Pouca gente no Brasil reconheceria Vicky Sarfati Safra se a visse andando pela rua e isso é, exatamente, o que ela prefere. Aos 73 anos, a viúva do banqueiro Joseph Safra é considerada há anos a mulher mais rica do Brasil, com uma fortuna familiar estimada pela Forbes em torno de R$ 120 bilhões (cerca de US$ 25,7 bilhões), patrimônio superior ao de figuras muito mais conhecidas do público brasileiro, como os donos de grandes bancos, redes de varejo e indústrias. No entanto, raríssimos brasileiros saberiam identificá-la em uma foto.
Discreta ao extremo, Vicky vive hoje em uma residência na região de Crans-Montana, nos Alpes suíços, preside uma fundação filantrópica que mantém o nome do casal e mantém a tradição de silêncio público que marca a família Safra há gerações.
Sua história, casamento aos 17 anos, vida reservada mesmo no topo do ranking de bilionários e protagonismo silencioso sobre um império bancário global, é um dos retratos mais curiosos da fortuna privada brasileira.
Vicky nasceu na Grécia, em uma família judaica originalmente ligada ao setor financeiro. Ainda criança, em 1950, veio com a família para o Brasil, onde cresceu e foi naturalizada brasileira. Os Sarfati, sobrenome de solteira, se estabeleceram em São Paulo e, poucos anos depois, se aproximaram da família Safra, de origem libanesa, que havia chegado ao Brasil em 1953.
Foi ali que Vicky conheceu Joseph Safra, que viria a se tornar um dos banqueiros mais poderosos do mundo. “Foi um amor à primeira vista, um amor que duraria até o último momento de sua vida”, afirmou o próprio Joseph, em relato que ficou registrado em um relatório anual do J. Safra Sarasin, um dos bancos da família. Em 1969, aos 17 anos, Vicky se casou com Joseph. O casal teve quatro filhos: Jacob, Esther, Alberto e David e, com o tempo, 14 netos.
Ao lado do marido, Vicky acompanhou a consolidação do Banco Safra no Brasil, fundado em 1972, após a aquisição do Banco das Indústrias e, décadas depois, a expansão internacional da família pelos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio.
A riqueza da família Safra não começa no Brasil. Suas raízes remontam a 1800, em Aleppo, na Síria, onde os antepassados de Joseph fundaram a Safra Frères & Cie, casa bancária que no século XIX financiava caravanas comerciais no Império Otomano, usando camelos como meio de transporte. Em 1953, Jacob Safra (pai de Joseph) migrou para o Brasil, fundando a Safra Importação e Comércio, que se tornaria a base do futuro império financeiro.
Joseph Safra expandiu o negócio em duas frentes: no Brasil, com o Banco Safra, e na Europa, com o J. Safra Sarasin, com sede na Suíça. Quando morreu, em dezembro de 2020, aos 82 anos, vítima de complicações ligadas à doença de Parkinson, Joseph deixou uma herança que estava entre as maiores do mundo. A metade do patrimônio foi destinada a Vicky; a outra metade, dividida entre os quatro filhos.
Hoje, Vicky Safra mora em Crans-Montana, nos Alpes suíços, em uma residência cercada de neve e paisagens alpinas. A escolha pela Suíça não foi recente: nos últimos anos de vida de Joseph, o casal já havia transferido a base familiar para o país europeu.
A discrição é uma característica antiga. A própria Bloomberg já definiu Vicky como “uma guardiã discreta de um império global”. Ela raramente concede entrevistas, não frequenta eventos públicos e não mantém presença em redes sociais. Essa postura reservada, aliás, sempre foi uma tradição da família Safra, Joseph também era conhecido por fugir dos holofotes durante toda a vida profissional.
Mesmo com a mudança para a Suíça, os Safra mantêm no Brasil uma das mansões mais notáveis do país: a residência da família, no bairro do Morumbi, em São Paulo, com cerca de 130 cômodos, foi considerada pela revista Architectural Digest, em 2024, como uma das maiores residências particulares do mundo.
Em 2022, dois anos após a morte de Joseph, Vicky criou a Vicky and Joseph Safra Philanthropic Foundation, entidade que concentra hoje grande parte de sua atuação pública. A fundação apoia projetos nas áreas de:
A fundação é gerida pessoalmente por Vicky, com o apoio de uma equipe pequena, e prefere discrição sobre montantes doados, repetindo o padrão da família.
Depois da morte de Joseph, os principais negócios da família foram distribuídos entre os quatro herdeiros, seguindo um plano sucessório já desenhado em vida pelo patriarca:
A disputa familiar envolvendo Alberto, que abriu processos contra a família em tribunais de Nova York desde 2023 sobre questões de herança, é um dos poucos pontos públicos que romperam a tradição de discrição Safra nos últimos anos. “Ele atentou contra seu pai em vida e agora contra sua memória”, respondeu a família, em nota, sobre as ações judiciais.
Além dos bancos, a família Safra controla imóveis de grande valor simbólico em várias cidades do mundo. Entre eles:
Em março de 2026, a Forbes trouxe uma mudança significativa no ranking global de bilionários: Vicky Safra deixou de ser considerada brasileira no levantamento internacional e passou a ser classificada como grega, com base em seu local de nascimento, embora a bilionária seja naturalizada brasileira e tenha vivido no Brasil desde os 10 anos de idade.
A reclassificação não tem relação com perda patrimonial, pelo contrário, a fortuna de Vicky cresceu de US$ 20,7 bilhões em 2025 para US$ 25,7 bilhões em 2026. A Forbes não deu explicação detalhada sobre o critério, mas a mudança retirou o nome de Vicky da lista principal de bilionários brasileiros no ranking global.
No recorte nacional, porém, ela continua aparecendo em segundo lugar entre as maiores fortunas ligadas ao Brasil, atrás apenas de Eduardo Saverin, cofundador do Facebook. E segue liderando, de forma consistente, a lista de mulheres mais ricas ligadas ao país.
Além de seu patrimônio, Vicky Safra ocupa um lugar raro no cenário bilionário mundial: o de mulher à frente de um império financeiro global em um setor ainda esmagadoramente masculino, o bancário. Embora não exerça gestão direta dos bancos (que ficam a cargo dos filhos), ela é a principal acionista do grupo e a figura que mantém a unidade estratégica da família.
Em um país em que a maioria dos bilionários ostenta fortuna, Vicky Safra é o contraponto: rica, anônima, discreta, filantrópica. Uma das histórias mais singulares da economia brasileira contemporânea e, talvez por isso mesmo, uma das menos contadas.





