• Quinta-feira, 7 de maio de 2026

Paraguai quer usar Itaipu para fabricar fertilizante verde – com investimento de US$ 665 milhões

Projeto bilionário em Villeta promete produzir fertilizante nitrogenado com hidrogênio verde, usando energia renovável ligada a Itaipu, em um movimento que pode mudar a segurança alimentar da América Latina.

A produção mundial de alimentos depende de um insumo estratégico que, muitas vezes, passa longe do olhar do consumidor: o fertilizante nitrogenado. Por trás da produtividade de lavouras como milho, trigo, arroz, soja e pastagens está uma cadeia industrial fortemente ligada ao gás natural, usado como matéria-prima para a produção de amônia e fertilizantes. Agora, o Paraguai tenta se posicionar como protagonista em uma alternativa capaz de mexer com essa lógica: produzir fertilizante verde a partir de energia renovável, aproveitando o potencial hidrelétrico associado à usina de Itaipu.

O tema ganhou força com o avanço do Villeta Green Fertilizer Project, desenvolvido pela ATOME PLC no Paraguai. A proposta é construir uma planta industrial para produzir fertilizante de baixo carbono usando hidrogênio verde, obtido por eletrólise da água com energia renovável. Na prática, o país vizinho quer transformar sua abundância energética em um ativo estratégico para o agronegócio regional.

Segundo o material de referência, a discussão envolve não apenas tecnologia, mas também segurança alimentar, já que a dependência global de fertilizantes produzidos a partir de combustíveis fósseis deixa o abastecimento agrícola vulnerável a crises energéticas, conflitos geopolíticos e gargalos logísticos, como os riscos envolvendo rotas estratégicas internacionais.

A grande aposta paraguaia está em usar sua matriz elétrica renovável como diferencial competitivo. De acordo com a IFC, braço do Banco Mundial para o setor privado, o projeto de Villeta será uma das primeiras plantas comerciais em escala relevante voltadas à produção de fertilizante com hidrogênio limpo. A estrutura deverá produzir nitrato de amônio cálcico de baixo carbono, reduzindo a dependência regional de fertilizantes nitrogenados importados e baseados em combustíveis fósseis.

O projeto é tratado como estratégico porque a região do Mercosul importa mais de 90% da demanda por fertilizantes nitrogenados, segundo a IFC. Isso significa que países agrícolas altamente competitivos continuam expostos a oscilações externas no preço de energia, frete marítimo, câmbio e disponibilidade internacional de insumos.

No centro da iniciativa está a planta de Villeta, que deve ter capacidade aproximada de 260 mil toneladas por ano de fertilizante de baixo carbono. O Banco Europeu de Investimento informou que o empreendimento será desenvolvido pela ATOME PLC e terá apoio financeiro de até US$ 95 milhões, com expectativa de geração de mais de 5 mil empregos diretos e indiretos durante as fases de construção e operação.

A ATOME também informou que, em abril de 2026, alcançou a decisão final de investimento para o projeto, com financiamento total de US$ 665 milhões. A empresa apresenta Villeta como um marco para demonstrar que fertilizantes verdes podem sair do campo das promessas e entrar em escala industrial.

Por que isso importa para o agro?

A relevância do projeto vai muito além do Paraguai. Fertilizantes nitrogenados são essenciais para sustentar produtividade em larga escala. Sem eles, o mundo teria dificuldade para manter os níveis atuais de produção agrícola. O problema é que a cadeia tradicional depende fortemente do gás natural, especialmente para a produção de amônia, base de muitos fertilizantes.

Quando o preço do gás sobe ou quando há crise em regiões exportadoras, o impacto chega ao produtor rural. O custo do fertilizante aumenta, a margem aperta e, em casos extremos, a disponibilidade do insumo fica comprometida. Foi exatamente isso que o mundo viu em momentos recentes de instabilidade energética e geopolítica, quando fertilizantes se tornaram um dos pontos mais sensíveis da segurança alimentar global.

Por isso, o hidrogênio verde aparece como uma alternativa estratégica. Em vez de usar gás natural, a tecnologia utiliza eletricidade renovável para separar o hidrogênio da água. Esse hidrogênio pode ser combinado ao nitrogênio para formar amônia e, posteriormente, fertilizantes. O diferencial está no fato de que o processo reduz a pegada de carbono e diminui a exposição a combustíveis fósseis.

Itaipu como diferencial competitivo

A força do Paraguai nesse debate está na disponibilidade de energia hidrelétrica. A usina de Itaipu, compartilhada com o Brasil, é uma das maiores estruturas de geração de energia do mundo e representa um ativo energético de peso para o país vizinho.

O projeto de Villeta pretende usar 145 MW de energia hidrelétrica para alimentar o processo industrial, segundo documento ambiental e social do Banco Europeu de Investimento. Essa energia será usada principalmente na eletrólise da água, etapa fundamental para a produção de hidrogênio verde.

