O Brasil entrou oficialmente no radar de um possível evento climático extremo que pode mudar completamente o cenário do agronegócio, da produção de alimentos e até da economia mundial nos próximos meses. Modelos climáticos nacionais e internacionais já indicam que o fenômeno El Niño deve ganhar força entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, elevando o risco de seca severa, enchentes históricas, ondas de calor e quebra de produtividade em diferentes regiões do país.
O alerta foi reforçado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que divulgou nota técnica apontando que os efeitos devem ser sentidos principalmente durante a primavera e o verão. O documento destaca ainda que a NOAA, agência climática dos Estados Unidos, calcula atualmente 37% de probabilidade de formação de um evento considerado “muito forte”, cenário já tratado por especialistas como um possível “Super El Niño”.
A preocupação não está apenas no comportamento do clima. Cientistas e economistas alertam que um evento dessa magnitude pode provocar impactos em cadeia sobre produção agrícola, preços dos alimentos, geração de energia, logística e segurança alimentar global.
No agronegócio brasileiro, o temor já começou a crescer entre produtores, analistas e setores ligados à exportação, especialmente porque o último episódio intenso do fenômeno deixou marcas profundas no país.
Brasil ainda sente os efeitos da seca histórica de 2023/24O novo alerta climático surge pouco tempo depois de o Brasil enfrentar uma das piores estiagens das últimas décadas.
Segundo o próprio Cemaden, o episódio de El Niño entre 2023 e 2024 foi responsável pela maior seca registrada em 70 anos no país, afetando aproximadamente 80% dos municípios brasileiros com algum nível de estiagem.
Naquele período, rios da Amazônia atingiram níveis críticos, houve dificuldades logísticas para o transporte de grãos e combustíveis, aumento de queimadas, perdas agrícolas e pressão sobre os reservatórios hidrelétricos.
Agora, os modelos climáticos indicam que o cenário pode voltar com intensidade semelhante — ou até superior em algumas regiões.
Norte e Nordeste podem enfrentar seca severa e calor extremoA nota técnica do Cemaden aponta que as regiões Norte e Nordeste estão entre as mais vulneráveis aos efeitos do novo El Niño.
As previsões indicam:
As bacias dos rios Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia aparecem entre as áreas de maior preocupação.
Para o agronegócio, isso pode significar um cenário extremamente delicado.
Culturas dependentes de regularidade climática, como milho, soja e pastagens, podem sofrer com déficit hídrico prolongado. Na pecuária, o risco envolve degradação das pastagens, aumento dos custos com suplementação alimentar e queda de produtividade.
Além disso, a seca severa pode comprometer o transporte hidroviário em importantes corredores logísticos do Norte do país, elevando custos operacionais e afetando exportações.
Sul do Brasil entra na rota das enchentesEnquanto parte do país pode enfrentar estiagem intensa, o Sul aparece no mapa das regiões com maior risco de chuvas excessivas e enchentes.
O Cemaden projeta aumento expressivo nos volumes de chuva principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Entre as áreas gaúchas citadas na nota técnica estão:
Já em Santa Catarina, cidades como Joinville, Criciúma, Lages, Chapecó e Caçador aparecem entre as regiões com maior atenção para temporais e acumulados elevados de precipitação.
O temor é que o Brasil repita episódios extremos semelhantes aos registrados recentemente no Sul, quando enchentes provocaram destruição de cidades inteiras, prejuízos bilionários e colapso logístico.
Para o agro, excesso de chuva também preocupa por elevar riscos de erosão, perdas de qualidade em grãos, atraso no plantio e dificuldades de escoamento da produção.
Ondas de calor podem voltar ainda mais fortesOutro ponto destacado pelos especialistas envolve as ondas de calor.
Segundo o Cemaden, o Brasil pode registrar novamente episódios extremos de temperatura, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, repetindo padrões observados em 2024.
Com o planeta mais quente devido às mudanças climáticas, cientistas afirmam que os efeitos do El Niño tendem a ser potencializados.
Na prática, isso significa:
Pesquisadores também alertam que oceanos mais aquecidos podem alterar o próprio comportamento do fenômeno, tornando episódios extremos mais frequentes nas próximas décadas.
Super El Niño preocupa o mundo inteiroO temor internacional aumentou após estudos climáticos começarem a comparar o possível evento de 2026 ao histórico “Super El Niño” de 1877-1878.
Aquele episódio ficou marcado como uma das maiores tragédias climáticas da história moderna.
Na época, secas extremas e colapsos agrícolas provocaram fome em massa em diferentes regiões do planeta. Estudos citados por especialistas estimam que milhões de pessoas morreram em decorrência indireta da crise climática.
Embora cientistas considerem improvável um desastre humanitário semelhante atualmente, o risco econômico global é tratado com enorme preocupação.
O principal alerta envolve a segurança alimentar.
Secas simultâneas em grandes regiões produtoras podem reduzir a oferta global de alimentos, elevar preços internacionais e pressionar a inflação em diversos países.
Além da agricultura, o fenômeno pode atingir:
No Brasil, especialistas já observam preocupação crescente em setores ligados à produção agrícola e pecuária.
Caso o fenômeno se confirme com intensidade elevada, o país pode enfrentar:
A pecuária também pode sofrer impactos importantes, principalmente em regiões dependentes de pastagens naturais. Temperaturas elevadas e falta de chuva reduzem qualidade nutricional das áreas de pastejo e elevam custos de manutenção do rebanho.
Na agricultura, culturas sensíveis ao clima podem enfrentar perdas por estresse térmico e hídrico, principalmente em fases críticas de desenvolvimento.
Governo intensifica monitoramento climáticoDiante do risco crescente, o Cemaden recomendou reforço imediato nas ações de monitoramento e prevenção.
Entre as medidas sugeridas estão:
O órgão também defende maior integração entre alertas do Cemaden, Inmet e Inpe para acelerar respostas diante de eventos extremos.
El Niño: O que esperar agora?Embora o fenômeno ainda esteja em desenvolvimento, especialistas afirmam que os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do El Niño.
Os modelos climáticos continuarão sendo atualizados semanalmente, acompanhando o aquecimento das águas do Pacífico.
No setor agropecuário, a tendência é de aumento na atenção sobre planejamento hídrico, gestão de risco climático e estratégias de proteção da produção.
A grande preocupação é que o mundo pode entrar em um período de extremos simultâneos: seca em algumas regiões, enchentes em outras, calor recorde e pressão crescente sobre alimentos e energia.
E desta vez, o impacto pode ultrapassar fronteiras e atingir diretamente o bolso da população global.
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