Vaca usa vassoura para se coçar e seu comportamento intriga cientistas
Veronika, uma vaca de estimação na Áustria, foi a primeira bovina documentada cientificamente usando uma “ferramenta” para coçar o próprio corpo — e ainda alternando as pontas conforme a sensibilidade da região.
Veronika, uma vaca de estimação na Áustria, foi a primeira bovina documentada cientificamente usando uma “ferramenta” para coçar o próprio corpo — e ainda alternando as pontas conforme a sensibilidade da região. Uma vaca austríaca chamada Veronika virou protagonista de uma descoberta científica rara — e, ao mesmo tempo, muito simbólica. Ela foi observada pegando objetos com a boca, posicionando-os de forma estratégica e usando-os para alcançar partes do corpo que não conseguiria coçar sozinha, como as costas e regiões menos acessíveis. O comportamento, registrado ao longo de anos pelo dono e depois analisado por pesquisadores, foi descrito em um estudo publicado no periódico Current Biology em 19 de janeiro de 2026. Segundo os cientistas envolvidos, trata-se do primeiro registro formal de uso de ferramentas em uma vaca, algo que, surpreendentemente, nunca havia sido documentado com rigor científico em bovinos — apesar de o ser humano conviver com o gado há cerca de 10 mil anos.
E o detalhe mais impressionante é que Veronika não apenas “brinca” com o objeto: ela usa a ferramenta com intenção clara, com precisão… e com adaptação. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Veronika é uma vaca da raça Swiss Brown (Parda Suíça) e vive em Nötsch im Gailtal, uma pequena cidade da Áustria, ao sul do país, em uma região próxima aos Alpes. Ela não está em um sistema de produção convencional. Pelo contrário: vive como vaca de estimação, com liberdade para pastar, conviver com pessoas e explorar o ambiente. Esse ponto, aliás, pode ser fundamental para explicar por que esse comportamento emergiu. Durante aproximadamente uma década, seu dono observou um padrão repetido:
Veronika pega gravetos, escovas e ferramentas de jardinagem com a língua e a boca
manobra e ajusta o objeto
e então coça o próprio corpo, especialmente regiões difíceis de alcançar
Quando especialistas em comportamento animal da Universidade de Medicina Veterinária de Viena viram um vídeo da vaca em ação, a reação foi imediata: aquilo parecia muito além de um “acaso”. Foto: Scientific AmericanNão era coincidência. Era estratégia.
Para entender se Veronika realmente se encaixava na definição técnica de “uso de ferramentas”, os pesquisadores montaram uma sequência de testes controlados. Eles posicionaram uma escova de jardim em frente à vaca, em diferentes orientações, e observaram como ela reagia. Cada tentativa era registrada com atenção a três pontos principais:
Como Veronika pegava a escova
Qual extremidade ela escolhia
Qual parte do corpo ela tentava atingir
O resultado confirmou algo ainda mais raro: ✅ Veronika usava a escova de forma multifuncional Ou seja, ela não usava o objeto de maneira “única”. Ela fazia escolhas.
Cerdas para regiões de pele mais grossa (parte superior do corpo, como o dorso)
Cabo liso para regiões mais sensíveis (parte inferior, como a barriga e o úbere)
Essa diferença pode parecer simples, mas para a ciência do comportamento animal ela é enorme. Significa que a vaca:
distingue textura e função
reconhece sensibilidade corporal
ajusta o movimento conforme o objetivo
e executa a ação com coordenação e repetição
Ou seja: não é um gesto aleatório. É uma solução. O autor principal do estudo, Antonio J. Osuna-Mascaró, pós-doutorando da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, afirmou que o caso revela algo que foi ignorado por tempo demais. Segundo ele, as vacas têm potencial para inovar no uso de ferramentas, e os humanos simplesmente não olhavam para isso como possibilidade.
“Existem cerca de 1,5 bilhão de cabeças de gado no mundo. É chocante que só estejamos descobrindo isso agora.”Foto: Scientific AmericanPara o pesquisador, o estudo abre caminho para que outros bovinos sejam observados sob uma ótica diferente: não apenas como animais dóceis ou “automáticos”, mas como seres capazes de adaptação e criatividade quando têm oportunidade.
