• Sexta-feira, 22 de maio de 2026

Move Brasil pode deixar motoristas com nome sujo fora de financiamento bilionário

Programa Move Brasil oferece R$ 30 bilhões para renovar frotas, mas restrições no CPF e regras dos bancos limitam o acesso de motoristas e taxistas

O programa Move Brasil começou a receber cadastros com a meta de injetar até R$ 30 bilhões na economia para a renovação da frota de taxistas e motoristas de aplicativo. A iniciativa, regulamentada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), permite que motoristas de app e taxistas possam financiar um carro novo com crédito de até R$ 150 mil, oferecendo prazos de pagamento de até 10 anos e carência de até 12 meses.

O desenho oficial do programa não proíbe a inscrição de profissionais que possuem restrições ativas no CPF. Contudo, analistas de crédito e do setor automotivo apontam que a aprovação final dos contratos depende das regras de conformidade de cada instituição financeira. Na prática, o histórico de inadimplência e o score baixo podem restringir o acesso ao crédito para a parcela de trabalhadores que compõe o público-alvo da medida.

O principal obstáculo para a efetividade do Move Brasil é a atual situação financeira da categoria. Dados de institutos de proteção ao crédito apontam que mais de 60% dos motoristas de aplicativo e taxistas do país possuem algum tipo de negativação no CPF, motivada por atrasos em contas de consumo, cartões de crédito ou pendências comerciais. Para parte desses profissionais, o saldo total das dívidas acumuladas compromete mais de 20% da renda mensal declarada, patamar considerado de risco pelos bancos para financiamentos de longo prazo.

Esse cenário é resultado do aumento dos custos operacionais registrado nos últimos anos. Levantamentos do setor de transporte mostram que o preço dos combustíveis acumulou alta superior a 70% desde 2021. Atualmente, os gastos com manutenção de um veículo usado em centros urbanos consomem entre 15% e 20% do faturamento mensal do condutor. Como cerca de 40% da categoria atua em uma faixa de renda flutuante entre R$ 2 mil e R$ 4 mil mensais, a capacidade de absorver novas parcelas fixas sem comprometer o orçamento familiar fica reduzida.

Consultores da área de crédito automotivo lembram que as regras de repasse do programa público não eliminam a análise de risco individual realizada pelos bancos parceiros. Economistas do setor estimam que o índice de inadimplência em financiamentos para motoristas autônomos e de aplicativos chega a ser duas vezes maior do que a média registrada para pessoas físicas com emprego formal, em razão da instabilidade de ganhos e do desgaste acelerado do patrimônio.

Para mitigar esse risco de calote, as instituições financeiras tendem a aplicar filtros adicionais aos perfis com restrições financeiras. As medidas avaliadas pelo mercado incluem a exigência de uma entrada maior, oscilando entre 30% e 40% do valor total do veículo, e a redução do prazo do contrato, o que eleva o valor de cada prestação. Bancos também estudam a adoção de mecanismos de controle tecnológico, como sistemas de telemetria, rastreamento do bem e a verificação do fluxo diário de corridas diretamente com as plataformas parceiras.

Especialistas em inclusão financeira, como o Serasa Experian e SPC Brasil afirmam que programas de crédito com juros menores e prazos alongados são instrumentos para a formalização e atração desse público ao sistema bancário. No entanto, ponderam que o endividamento prévio e a falta de garantias reais podem travar o andamento das propostas caso o governo não estabeleça fundos garantidores ou modelos de seguro-crédito específicos para absorver eventuais perdas operacionais.

Diante do filtro do sistema financeiro tradicional, canais paralelos começam a se estruturar para atender a essa demanda por renovação. Montadoras, cooperativas e plataformas de tecnologia desenvolvem planos próprios que envolvem o sistema de receber o veículo antigo como parte do pagamento, utilizando o carro usado para abater uma fatia expressiva da entrada, ou oferecem financiamentos diretos de fábrica com análise simplificada.

Para quem pretende utilizar a linha oficial do governo, representantes do setor recomendam que o condutor busque fechar acordos de renegociação de suas dívidas atuais antes de solicitar o financiamento, visando aumentar o score e evitar a recusa automática nos bancos.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.

Por: NSC Total

Artigos Relacionados: