• Sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pó de rocha reduz efeito estufa em pastagens do Cerrado, aponta estudo

Pesquisa da Embrapa e UnB indica menor impacto ambiental frente a fertilizantes convencionais

Um estudo realizado em áreas de pastagem no Cerrado aponta que o uso de remineralizadores à base de rochas silicáticas pode ajudar a reduzir a emissão de gases de efeito estufa no solo, em comparação com fertilizantes potássicos convencionais. Entre os materiais avaliados, a biotita xisto apresentou o menor impacto em termos de aquecimento global ao longo do período analisado.

A técnica que utiliza rochas moídas para combater o aquecimento global teve sua eficácia confirmada no bioma Cerrado. A pesquisa pioneira foi conduzida pela Embrapa Cerrados e pela Universidade de Brasília (UnB) e comprovou que os remineralizadores de solo, conhecidos popularmente como "pós de rocha", podem reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEEs) de pastagens, validando resultados antes observados apenas em clima temperado.

Foram testados dois tipos de pós de rocha: o basalto e a biotita xisto. A biotita xisto apresentou a menor emissão de gases de efeito estufa, quatro vezes menos em comparação com o fertilizante comercial cloreto de potássio (KCl). Foram 82 contra 415 quilos de dióxido de carbono (CO₂) equivalente por hectare. Os resultados foram publicados na revista internacional Agronomy.

Diferente dos fertilizantes convencionais, como o cloreto de potássio (KCl), apesar de terem efeito imediato, os remineralizadores têm menor pegada ambiental, já que são obtidos pela moagem de rochas silicáticas, sem processos químicos.

Sobre o estudo realizado, Marcus Vinícius dos Santos, engenheiro agrônomo, bolsista da Embrapa e primeiro autor do artigo, destaca os resultados como positivos. “Registramos uma das menores emissões de óxido nitroso [N2O] com o uso da biotita xisto na dose de 151 toneladas por hectare”, afirmou.

Já a pesquisadora da Embrapa Cerrados e orientadora do estudo, Alexsandra de Oliveira, ressaltou o potencial desses materiais para o alcance de uma agricultura ambientalmente mais sustentável. “Estamos buscando alternativas que possam reduzir a dependência dos fertilizantes sintéticos importados que usamos para a adubação das pastagens, cuja produção, transporte e aplicação deixam elevadas pegadas ambientais. Com esses resultados, vimos que os remineralizadores demonstram potencial de reduzir as emissões de gases efeito estufa”, sustentou.

Os testes foram realizados em um experimento de longa duração, instalado em 2015 na área experimental da Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), com pasto de capim braquiária (Urochloa brizantha), cultivar BRS Paiaguás, forrageira desenvolvida pela Embrapa e uma das mais utilizadas na pecuária tropical brasileira. Naquele ano, foram aplicados a biotita xisto e o basalto.

Durante seis meses, entre 2024 e 2025, a equipe utilizou câmaras instaladas no solo para capturar e medir cada micrograma (um milionésimo da grama) de gás emitido pela terra. As medições contemplaram os períodos secos, a transição entre períodos e o chuvoso. Após a colheita do milho, os resíduos da lavoura foram removidos e feitos cortes para promover a rebrota do pasto.

Já o basalto foi testado em duas doses: 8,3 toneladas por hectare e 40 toneladas por hectare. Os resultados mostraram que a primeira se mostrou mais eficiente, registrando um estoque de nitrogênio superior quando comparado aos demais tratamentos.

Outro ponto de atenção foi o aumento das emissões em período de chuva, quando foram registrados picos de emissão de óxido nitroso e gás carbônico, o que não ocorreu na época seca.

O tratamento com a menor dose de basalto (8,3 toneladas por hectare) permitiu observar maiores estoques de carbono no solo, quando comparado aos demais tratamentos e ao controle. Essa também foi a opção com o melhor resultado para o estoque de nitrogênio. O nitrogênio impacta diretamente o sistema pecuário, podendo causar perdas de produtividade, além de danos ambientais.

O estudo mostrou ainda que a atividade das enzimas do solo avaliadas não apresentou diferenças significativas entre os tratamentos, seja com remineralizadores ou com o adubo convencional. Para os pesquisadores, esse resultado indica que os remineralizadores promovem mudanças graduais no solo, sem causar desequilíbrios biológicos.

“A estabilidade da atividade enzimática sugere que o sistema mantém sua funcionalidade ao longo do tempo, o que é um indicativo importante de sustentabilidade ambiental”, destacou a pesquisadora da Embrapa Cerrados.

Além do potencial ganho ambiental, o pó de rocha é um produto nacional. Atualmente, o país importa cerca de 95% do potássio que utiliza, principalmente da Rússia. Já o pó de rocha pode ser encontrado em território nacional, com fontes próximas às áreas rurais.

Por: ITATIAIA

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