• Sexta-feira, 24 de abril de 2026

Governo protocola PLP na Câmara para reduzir PIS, Cofins e Cide sobre combustíveis

Proposta prevê uso de receitas extraordinárias do petróleo para reduzir tributos, além de pedir que tramitação do PLP aconteça sob regime de urgência

Por conta da nova alta do preço do petróleo no mercado internacional e dos efeitos diretos sobre os combustíveis no Brasil, o governo federal decidiu nesta quinta-feira (23), tomar uma nova medida com base no apoio do Congresso Nacional. A liderança governista na Câmara protocolou um projeto de lei complementar que cria um mecanismo para reduzir tributos sobre combustíveis sempre que houver aumento extraordinário da arrecadação com o petróleo. A informação foi confirmada em coletiva de imprensa no Ministério da Fazenda pelo ministro de Estado do Planejamento e Orçamento Bruno Moretti, ministro da Fazenda Dario Durigan e ministro das Relações Institucionais José Guimarães.

A proposta surgiu após o diagnóstico compartilhado dentro da equipe econômica: o Brasil, por ser produtor e exportador, acaba arrecadando mais quando o barril sobe. A intenção agora é transformar esse ganho em uma espécie de “colchão” para amortecer o impacto no bolso da população, principalmente em um cenário de guerra que pressiona preços de forma global.

Moretti explicou melhor o raciocínio que sustenta o texto e deixou claro que o governo nesse momento tenta reagir aos possíveis efeitos que podem vir a atingir à população brasileira, segundo ele: “O petróleo voltou a subir e isso pressiona os derivados. Entendemos que é hora de adotar novas medidas, e para isso precisamos de diálogo com o Congresso, que nunca nos faltou em momentos decisivos”, afirmou.

Segundo ele, o coração do projeto está na criação de um regime de compensação. Isso significa que, sempre que a alta do petróleo gerar arrecadação extra, o governo poderá reduzir tributos como PIS, Cofins e Cide sobre diesel, gasolina, etanol e biodiesel. A medida busca respeitar um princípio constitucional: qualquer redução para combustíveis fósseis deve ser acompanhada por medidas equivalentes para os biocombustíveis: “A nossa tese é que, para um país exportador, quando o preço do petróleo sobe, a receita também cresce. O ponto central é converter esse aumento em um mecanismo que possa amortecer os efeitos da guerra. A arrecadação adicional vai justamente beneficiar o consumidor final”, disse Moretti.

O desenho do PLP prevê que as reduções de tributos sejam temporárias. A estimativa inicial é de um período de até dois meses, com possibilidade de revisão ao fim desse prazo, a depender do comportamento do mercado internacional. A execução dependerá de decreto presidencial, caso o Congresso aprove o modelo proposto.

Para evitar questionamentos sobre impacto fiscal, o governo incluiu uma condição: a desoneração só poderá ocorrer dentro do limite da arrecadação extraordinária gerada pelo petróleo. Ou seja, não há, segundo a equipe econômica, flexibilização das metas fiscais.

Moretti apresentou um exemplo para dar uma dimensão desses custos. De acordo com ele, a cada redução de 10 centavos nos tributos federais sobre a gasolina, o impacto seria de cerca de R$ 800 milhões em um período de dois meses. Esse valor, no entanto, estaria coberto pela receita adicional vinculada à alta do petróleo. Ele também lembrou que algumas medidas já foram adotadas ao longo dos últimos anos, como a retirada de tributos sobre o diesel e o biodiesel, enquanto outros combustíveis, como gasolina e etanol, ainda não tiveram o mesmo tratamento, o que agora entra no objetivo do novo projeto.

A decisão de enviar o projeto ao Congresso também é resultado de um cenário internacional mais adverso. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, relatou que, em reuniões recentes fora do país, o impacto da guerra nas economias foi o principal tema de discussão: “Há poucos países que ganham com a guerra, alguns que conseguem resistir e muitos que perdem, especialmente na Ásia e na África, que enfrentam impacto brutal pela deficiência energética e pela falta de instrumentos fiscais”, afirmou.

Segundo ele, o Brasil aparece em uma posição intermediária, com capacidade de reação: “O país tem condições de enfrentar esse cenário. Existe uma resiliência energética construída nos últimos anos e uma situação que nos dá alguma força para mitigar os efeitos sobre a população”, disse.

Durigan também destacou que o governo já vinha adotando medidas desde o início da crise internacional, como a retirada de tributos sobre diesel, GLP e biodiesel, além de políticas de subsídio e regulação do frete. Para ele, o país saiu na frente em algumas decisões: “O Brasil foi um dos primeiros a adotar medidas que serviram de exemplo, inclusive para países desenvolvidos”, afirmou.

No campo político, o governo tenta acelerar a tramitação e evitar que haja resistência no Congresso. O ministro José Guimarães, afirmou que a proposta foi construída com diálogo prévio e que há sinalização positiva das principais lideranças, mas ainda sem prazo de uma resposta efetiva: “A orientação do presidente Lula foi clara: todas essas medidas precisam ser discutidas com o Congresso, porque, para enfrentar essa guerra, precisamos do Congresso”, disse.

Guimarães relatou que conversou com os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, e que ambos demonstraram disposição para avançar com o tema. “Há uma concordância de que o Brasil não pode ser sócio da guerra. Precisamos atuar para mitigar os efeitos, e eles querem colaborar com a tramitação do PLP, que irá com urgência constitucional”, afirmou.

O projeto foi protocolado nesta quinta-feira na liderança do governo e deve entrar na pauta de uma reunião de líderes prevista para a próxima terça-feira (28), segundo José Guimarães. A expectativa é construir um acordo para votação rápida, embora o tema envolva impacto fiscal e possa gerar debate entre parlamentares: “Nós estamos inaugurando uma nova etapa na relação com o Congresso. Isso é fundamental para que essas propostas caminhem. Vamos trabalhar para votar essa matéria com celeridade”, disse Guimarães. Ele reforçou ainda que “O Estado brasileiro não pode ser sócio da guerra” e defendeu que o ganho extraordinário não deve ser incorporado ao caixa, mas devolvido à população.

Apesar da fala dos ministros, é importante dizer que os efeitos práticos da medida ainda dependem de etapas que serão seguidas e consideradas regimentais. O texto precisa ser aprovado na Câmara e no Senado antes de seguir para sanção presidencial.

Por: ITATIAIA

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