O estudo também destaca um ponto que chamou atenção até de pesquisadores experientes: O uso de ferramentas com funções diferentes em cada extremidade era, até então, associado de forma concreta principalmente a chimpanzés. Osuna-Mascaró cita um exemplo clássico observado na Bacia do Congo:
chimpanzés usam uma ponta da ferramenta para abrir um buraco em cupinzeiros
e a outra ponta para pescar os cupins
No caso de Veronika, a relação espacial pode ser mais simples — mas ainda assim o princípio é o mesmo: uma única ferramenta, duas funções, decisões diferentes. Outro ponto que impressionou os pesquisadores foi o controle motor que Veronika demonstrou. Chimpanzés têm mãos, dedos e polegares oponíveis. A vaca Veronika, obviamente, não. Ainda assim, ela:
ajustava a pegada com a boca
controlava o ângulo do objeto
decidia quando usar esfregação contínua ou empurrões curtos e precisos
e mudava a postura corporal para alcançar melhor cada região
Ela usava o corpo como “mecanismo de ajuste”. A conclusão é direta: o fato de bovinos não terem mãos não impede comportamentos sofisticados, quando há motivação e possibilidade de aprendizado. O professor emérito Marc Bekoff, da Universidade do Colorado em Boulder (EUA), que não participou da pesquisa, concordou que se trata de uso de ferramenta. Segundo ele, Veronika pode não ter “fabricado” a escova, mas aprendeu o essencial:
aquilo alivia a coceira
aquilo dá prazer
e vale a pena repetir
Antonio J. Osuna-Mascaró, posa com Veronika. Foto: DivulgaçãoBekoff também reforça uma crítica comum na ciência atual: animais inteligentes e emocionais frequentemente são tratados como “burros” — por puro preconceito cultural. E completa que pesquisas detalhadas já mostram que vacas são sencientes, com cérebros ativos e vidas emocionais complexas. O caso de Veronika aparece como mais um capítulo de uma mudança histórica na forma como a ciência mede a inteligência animal. O estudo faz uma ponte com descobertas que, no passado, também chocaram o mundo:
Jane Goodall, em 1960, mostrou que chimpanzés produziam e usavam ferramentas — derrubando a ideia de que só humanos faziam isso.
Irene Pepperberg, décadas depois, demonstrou que aves, como papagaios, podem ter cognição avançada, vocabulário e compreensão de quantidades.
Hoje, já se sabe que corvídeos e papagaios conseguem tarefas comparáveis às dos grandes símios. A mensagem central do estudo é clara: o ser humano ainda carrega um forte preconceito sobre a capacidade cognitiva dos animais que explora. E Veronika surge como prova viva de que existe muito mais acontecendo “por trás do olhar manso” de uma vaca do que a maioria imagina. Apesar de todo o destaque, os cientistas evitam romantizar o caso.
Vídeo: Antonio J. Osuna-MascaróOsuna-Mascaró disse que não acredita que Veronika seja uma espécie de “Einstein das vacas”. A hipótese mais provável é outra: ✅ existem muitos outros animais com potencial semelhante, mas que nunca tiveram ambiente, tempo ou estímulo para demonstrar isso. E aqui entra um ponto decisivo: vaca Veronika vive em condições raras para um bovino:
liberdade de exploração
contato com humanos
diversidade de objetos ao redor
paisagem rica e interativa
rotina menos estressante do que sistemas de produção intensiva
Ou seja, ela teve algo que a maioria não tem: oportunidade. Outro detalhe curioso observado pelos pesquisadores: o local onde Veronika vive sofre, no verão, com infestações de moscas-de-cavalo, que causam irritação e picadas constantes. O incômodo recorrente pode ter se tornado o “problema” que exigiu uma solução. E a solução foi literalmente criar um jeito de coçar onde não alcançava. O comportamento teria se desenvolvido ao longo dos anos como:
tentativa
repetição
aprendizado
aperfeiçoamento
A ciência chama isso de inovação comportamental. Além do impacto científico, o caso Veronika coloca um holofote em um tema que ganha força no mundo todo: bem-estar animal não é luxo, é ciência aplicada. Se um bovino consegue desenvolver esse tipo de comportamento quando:
tem menos estresse,
mais espaço,
e estímulos ambientais,
então é inevitável que muitos pesquisadores e produtores comecem a se perguntar: quantas habilidades o gado poderia demonstrar se tivesse ambientes mais enriquecidos? Mesmo em sistemas produtivos, a discussão não significa “transformar todo rebanho em pet”. Mas pode inspirar melhorias reais, como:
objetos de coçadura melhor posicionados
escovas fixas no curral
enriquecimento ambiental em confinamentos
redução de estresse e agressividade por estímulos positivos
Por: Redação
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