Esse ponto é decisivo porque a viabilidade do fertilizante verde depende diretamente do custo e da disponibilidade de energia renovável. Países com matriz elétrica limpa, abundante e competitiva tendem a ter vantagem na corrida para produzir hidrogênio verde e derivados, como amônia e fertilizantes de baixo carbono.

Fertilizante Verde: Uma resposta à dependência externa

A América Latina é potência na produção de alimentos, mas ainda depende fortemente da importação de fertilizantes nitrogenados. O Brasil, por exemplo, é um dos maiores consumidores globais desses insumos e importa grande parte do que utiliza no campo. Nesse cenário, qualquer movimento regional para ampliar a produção local de fertilizantes ganha relevância estratégica.

O projeto paraguaio não resolve sozinho o problema da dependência regional, mas pode abrir uma nova rota. A lógica é transformar energia renovável em fertilizante, agregando valor industrial a um recurso disponível localmente e criando uma cadeia menos vulnerável a choques externos.

Para o produtor rural, o impacto potencial está em três frentes: maior segurança no abastecimento, possibilidade de diversificação de fornecedores e redução gradual da exposição a fertilizantes produzidos com base em combustíveis fósseis. Ainda não se trata de uma solução imediata para baratear os insumos no curto prazo, mas de uma aposta estrutural para os próximos anos.

Wall Street e organismos internacionais observam o movimento

O avanço do projeto também chamou atenção do mercado financeiro internacional. No material de referência, a iniciativa é apresentada como um marco observado por Wall Street, justamente por tentar provar que uma fábrica de fertilizantes verdes pode ser financiada e executada em escala industrial. A frase atribuída a Olivier Mussat, CEO da ATOME, reforça essa leitura: “Demonstramos que é realmente possível fechar e financiar uma fábrica de fertilizantes verdes em escala industrial. Isso nunca foi feito antes”.

Além da IFC e do Banco Europeu de Investimento, o Green Climate Fund também aparece como apoiador do projeto. O fundo informou que aportará US$ 50 milhões em financiamento concessional, com objetivo de reduzir o custo de capital e ajudar a viabilizar a competitividade da iniciativa.

Esse tipo de apoio mostra que o projeto é visto não apenas como uma fábrica, mas como um teste global para a descarbonização de uma cadeia considerada difícil de transformar. Fertilizantes são essenciais para a produção de alimentos, mas sua fabricação tradicional é intensiva em energia e emissões.

O que ainda precisa ser observado

Apesar do entusiasmo, o projeto também carrega desafios. Produzir fertilizante verde em escala industrial exige tecnologia, capital intensivo, energia abundante, logística eficiente e mercado comprador disposto a absorver o produto. Além disso, a competitividade frente aos fertilizantes convencionais dependerá de fatores como preço da energia, custo financeiro, escala produtiva e políticas de incentivo.

Outro ponto importante é que a produção de 260 mil toneladas por ano, embora relevante, ainda é pequena diante da demanda total do agronegócio sul-americano. Portanto, Villeta deve ser vista como um primeiro passo, e não como uma solução definitiva e imediata para todo o mercado regional.

Mesmo assim, a iniciativa coloca o Paraguai em uma posição incomum: o país deixa de ser visto apenas como produtor de energia e passa a disputar espaço em uma cadeia industrial diretamente ligada ao futuro da agricultura.

Por que o Brasil deve acompanhar de perto

Para o Brasil, maior potência agropecuária da América Latina, o movimento paraguaio merece atenção. A dependência brasileira de fertilizantes importados é uma preocupação recorrente e já levou governos, empresas e entidades do setor a defenderem a ampliação da produção nacional e regional.

Se projetos como o de Villeta avançarem, o Mercosul pode ganhar uma nova alternativa de suprimento, com menor pegada de carbono e maior proximidade logística. Isso não elimina a necessidade de políticas brasileiras para fertilizantes, mas amplia o debate sobre integração regional, segurança alimentar e transição energética no campo.

No médio e longo prazo, o fertilizante verde pode se tornar um diferencial competitivo também para cadeias que buscam reduzir emissões, atender exigências internacionais e agregar valor ambiental à produção agrícola. Em mercados cada vez mais atentos à origem dos alimentos, a forma como o fertilizante é produzido pode passar a fazer parte da conta.

Um novo capítulo para a produção de alimentos

O projeto paraguaio mostra que a transição energética não está restrita a carros elétricos, painéis solares ou combustíveis sustentáveis. Ela também pode chegar ao coração da produção agrícola: o fertilizante.

Ao tentar transformar energia renovável de Itaipu em fertilizante verde, o Paraguai aposta em uma tese poderosa: quem controlar energia limpa, tecnologia e insumos estratégicos terá mais força na nova geopolítica dos alimentos.

Ainda há um longo caminho até que o fertilizante verde se torne competitivo e amplamente disponível. Mas o movimento de Villeta indica que a indústria de fertilizantes começa a entrar em uma nova fase, na qual segurança alimentar, energia renovável e descarbonização caminham cada vez mais juntas.

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Por: Redação

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