• Quinta-feira, 16 de abril de 2026

Eleição em MG pode repetir fenômeno improvável que aconteceu há 20 anos

Adversários políticos históricos, presidente Lula e deputado Aécio Neves podem se unir em apoio à candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo de MG

Na eleição de outubro, um fenômeno surpreendente e improvável para os eleitores mineiros, que aconteceu há exatos 20 anos, pode voltar a se repetir. Em 2006, o então governador Aécio Neves (PSDB) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversários históricos e de campos políticos totalmente diferentes, viram surgir o chamado “Lulécio”, em que os dois políticos, mesmo que informalmente, viraram ‘aliados’ durante o período eleitoral.

Em 2006, muitos eleitores votaram no petista Lula, que ganhou a reeleição para a Presidência da República, e no tucano Aécio Neves, que venceu naquele ano a disputa ao governo de Minas pela segunda vez. E no bojo das surpresas políticas, o "Lulécio" aconteceu mesmo Lula vencendo um tucano, Geraldo Alckmin, e Aécio vencendo um petista, Nilmário Miranda. Lula e Aécio mantiveram relação cordial e evitaram embates políticos no período.

Agora em 2026, o “Lulécio” pode se repetir. Isso com base em declarações dos próprios envolvidos na eleição, falas de aliados, negociações políticas e possíveis alianças discutidas nos bastidores.

O que ganhou força nas últimas semanas foi a possibilidade do deputado federal Aécio Neves, mesmo de maneira informal, ser apoiado por Rodrigo Pacheco (PSB) em uma disputa ao Senado Federal. Pacheco é o preferido do presidente Lula para ser candidato ao Governo de Minas servindo de palanque para o petista no Estado.

Oficialmente, alguns tucanos e petistas apontam que uma aliança formal entre PT e PSDB seria inviável. Mas, lideranças que acompanham as negociações partidárias avaliam que o senador poderia receber um “apoio informal” de Aécio. Ou seja, se esse cenário se confirmar, parte do eleitorado pode votar em Lula para presidente, Pacheco para o governo do Estado e Aécio Neves para o Senado.

Declarações recentes reforçam essa possibilidade. Aécio Neves, embora ressalte as divergências históricas com o PT, em entrevista ontem (14) à CNN Brasil, não poupou elogios a Rodrigo Pacheco e à ex-prefeita de Contagem e pré-candidata do PT ao Senado, Marília Campos.

“Eu tenho uma relação de amizade e respeito pelo Rodrigo desde sempre, desde antes de ele entrar na vida pública. O Rodrigo sempre atuou no nosso campo político. Se elegeu senador apoiando meu ex-vice-governador Antonio Anastasia. É um quadro extraordinário da vida pública nacional. Só que hoje, ele avança para um campo, o campo petista, que sempre foi oposição ao PSDB. Os palanques regionais tem uma lógica própria”, afirmou Aécio.

Ainda na entrevista, o tucano completou: “Eu ocupei por 8 anos a cadeira de governador de Minas, vejo nele as condições pessoais, morais e políticas para sentar na cadeira de governador de Minas e permitir que Minas volte a crescer”.

Sobre Marília Campos, o deputado federal Aécio Neves também fez elogios a ela na entrevista à CNN.

“A minha trajetória sempre foi de diálogo. Eu sempre tive conversas em Minas, inclusive com o PT. A candidata apresentada ao Senado, a prefeita Marília é uma grande amiga minha. Quando fui governador fizemos parcerias importantíssimas para Contagem. Ela sendo do PT. Quando fui candidato à reeleição ao governo, tive apoio de muitos prefeitos do PT”, disse Aécio.

A própria pré-candidata reforçou a possibilidade de ter Aécio como integrante da coalizão liderada por Lula e Rodrigo Pacheco. Na segunda-feira (13), durante evento em Belo Horizonte, Marília afirmou que o tucano caberia no palanque mineiro de Pacheco. Em entrevista antes de um evento de pré-campanha, a petista, no entanto, afirmou que essa decisão deve partir do nome escolhido pelo partido para a disputa ao governo de Minas.

"Tenho deixado essa questão do segundo nome [ao Senado] e do vice-governador para que o nosso candidato a governador defina, escolha o melhor leque de alianças para que nossa chapa se torne mais forte, mas na minha opinião cabe", disse.

A ex-prefeita acredita que, apesar do histórico de oposição a governos petistas, Aécio teria condições de subir no mesmo palanque do presidente Lula, justificando que "posicionamentos políticos se transformam".

Marília dá como exemplo o caso do próprio senador Rodrigo Pacheco. "Assim como houve uma transformação da opinião do Rodrigo [Pacheco], que foi eleito com uma base de direita, mas que assumiu depois posições democráticas, avançadas e progressistas, isso também pode acontecer com qualquer outra liderança política", disse.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, dias atrás, sinalizou interesse em discutir uma eventual aproximação com o deputado Aécio Neves.

Internamente, no entanto, membros do PT questionam o aceno. Interlocutores ouvidos pela Itatiaia afirmaram que é impossível ou até inadmissível que Aécio seja cogitado para subir no mesmo palanque.

Questionada pela reportagem, a presidente do diretório mineiro do PT, deputada estadual Leninha, disse que uma construção de chapa com a presença de Aécio "não foi tratada", mas salientou que, no entendimento da legenda, não há "ambiente favorável".

A articulação de Aécio junto ao ex-presidente Michel Temer (MDB) para o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também é apontada como um 'entrave irreversível' por algumas lideranças petistas para qualquer tipo de diálogo com o tucano.

Mais contundente foi o deputado federal mineiro Rogério Correia (PT) nas redes sociais. “Quem descarta Aécio Neves é Minas, quebrou o Estado. No caso do PT o veto é pelo golpe que costurou com Eduardo Cunha e Michel Temer contra Dilma e a democracia. Que vá se juntar com o bolsonarismo, gambás que se cheirem”, disparou.

Mais um indício que pode reforçar a possibilidade do Lulécio se repetir em 2026 é uma outra ‘composição’, feita em 2010: o Dilmasia: eleitores que votaram em Dilma Rousseff (PT) na campanha vitoriosa à Presidência da República e em Antônio Anastasia (então no PSDB), que ganhou a eleição para o Governo de Minas naquele ano.

E dois anos antes, em 2008, ocorreu um dos mais surpreendentes acordos políticos das últimas décadas. O então governador Aécio Neves e o então prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), se aliaram e apoiaram Marcio Lacerda (então no PSB) na eleição para comandar a Prefeitura. A coligação incluía oficialmente o PT, mas não tinha o PSDB. Mas Aécio e Pimentel fizeram campanha juntos em favor de Lacerda em atos públicos e no horário eleitoral de rádio e TV.

Por: Redação

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