• Quarta-feira, 3 de junho de 2026

Tilápia mais barata no Brasil? Veja o que muda com a nova regra dos EUA

Entenda por que a sobretaxa americana de 25% afeta diretamente a rentabilidade do produtor rural, mas o volume redirecionado não tem força estatística para derrubar o valor do peixe nos supermercados brasileiros.

A recente decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), oficializada no início de junho de 2026, acendeu um alerta vermelho no agronegócio nacional. Ao propor uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, o governo americano deixou a tilápia, nosso peixe mais exportado, de fora da lista de isenções. Com a perspectiva de que a nova regra dos EUA entre em vigor no dia 15 de julho, muitos consumidores passaram a questionar se a retenção das exportações causaria uma superoferta interna, barateando o produto nos supermercados do Brasil.

A resposta, respaldada por analistas de mercado, pesquisadores e representantes do setor produtivo, é clara: o impacto no bolso do consumidor brasileiro será praticamente nulo. O verdadeiro peso dessa barreira comercial recairá sobre o produtor rural e a indústria de processamento, que já buscam estratégias para não perder competitividade no cenário internacional.

A matemática do mercado interno frente à nova regra dos EUA

Para entender por que o peixe não vai ficar significativamente mais barato, é preciso olhar para a proporção do que o Brasil produz e do que efetivamente vende para fora. Atualmente, os Estados Unidos são o destino de 90% do volume de tilápia exportado pelo Brasil. Apesar dessa forte dependência do mercado americano, as remessas internacionais representam apenas 2,1% de toda a produção nacional, conforme indicam os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Matheus Do Ville Liasch, analista de mercado de tilápia do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), explica que o mercado interno absorve quase a totalidade da produção. Segundo o pesquisador, mesmo que as exportações recuem e esse volume excedente seja redirecionado para peixarias e supermercados locais, a quantidade não tem força estatística para provocar uma queda estrutural nos preços em escala nacional.

Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (PeixeBR), corrobora essa visão. Ele pontua que o consumidor pode até notar alguma oscilação promocional em mercados regionais muito específicos, mas nada que altere a média de preços do país de forma sustentada. O recolhimento da taxa não é feito pelo produtor brasileiro no momento do embarque, mas sim pago pelas empresas importadoras dos Estados Unidos, o que encarece o produto brasileiro na gôndola americana e reduz a atratividade das nossas exportações.

Danos colaterais: por que a tilápia entrou na mira da Seção 301?

A imposição dessa nova regra dos EUA transcende a piscicultura. A medida é fruto de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, iniciada pelo governo americano para apurar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.

Análises recentes do mercado econômico e relatórios do USTR revelam que os alvos principais dos Estados Unidos são, na verdade, políticas internas brasileiras. O governo americano questiona, por exemplo, o sucesso do sistema de pagamentos Pix, restrições impostas por decisões judiciais no Brasil a plataformas digitais americanas e a demora na análise de pedidos de patentes biofarmacêuticas. Como retaliação, os EUA propuseram o tarifaço que acabou atingindo em cheio o agronegócio e a indústria de pescados.

Diferente de setores como o da carne bovina, do açúcar e do café, que conseguiram negociar cotas e isenções para proteger o abastecimento americano, a tilápia brasileira enfrenta uma concorrência global acirrada. O Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os maiores exportadores da proteína para os EUA, atrás de gigantes asiáticos e latino-americanos como China, Indonésia e Colômbia.

A defesa do setor produtivo e a busca por alternativas

As entidades representativas do setor pesqueiro brasileiro estão se mobilizando intensamente em Washington para tentar reverter a situação antes da implementação oficial da tarifa. Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), argumenta que a inclusão da tilápia nessa retaliação prejudica diretamente o próprio consumidor americano.

O Brasil consolidou sua posição como o segundo maior fornecedor de filés frescos de tilápia para os Estados Unidos, entregando um produto de alto valor agregado, cultivado com tecnologia de ponta e sob rígidos padrões sanitários. A grande maioria da tilápia comprada de países asiáticos chega ao mercado americano no formato de filé congelado. Taxar o produto fresco brasileiro significa, na prática, encarecer a opção de maior qualidade nas prateleiras dos EUA.

O histórico recente mostra que os produtores brasileiros sofrem quando barreiras semelhantes são erguidas. Tentativas anteriores de sobretaxação, anuladas posteriormente, forçaram os piscicultores a absorverem parte dos custos operacionais para não perderem seus clientes internacionais, prejudicando gravemente a rentabilidade das fazendas. Apenas no segundo semestre do ano passado, as exportações brasileiras para os EUA chegaram a despencar 43,7% devido ao clima de incerteza tarifária.

Para mitigar esses riscos de dependência, o Brasil tem voltado seus esforços para a abertura de novos canais diplomáticos e comerciais. O Canadá, por exemplo, tem ampliado suas compras do filé brasileiro, mas os especialistas alertam que a consolidação de novos mercados internacionais exige tempo, investimentos contínuos e uma estratégia de longo prazo que não resolve a urgência do produtor no curto prazo.

O que escapou da taxação comercial?

Apesar do cenário desafiador para a aquicultura, o processo de consulta pública e pressão do agronegócio garantiu que uma fatia expressiva da pauta de exportações ficasse isenta da cobrança de 25%. A lista de produtos preservados pela diplomacia comercial inclui:

  • Proteína Animal e Frutos do Mar: Cortes selecionados de carne bovina, miúdos, carne seca, além de corais e conchas.
  • Agricultura e Hortifrúti: Café, chás, erva-mate, cacau, sucos de frutas, mandioca, tomates, abacates e castanhas.
  • Recursos Minerais e Energia: Minério de ferro, cobre, alumínio, óleos de petróleo refinados, gás natural e energia elétrica.
  • Químicos e Insumos: Fertilizantes essenciais para o plantio, vacinas de uso humano e veterinário, antibióticos e hormônios.
  • Indústria Aeroespacial e Manufatura: Motores de aeronaves, componentes de voo, celulose e metais preciosos como ouro e platina.
  • Por: Redação

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