• Sábado, 2 de maio de 2026

Teste inédito usa drones e produto biológico nas pastagens contra carrapato bovino

Tecnologia em fase de teste no Rio Grande do Sul propõe aplicação direta nas pastagens por meio de drones

Pesquisadores da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) do Rio Grande do Sul avançam na validação a campo de um produto biológico inédito para o controle do carrapato bovino. A tecnologia inovadora propõe a aplicação direta nas pastagens por meio de drones. A fase mais recente dos testes ocorreu na última semana em Hulha Negra, na Campanha gaúcha, marcando um novo passo rumo a uma alternativa sustentável ao modelo tradicional baseado em defensivos químicos.

Desenvolvido pelo Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), o projeto propõe uma mudança de paradigma: em vez de tratar o animal com produtos químicos, a estratégia atua no ambiente onde o carrapato passa a maior parte do seu ciclo de vida.

A iniciativa ataca uma lacuna tecnológica na pecuária. Atualmente, o mercado não dispõe de produtos em larga escala voltados ao controle de parasitas no ambiente. O pesquisador e diretor do IPVDF, José Reck, ressaltou a lógica por trás da nova abordagem. "A maior parte dos carrapatos está na pastagem, aguardando o hospedeiro. Mesmo assim, o controle segue concentrado no animal", explicou.

O estudo utiliza micro-organismos naturalmente presentes no solo, como fungos e bactérias, selecionados especificamente por sua capacidade de atingir o carrapato sem causar danos aos bovinos, aos seres humanos ou ao ecossistema. Esses agentes biológicos são concentrados em uma formulação líquida e aplicados no campo com o suporte de drones, o que amplia a escala e a precisão da operação.

"Projetos assim são fundamentais para avançarmos em soluções práticas diante de um problema recorrente no dia a dia dos produtores. A atuação técnica e a expertise da Secretaria da Agricultura permitem não apenas o desenvolvimento, mas também a validação de alternativas inéditas, mais sustentáveis e alinhadas às demandas atuais da pecuária", destacou o secretário da Agricultura do Rio Grande do Sul, Márcio Madalena.

Iniciado no começo de 2025, o projeto está agora em fase de validação em escala real, com monitoramento contínuo das áreas experimentais. Atualmente, dois tratamentos estão em teste, com avaliação sistemática de custo-benefício. De acordo com José Reck, a previsão é manter os experimentos até julho, quando o inverno reduz naturalmente a população de carrapatos, permitindo um balanço mais preciso dos resultados.

A proposta combina os conhecimentos já consolidados na agricultura — onde o uso de micro-organismos no controle de pragas já é amplamente difundido — com o manejo sanitário animal. A professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e integrante do projeto, Patrícia Golo, explica o diferencial da pesquisa:

"Trata-se de uma abordagem que considera todo o sistema produtivo, e não apenas o animal. Avaliamos a infestação nos bovinos, as fases no ambiente e a persistência do fungo no solo, em um experimento conduzido em escala próxima à realidade do produtor."

Essa pesquisa coroa uma linha de trabalho iniciada em 2012 no IPVDF. Até recentemente, os esforços estavam concentrados no desenvolvimento de soluções biológicas para aplicação direta no gado. A mudança para o controle no ambiente marca o estágio mais avançado da investigação.

O Rio Grande do Sul enfrenta um dos cenários mais complexos de infestação de carrapato bovino nas Américas. A forte presença de raças de origem europeia — que são mais suscetíveis ao parasita — somada às condições climáticas favoráveis do estado intensifica o problema.

Como consequência, os produtores gaúchos lideram o uso de carrapaticidas químicos, o que acelera o desenvolvimento de resistência. Para os especialistas, esse cenário cria um ciclo vicioso: quanto maior o uso de químicos, menor sua eficácia ao longo do tempo.

O médico veterinário da Seapi, Gabriel Fiori, reforçou que o uso de insumos biológicos é uma estratégia de sobrevivência econômica e ambiental para a pecuária moderna. "O desenvolvimento e a validação dessas alternativas representam avanços importantes diante da crescente resistência aos acaricidas químicos tradicionais, do aumento das exigências por sustentabilidade e da necessidade de reduzir resíduos em produtos de origem animal", explicou.

Com investimento em alternativas ao controle convencional há 15 anos, a Seapi agora vislumbra na tecnologia de aplicação aérea biológica uma solução de longo prazo para reduzir os impactos ambientais, os riscos à saúde e os custos de produção no campo.

Por: ITATIAIA

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