O Federal Reserve manteve nesta quarta-feira (28) a taxa básica de juros dos Estados Unidos entre 3,75% e 4% ao ano, mas a decisão dividida reforçou a possibilidade de novos aumentos. As diretoras Lisa Cook e Beth Hammack votaram por uma elevação de 0,25 ponto percentual já nesta reunião, enquanto dez integrantes defenderam a manutenção.
A pausa era esperada pelo mercado financeiro e foi justificada pelo Fed pela necessidade de reunir mais informações antes de tomar a próxima decisão. Para economistas ouvidos na análise, porém, o resultado não representa o fim do aperto monetário. As expectativas dos investidores já apontam para uma alta na reunião de dezembro.
Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, afirmou que o mercado trabalha com probabilidade próxima de 80% de aumento no último encontro do ano. A consultoria 4Intelligence projeta duas altas adicionais: uma em dezembro e outra em março de 2027.
Inflação segue acima da meta
A política monetária americana busca levar a inflação à meta de 2%. O índice de preços ao consumidor (CPI) acelerou de 3,4% para 3,7% no acumulado de 12 meses, impulsionado pelo encarecimento da gasolina. O núcleo do índice de preços para gastos de consumo pessoal (PCE), métrica preferida do Fed, está em 3%, um ponto percentual acima do objetivo. Já o núcleo do CPI subiu para 2,6%.
O petróleo é apontado como o principal risco para a trajetória de controle dos preços. O barril está cotado acima de US$ 100, segundo o material analisado. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, avaliou que o choque de energia mantém a inflação distante da meta.
Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos, disse que a combinação entre incertezas geopolíticas e atividade econômica resiliente mantém os juros longos pressionados. Na avaliação dela, uma escalada dos preços do petróleo pode provocar aumentos adicionais nos próximos meses.
Atividade continua forte
O Fed alterou a descrição da economia americana no documento divulgado após a reunião: a atividade passou a ser classificada como “forte”, em substituição ao termo “sólida”. Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, afirmou que a expansão continua apoiada pelo crescimento da produtividade e por investimentos robustos.
A 4Intelligence, contudo, identificou sinais de acomodação no consumo doméstico. No mercado de trabalho, a taxa de desemprego teve pouca variação e ficou em 4,2%. A criação de vagas acompanhou a expansão da força de trabalho, dinâmica que, segundo a consultoria, limitou as pressões inflacionárias estruturais associadas aos ganhos reais de salários.
Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, considerou que os dois votos dissidentes aumentam as chances de uma alta em dezembro. Sung classificou a decisão como uma pausa tática, sem mudança de rota, enquanto Centeno destacou que Kevin Warsh, presidente do Fed, demonstrou confiança no avanço das políticas já implementadas e na melhora das expectativas de inflação.
No mercado de câmbio, a decisão teve efeitos diferentes entre as moedas. O dólar caiu marginalmente no cenário global, mas subiu no mercado brasileiro. Para Benati, o movimento indica uma desvalorização mais intensa do real diante da moeda americana do que a observada entre as principais divisas desenvolvidas.
