A Polícia Federal identificou a existência de uma estrutura organizada para a fabricação em série de carteiras de crédito sem lastro no esquema envolvendo o Banco Regional de Brasília (BRB) e o Banco Master, segundo decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça.
De acordo com a investigação, havia uma espécie de “linha de produção” voltada à criação de ativos fictícios, com uso de planilhas, contratos padronizados, extratos manipulados e procurações assinadas por terceiros para dar aparência de legalidade às operações.
Os documentos apontam que o processo envolvia a produção massificada de registros financeiros artificiais, incluindo contratos antedatados, ajustes manuais em extratos e a utilização de instrumentos jurídicos para simular operações de crédito inexistentes.
Segundo o Banco Central, que analisou parte das operações, foram identificadas inconsistências materiais graves nas chamadas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), incompatíveis com transações reais.
A investigação descreve ainda que uma empresa intermediária era utilizada como suposta originadora dos créditos, que depois eram consolidados em carteiras adquiridas pelo Banco Master e, posteriormente, revendidas ao BRB.
Em material apreendido, os investigadores encontraram referência interna a uma verdadeira “linha de produção” de ativos, com divisão de tarefas e padronização de documentos para viabilizar a circulação das carteiras fraudulentas.
O objetivo, segundo a Polícia Federal, era mascarar a falta de lastro real das operações e sustentar artificialmente o modelo de negócios do Banco Master, que não teria ativos suficientes para justificar o volume negociado.
As carteiras eram então vendidas ao BRB, que adquiriu mais de R$ 12 bilhões em ativos entre 2024 e 2025, durante a gestão de Paulo Henrique Costa. Parte desses créditos é considerada de alto risco ou irregular — os chamados “títulos podres” - com prejuízos estimados em pelo menos R$ 5 bilhões.
Segundo a decisão do ministro do STF André Mendonça, o advogado Daniel Monteiro, preso nesta quinta-feira (16), é o operador central do esquema, com atuação em duas frentes:
Ele teria atuado diretamente na estruturação e “validação” dos documentos ligados às carteiras de crédito do Banco Master, ajudando a dar aparência de legalidade a ativos sem lastro.
A investigação indica que seu escritório funcionava como uma espécie de “compliance paralelo”, fora dos controles formais, elaborando contratos, declarações e outros documentos usados nas operações.
Monteiro também é apontado como responsável por montar a engenharia societária e financeira usada para ocultar bens - especialmente imóveis que, segundo a PF, seriam destinados ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
De acordo com a decisão, ele:
Em uma mensagem citada no processo, ele próprio reconhece o papel na operação:
“O Paulo me procurou para dar andamento em estrutura de compra de imóveis para ele (…) Vou pedir os dados dos imóveis a ele e faço hoje mesmo.”
Para a Polícia Federal, isso mostra que o advogado não atuava apenas como defensor ou consultor, mas como parte ativa da engrenagem criminosa — sendo responsável por viabilizar juridicamente tanto as operações financeiras suspeitas quanto a ocultação do patrimônio.
Por isso, ele é investigado por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos contra o sistema financeiro.
O caso é apurado no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga crimes contra o sistema financeiro nacional, além de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.





