O Comitê de Política Monetária (Copom) decide nesta quarta-feira (4) se mantém a Selic em 13,75% ao ano, após cinco pregões de forte deterioração nos mercados brasileiros depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A possibilidade de interromper o ciclo de cortes, que era minoritária antes do segundo turno, passou a ser o cenário mais provável entre os agentes econômicos.

Nas opções de Copom negociadas na B3, a probabilidade de manutenção chegou perto de 70% no fechamento de quinta-feira (29), ante cerca de 30% para uma redução de 0,25 ponto percentual. Também havia apostas residuais em alta dos juros.

A decisão será a primeira do Banco Central após a eleição e deve mostrar como a autoridade avalia os efeitos da alta do dólar, dos juros futuros e da queda da Bolsa sobre a inflação. O comunicado também poderá indicar se a porta permanece aberta para a reunião de dezembro, a última do ano.

Mercados mudaram as projeções

O Ibovespa acionou o circuit breaker na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, e acumulou cinco sessões de queda. O índice encerrou outubro com o pior desempenho mensal desde junho de 2022.

No Tesouro Direto, os títulos prefixados registraram a maior alta diária de taxas da série histórica, iniciada em 2005. O Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou papéis para tentar conter a volatilidade.

A reação refletiu a avaliação de que o próximo governo poderá ter dificuldade para controlar os gastos, segundo analistas ouvidos pelo InfoMoney. O Bradesco apontou que a desvalorização do real e a pressão sobre o petróleo devem elevar a projeção de inflação do Banco Central. Mesmo assim, o banco ainda prevê um corte de 0,25 ponto percentual, para 13,5% ao ano.

Para economistas e gestores citados na reportagem, a atividade econômica em desaceleração favorece uma redução dos juros. Em sentido contrário, a incerteza fiscal, a piora das expectativas e a depreciação cambial recomendam cautela e podem elevar a inflação projetada no horizonte relevante.

Contas públicas estão no centro da decisão

A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em setembro, segundo o Banco Central. A Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, estima que a perda de arrecadação com as bets, o pacote para microempreendedores individuais e o reajuste do Bolsa Família terão impacto fiscal de R$ 40 bilhões não previsto no orçamento. O cálculo não inclui outras promessas de campanha.

No discurso de vitória, Lula prometeu universalizar a escola de tempo integral até o ensino médio e criar o Pé-de-Meia universitário. Até o fechamento da reportagem, não havia anúncio sobre a nova equipe econômica. O presidente havia se reunido com os ministros Dario Durigan, da Fazenda, e Bruno Moretti, do Planejamento, para tratar da política fiscal e da composição do governo.

Parte dos especialistas defende uma pausa para preservar a credibilidade do BC e evitar que um corte seja interpretado como acomodação da política monetária ao quadro fiscal. Outros ainda consideram possível uma redução, caso as projeções de inflação permaneçam próximas da meta.

Para os investidores, a manutenção prolongaria os rendimentos de aplicações pós-fixadas, como Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI. Já títulos prefixados e atrelados à inflação continuariam expostos à marcação a mercado, que acompanha a reação da curva de juros ao resultado e ao comunicado.

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