O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, por unanimidade, a taxa básica de juros em 13,75% ao ano e interrompeu uma sequência de cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. A decisão ocorre em meio à piora das expectativas de inflação, às incertezas sobre as contas públicas e a um ambiente externo mais adverso.

O comunicado do Banco Central citou também os efeitos do prolongamento dos conflitos no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e a manutenção de condições monetárias restritivas nas economias avançadas. No cenário doméstico, o comitê identificou moderação mais acentuada da atividade, enquanto o mercado de trabalho, ainda resiliente, começou a mostrar sinais de desaquecimento.

Inflação e risco fiscal pesam sobre o cenário

A inflação cheia e os núcleos voltaram a acelerar e permanecem acima do teto da meta, segundo a avaliação apresentada no comunicado. Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, afirmou que o balanço de riscos passou a incorporar uma assimetria altista, associada à resistência da inflação de serviços e ao câmbio persistentemente depreciado.

Especialistas também apontaram o quadro fiscal como um dos fatores de desancoragem das expectativas. Josias Bento, sócio da GT Capital, avaliou que a ausência de uma sinalização de responsabilidade fiscal pode manter os juros elevados por mais tempo. Gustavo Assis, CEO da Asset, defendeu um ajuste estrutural das contas públicas e disse que não é sustentável depender apenas da política monetária para corrigir os desequilíbrios econômicos.

Para Marco Antonio Caruso, economista-chefe do Santander, a autoridade monetária reforçou que a taxa está em nível “substancialmente contracionista”. Na avaliação dele, a pausa não representa necessariamente o fim do ciclo, mas uma estratégia para controlar as expectativas.

A retirada da expressão “magnitude total do ciclo de calibração” do comunicado foi interpretada por Cristiano Oliveira, diretor executivo do Banco Pine, como um sinal de que a interrupção pode se prolongar além de dezembro. A XP avalia que o Banco Central não vê, por enquanto, necessidade de tornar a política monetária ainda mais restritiva, o que reduz a perspectiva imediata de alta.

Projeções para 2027 divergem

As expectativas do Boletim Focus subiram para 5,2% em 2026 e 4,8% em 2027. A projeção do próprio Copom para o segundo trimestre de 2028 passou de 3,2% para 3,5%.

Parte das instituições prevê a manutenção da taxa em 13,75% até o fim de 2027. O banco BV projeta retomada dos cortes em meados do próximo ano, com a taxa chegando a 12,50% no fim de 2027, enquanto o cenário-base da Polo Capital aponta Selic de 12% no mesmo período. Já José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, avaliou que a desvalorização cambial e a alta da curva de juros podem exigir aumento da taxa nas próximas reuniões.

Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, citou possíveis choques inflacionários no início de 2027, como os efeitos do El Niño, o fim da escala 6×1 e a entrada em vigor da nova tributação, o IVA. Representantes do setor produtivo, por outro lado, criticaram o impacto do nível de juros sobre comércio e serviços.

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