Por mais um ano, a capital mineira se transforma na “capital do leite” da América Latina. Entre os dias 2 e 6 de junho, o Parque da Gameleira sedia a 21ª edição da Megaleite (Exposição Nacional da Raça Girolando), marcando a 10ª vez que o evento é realizado em Belo Horizonte. Com mais de 100 empresas expositoras e comitivas internacionais da América Latina, África e Ásia em busca da consagrada genética brasileira, a feira projeta movimentar o mercado com 12 leilões de animais.
Sob o tema “Aqui tem leite”, a exposição deste ano propõe um mergulho profundo na cadeia produtiva, mostrando que o impacto do setor vai muito além do copo na mesa do consumidor.
“Queremos mostrar ao público que a pecuária leiteira contribui com o desenvolvimento de diversos setores. O leite, seus componentes e subprodutos são utilizados na produção de fármacos, embalagens sustentáveis, cosméticos, produtos de higiene pessoal, colas, tintas, papéis especiais, bioplásticos, tecidos, suplementos humanos e veterinários, rações, além de alimentos”, explicou Alexandre Lacerda, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, em coletiva de imprensa realizada na manhã desta quarta-feira (3).
Oficializada no Brasil há 30 anos (reconhecida em fevereiro de 1996 pelo Ministério da Agricultura), a raça Girolando — fruto do cruzamento entre as raças Holandesa e Gir — tornou-se a grande protagonista do setor. Das 16 milhões de cabeças que compõem o rebanho leiteiro nacional hoje, a genética Girolando é responsável por cerca de 80% de todo o leite produzido no país.
Mais do que números de mercado, a raça carrega uma importância social vital para a sobrevivência do pequeno produtor. De acordo com os dados apresentados pela associação, a atividade leiteira está presente em 98% dos municípios brasileiros (atingindo 100% em Minas Gerais) e emprega cerca de 4 milhões de pessoas em 1 milhão de propriedades.
Segundo dados da Embrapa Gado de Leite e uma estratificação realizada pelo portal MilkPoint, o perfil do produtor brasileiro é majoritariamente familiar. Cerca de 60,7% dos produtores do país entregam de 0 a 200 litros de leite por dia, e 29,4% produzem de 200 a 1.000 litros. Isso significa que quase 90% dos pecuaristas são de pequeno porte, sendo eles os responsáveis por mais de 70% dos 35 bilhões de litros de leite que o Brasil produz anualmente.
Concentração da produção de leite no Brasil:
Alexandre Lacerda rebateu as críticas sobre a eficiência do setor no campo: "As discussões que a gente tem travado atualmente no mercado sobre a questão da eficiência, muito se questiona, nós afirmamos claramente: nós evoluímos muito enquanto pecuaristas. Nossos produtores são eficientes, inclusive os pequenos evoluíram muito. A grande comprovação disso é que nós tínhamos uma média de produção de 4.000 kg animal/ano há 20 anos e já estamos chegando nos 8.000 kg animal/ano", pontuou o presidente.
O superintendente executivo da Girolando, Celso Menezes, endossou o panorama de crescimento, destacando a evolução histórica do país, que deixou o papel de maior importador do mundo no passado para se consolidar no topo global. "O Brasil hoje é o quarto maior produtor de leite do mundo. Nós estamos hoje com 35 bilhões de litros mais ou menos por ano", afirmou Menezes.
Menezes destacou que, entre 2011 e 2021, o volume total de leite nacional teve um aumento modesto de 10% (de 32 para 35 bilhões de litros). Contudo, a produtividade por animal saltou impressionantes 60% no mesmo período, subindo de uma média de 1.400 litros para 2.200 litros por cabeça/ano. "O que é que aconteceu nos últimos 10 anos? Impulso tecnológico, melhoramento genético, melhoramento de manejo, melhoramento de gestão", explicou o superintendente.
A resposta para a soberania da raça no país reside na sua versatilidade e resiliência climática. Enquanto raças altamente especializadas sofrem com o calor tropical e exigem ambientes artificializados de alto custo — apresentando uma vida útil curta de pouco mais de dois partos —, o Girolando trilha o caminho inverso.
"No caso do Girolando não. Você tem vacas com seis partos e atingindo exatamente o ápice da vida produtiva", comparou Celso Menezes. Ele ressaltou a flexibilidade dos graus de sangue da raça (meio sangue, 3/4 e 5/8) para se adaptar desde o Nordeste ao Sul do país: "Muitas vezes o pessoal fala assim: 'o tal de Girolando não produz leite sem o bezerro no pé, tem que usar oxitocina'. Não existe isso não. O Girolando atende muito bem os sistemas de produção de leite mais intensificados. Por que o empresário coloca a vaca Girolando? Porque ela reproduz, me dá seis crias, não me dá problema de saúde, não me dá problema de casco".
A evolução da raça também salta aos olhos na conformação física das matrizes. Durante o evento, a diretoria relembrou a transformação do "tipo econômico" do gado comparando a primeira grande campeã nacional 5/8, de 1989 (a vaca Brinco de Princesa), com a grande campeã de 2024, evidenciando melhorias drásticas em garupa, sistema mamário e profundidade de costelas. Na atual Megaleite 2026, o torneio leiteiro já registra vacas quebrando recordes, atingindo médias impressionantes de até 120 kg de leite em um único dia.
O avanço da raça ganhou um capítulo histórico na feira com a assinatura de um novo contrato entre a Associação Girolando e a Embrapa Gado de Leite focado em Edição Gênica. A parceria visa aplicar o que há de mais moderno na ciência para identificar e replicar marcadores zootécnicos de interesse, como o caráter mocho (ausência de chifres), resistência a carrapatos e maior tolerância ao calor através do gene do pelo curto.
Além da tecnologia de laboratório, a raça provou ser uma aliada inesperada do meio ambiente. Pesquisas realizadas através do Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando (PMGG) comprovaram que o ganho genético elevou a produção em 60% (2.192 kg de leite em 305 dias) e, em contrapartida, gerou uma redução de 40% na emissão de gás metano por quilo de leite produzido.
Celso Menezes traçou o paralelo perfeito para fechar o diagnóstico do atual momento da pecuária nacional: "Girolando é uma vaca mais eficiente naturalmente aproveita melhor os alimentos, tem uma melhor eficiência ambiental e tem uma menor intensidade de produção de metano. As nossas vacas estão cada vez mais eficientes".
Com o mercado consciente e a comercialização de sêmen da raça tendo dobrado nos últimos anos — fechando o último ciclo com 1.333.000 doses vendidas —, o Girolando se consolida na Megaleite não apenas como a base do ecossistema leiteiro nacional, mas como uma grife genética exportada para o mundo.





