aos EUA e subsídios verdes [benefícios para empresas que investem em energia limpa e tecnologia sustentável] , e Trump 2 ampliou a ação mostrando que a política protecionista não é conjuntural”.

O governo de Donald Trump (Partido Republicano) e o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) apresentam tensões sobre juros e estímulos econômicos. Trump defende que Jerome Powell, presidente da autoridade monetária, deveria reduzir as taxas de juros para estimular investimentos.

O republicano argumenta que a arrecadação obtida com as chamadas “tarifas recíprocas” –impostos de importação de pelo menos 10% sobre mais de 180 países instituídos de forma unilateral– oferece margem fiscal para políticas de estímulo à economia. A taxa de juros dos EUA está no intervalo de 4,25% a 4,50% desde dezembro de 2024.

O economista André Mirsk explica ao Poder360 que “o governo pressiona para manter investimentos e empregos estratégicos, enquanto o Fed mantém taxas para conter inflação, revelando a centralidade do protecionismo na política econômica”.

Para Velloso, “na prática, as tarifas norte-americanas importam inflação, aumentando preços de produtos importados para consumidores internos”. Apesar disso, Trump defende que a estratégia é capaz de estimular o mercado interno e fortalecer as indústrias nacionais a partir do desestímulo às importações e incentivo à produção local, estimulando reshoring –retorno de fábricas e produção que estavam no exterior– e atraindo investimentos para setores estratégicos, como tecnologia e semicondutores.

O comércio internacional também é impactado, com crescente fragmentação e fortalecimento de blocos regionais. O Brics e a UE (União Europeia) passaram a estudar medidas de proteção de mercado, como tarifas retaliatórias e incentivos à produção local, em resposta ao aumento do protecionismo norte-americano nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, o protagonismo da OMC (Organização Mundial do Comércio) tem sido reduzido, com seu sistema de resolução de disputas travado desde 2019 devido à recusa dos EUA em nomear novos árbitros para o Órgão de Apelação.

O protecionismo norte-americano reflete, ainda, tendências internacionais, e o redesenho das cadeias globais levou empresas a diversificar fornecedores. Velloso lembra que “Europa, China, Japão e Índia aplicam políticas semelhantes; o mundo está mais protecionista”. Já Mirsky observa que medidas emergentes buscam segurança de abastecimento e autonomia estratégica, priorizando resiliência sobre eficiência pura.

Há também a corrida tecnológica contra a China. Ambos os países buscam avanços no campo da IA (inteligência artificial). Os EUA, que anteriormente haviam bloqueado a venda de chips para o país asiático, passaram a permitir essas transações, desde que as empresas norte-americanas envolvidas paguem uma taxa de 15% sobre as vendas realizadas. Essa medida representa uma abordagem inédita para os padrões norte-americanos, que tradicionalmente não estimulavam esse tipo de transação.

Como forma de estimular o mercado interno e assegurar segurança em setores estratégicos, a Casa Branca tornou-se acionista de 10% das ações da Intel em agosto, investindo cerca de US$ 10,9 bilhões por meio do Chips Act, programa que incentiva a produção doméstica de semicondutores. A medida, incomum para padrões norte-americanos, também integra o Secure Enclave, iniciativa que oferece apoio estratégico e proteção a tecnologias críticas.

Para Mirsky, a medida evidencia “uma guinada estratégica em setores-chave, como semicondutores, com caráter industrial e geopolítico”. Ele acrescenta que tais medidas buscam “reduzir dependência de rivais estratégicos, estimular reshoring e proteger empregos críticos à segurança econômica”.

Por: Poder360

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