Contaminação na comunidade de São Tomé do Paripe - Jocivaldo Nascimento.
Ação na justiça
A promotora estima que em 15 dias deve ser movida uma ação pública na Justiça Federal que será assinada pelo Ministério Público Federal, pelo Ministério Público Estadual e pela Defensoria Pública Federal.Nas inspeções realizadas pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), com coletas de água do mar e areia da praia em oito pontos distribuídos na região, foi possível identificar concentrações elevadas de compostos nitrogenados e metais, principalmente cobre. “A ampliação da faixa de investigação permitiu confirmar a presença de contaminação no sedimento, na biota e na água intersticial da praia”, apontou o laudo dos pesquisadores. Segundo o instituto, as empresas envolvidas (Intermarítima e Gerdau, que operou o terminal até 2022) foram notificadas para apresentar ações emergenciais de remediação ambiental. “Com base nos estudos já exigidos pelo órgão, o Inema avaliará e determinará a adoção das medidas definitivas necessárias para mitigação dos impactos identificados”.“Mas seria importante um decreto de emergência com um cadastro confiável das vítimas, para que o juiz que receber essa ação possa compelir as empresas a tomar as medidas necessárias em relação ao auxílio às famílias".
Imprópria
Em razão da presença de resíduos e substâncias com potencial risco à saúde e ao meio ambiente, a área permanece classificada como imprópria para banho. “O Inema reforça a recomendação para que a população evite o trecho onde há ocorrência do material, incluindo atividades de banho, pesca e de contato direto com a água e sedimentos da região”. O eletrotécnico Jocivaldo Nascimento recorda que o incômodo no ar, na verdade, tem quatro anos, quando havia descarregamento de fertilizantes. Peixes mortos apareceram também em 2024. Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e a Polícia Civil foram acionados.Jocivaldo Nascimento, que gosta de pescar siri mole, desanimou. “Tudo o que eu via na minha frente estava morto”. Ele relata ainda que, durante o carnaval, os adolescentes costumam passar areia no corpo como uma tradição da festa. “Três desses adolescentes ficaram com pele irritada e até falta de ar”. A comunidade passou a fazer uma série de protestos na frente da empresa. “A Intermarítima começava a transportar esses produtos às 7h da manhã e só terminava às 2h30 da madrugada, todos os dias”, relata Jocivaldo. A comunidade tem reunião com mediação do Ministério Público a cada semana. “Nós somos uma comunidade que vive de pesca ou de comércio de praia”.“Pela empresa armazenar e transportar fertilizante, eles lavavam a pista toda suja com esse material. E toda essa água suja corria para o mar”, lembra-se o morador.
Comunidade se manifesta diante da TMG, em São Tomé do Paripe. - Jocivaldo Nascimento.
Racismo ambiental
Ex-marisqueira, a vereadora soteropolitana Eliete Paraguassu disse que recebeu as informações da comunidade e no próprio dia 19 de fevereiro passou a atuar junto à prefeitura e ao governo para que fosse decretada situação de emergência no lugar, diante da situação ambiental e também das dificuldades econômicas para a comunidade. Eliete destacou que a comunidade é tradicional e tem famílias remanescentes quilombolas. “Os moradores têm sua fonte de renda vinda da praia. Pelo menos 1 mil trabalhadores foram diretamente impactados pela perda do mar como modo de vida”. Para ela, pode ser evidenciado racismo ambiental com a negligência do poder público. A parlamentar chama atenção para o fato de que a Baía de Todos os Santos banha três municípios e 54 ilhas.>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp“Então, todo esse contaminante está se espalhando e já chegou em algumas das praias da cidade de Salvador. Já tem aparecido peixes e bichos mortos, como tartaruga”.
Penúria
A dona de casa Daniela Vasconcelos, de 41 anos, filha e neta de pescadores da comunidade, garante que esse é o pior momento das vidas deles. “Não imaginava que, um dia, eu iria presenciar uma situação como essa de total descaso”. Ela espera que os responsáveis pela contaminação do lugar resolvam o problema e também sejam incumbidos de pagar auxílios emergenciais às famílias da comunidade. Na última quarta (27), houve uma reunião com 56 representantes da comunidade e também de diferentes órgãos do poder público. A promotora Hortênsia Gomes Pinho, do MP, avalia que há uma “inércia administrativa” principalmente dos órgãos municipais diante do desastre ambiental. Segundo explica, cabe à Defesa Civil do município haver um decreto de emergência e a ser assinado pelo prefeito.Com o decreto de emergência, é possível pleitear auxílio emergencial para as 800 famílias atingidas. Hortênsia Gomes diz que cabe essa função ao município pela Lei de Política Nacional de Defesa Civil. Por outro lado, ela considera que a Secretaria de Saúde do município tem agido para prestar apoio à comunidade. No entanto, a situação das famílias se agravou sob o ponto de vista social. “São pessoas privadas de sua estratégia de sobrevivência: os marisqueiros, os pescadores, os ambulantes, os barraqueiros, os garçons. A situação se agravou”. Desde o começo da crise, a prefeitura fez a doação de 500 cestas básicas, mas sem uma distribuição sistemática de alimentos. A promotora comentou que as empresas Gerdau e Intermarítima têm atribuído uma para a outra a responsabilidade pela contaminação da praia e do mar.“O decreto de emergência é o reconhecimento do município de que sozinho não vai conseguir enfrentar o problema e que precisa de apoio dos órgãos federais, inclusive apoio financeiro”, disse a promotora





