Cavalos e gado selvagens ajudam a restaurar ecossistemas e aumentar a biodiversidade, revela estudo
Estudo realizado na Europa mostra que cavalos e bovinos vivendo em estado selvagem ajudam a manter paisagens abertas, aumentam a biodiversidade e tornam os ecossistemas mais resistentes a eventos climáticos extremos, como secas e mudanças no regime de chuvas.
Estudo realizado na Europa mostra que cavalos e bovinos vivendo em estado selvagem ajudam a manter paisagens abertas, aumentam a biodiversidade e tornam os ecossistemas mais resistentes a eventos climáticos extremos, como secas e mudanças no regime de chuvas. A presença de grandes herbívoros na paisagem pode ser uma das estratégias mais eficazes para restaurar ecossistemas e aumentar a resiliência da natureza diante das mudanças climáticas. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Aarhus e do Museu de História Natural de Aarhus, na Dinamarca, revelou que cavalos e bovinos vivendo em estado selvagem desempenham um papel fundamental na manutenção de paisagens naturais mais equilibradas e biodiversas. A pesquisa foi realizada ao longo de cinco anos na estação de campo do Laboratório Mols, localizada no leste da Jutlândia, e acompanhou rebanhos de até 70 cavalos e bovinos vivendo de forma autônoma na natureza. Diferentemente de sistemas de manejo tradicionais, os animais não receberam alimentação suplementar e puderam explorar livremente a área durante todo o ano. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp
Os resultados demonstram que a ação natural desses herbívoros pode substituir ou até superar métodos convencionais de manejo ambiental, como o uso de motosserras ou roçadeiras para controlar o avanço da vegetação. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});O estudo foi publicado na revista científica Ecological Applications e reforça o potencial da chamada renaturalização trófica, uma estratégia ecológica que utiliza animais herbívoros para restaurar processos naturais que foram perdidos ao longo do tempo. Em diversas regiões da Europa, áreas protegidas vêm passando por mudanças aceleradas devido ao aquecimento global e à alteração dos regimes de chuva. O aumento das temperaturas e a ocorrência mais frequente de precipitações intensas favorecem o crescimento de arbustos e árvores. Esse processo provoca um efeito colateral importante: a redução de áreas abertas que são essenciais para flores silvestres, insetos polinizadores e diversas espécies de fauna que dependem de ambientes ensolarados. Tradicionalmente, gestores ambientais recorrem a técnicas mecânicas para manter essas paisagens abertas. No entanto, os resultados do estudo indicam que o pastoreio natural realizado por cavalos e bovinos pode desempenhar esse papel de forma mais eficiente e sustentável. Durante a pesquisa, cientistas combinaram dados de GPS dos animais com imagens de satélite baseadas no índice NDVI, um indicador que mede a densidade da vegetação ao longo do tempo.
Essa análise permitiu compreender com precisão como as escolhas de deslocamento dos animais influenciam diretamente o desenvolvimento da vegetação. Os resultados mostram que os herbívoros utilizam praticamente toda a paisagem, mas demonstram preferência por áreas de pastagens abertas, onde o alimento é mais abundante.
Essa escolha tem efeitos claros sobre o ecossistema: Nas áreas mais frequentadas, a biomassa vegetal é reduzida pelo pastoreio constante Em regiões visitadas com menor frequência, árvores e arbustos crescem com maior liberdade Esse comportamento cria uma paisagem heterogênea, com diferentes tipos de habitats, o que favorece a biodiversidade.
Segundo os pesquisadores, essa dinâmica natural é muito diferente do manejo tradicional, que tenta manter a paisagem em um estado fixo e uniforme. Apesar de muitas vezes serem classificados como “grandes herbívoros” com funções semelhantes, o estudo revelou que cavalos e bovinos possuem padrões de uso do território bastante distintos. Durante o verão, quando há abundância de alimento, ambas as espécies tendem a utilizar áreas semelhantes de pastagem. No entanto, em períodos de escassez de recursos, como no inverno ou durante secas, os animais passam a explorar diferentes tipos de vegetação e habitats. Essa diferença de comportamento tem grande importância ecológica, pois a presença de múltiplas espécies herbívoras amplia o impacto positivo sobre a paisagem.
Enquanto uma espécie pode consumir determinados tipos de plantas, outra pode se concentrar em vegetação diferente, gerando um efeito mais variado e equilibrado sobre o ecossistema. Essa diversidade funcional contribui para criar paisagens mais dinâmicas e ricas em biodiversidade.
Um dos pontos mais importantes do estudo foi a análise dos efeitos da seca extrema que atingiu a Europa em 2018. Os pesquisadores observaram que as áreas mais intensamente utilizadas pelos animais foram as que sofreram maior impacto inicial da seca, devido à menor cobertura vegetal. No entanto, essas mesmas áreas demonstraram uma recuperação muito mais rápida da vegetação após o evento climático. Esse fenômeno é conhecido como resiliência ecológica, ou seja, a capacidade de um ecossistema de se recuperar após perturbações. Segundo os cientistas, o comportamento dos herbívoros cria uma paisagem com diferentes níveis de resistência e recuperação, o que aumenta a capacidade do ecossistema de lidar com eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes em um planeta em aquecimento. Outro ponto importante identificado no estudo foi o impacto da redução populacional dos herbívoros. Após uma diminuição de aproximadamente dois terços do número de animais na área, os pesquisadores observaram um aumento generalizado da vegetação, sem uma relação clara com as áreas anteriormente mais utilizadas. Esse resultado indica que os benefícios ecológicos dependem da presença contínua dos herbívoros na paisagem. Quando a pressão de pastoreio diminui drasticamente, a vegetação tende a crescer de forma mais uniforme, reduzindo a diversidade de habitats. Uma descoberta inesperada da pesquisa foi o efeito que estruturas construídas pelo ser humano podem ter sobre o comportamento dos herbívoros.
Um abrigo de madeira instalado na área de estudo acabou se tornando um ponto de forte atração para os cavalos, funcionando como uma espécie de “ímã” que concentrava a presença dos animais. Esse comportamento tem implicações importantes para projetos de conservação, pois a localização de estruturas como abrigos ou bebedouros pode alterar significativamente o padrão de deslocamento dos animais. Em outras palavras, a infraestrutura humana pode acabar direcionando involuntariamente o desenvolvimento da paisagem, ao concentrar o pastoreio em determinadas áreas. Por isso, pesquisadores alertam que o planejamento dessas estruturas deve ser feito com cuidado para não interferir excessivamente na dinâmica natural. Embora o objetivo da renaturalização seja permitir que a natureza siga seu curso, os pesquisadores destacam que os animais não são simplesmente abandonados à própria sorte. No experimento do Laboratório Mols, todos os animais são monitorados diariamente. Caso algum indivíduo apresente baixa probabilidade de sobreviver ao inverno, ele pode ser retirado do rebanho. Esse controle garante que o número de animais nunca ultrapasse a capacidade de suporte alimentar da paisagem, evitando sofrimento ou escassez extrema de recursos. Ao mesmo tempo, a abordagem busca recriar a dinâmica natural de populações selvagens, nas quais o tamanho do rebanho varia de acordo com a disponibilidade de alimento e as condições ambientais. Os resultados do estudo reforçam o potencial da renaturalização trófica como estratégia de restauração ecológica, especialmente em um cenário de mudanças climáticas e perda de biodiversidade.
Por: Redação





