• Sábado, 21 de fevereiro de 2026

Obras que excedem prazo e Orçamento viram rotina na Alemanha

Aeroportos, estações ferroviárias e outros grandes projetos são concluídos com atraso e por valores acima do Orçamento.

Canteiros de obra viraram parte da paisagem alemã. Em Colônia, a reforma da ópera da cidade, construída na década de 1950 como um símbolo da democracia moderna, começou em 2012 e deveria durar 3 anos. Mas o complexo, composto pela ópera em si, um teatro com 2 palcos e uma ópera infantil, está até agora, 14 de fevereiro de 2026, em obras.

O orçamento original de 250 milhões de euros –aproximadamente R$ 1,5 bilhão– aumentou para 850 milhões de euros –R$ 5,3 bilhões. Acrescente as taxas de juros e o custo dos locais provisórios, e a conta chega a 1,5 bilhão de euros –R$ 9,3 bilhões).

A cantora de ópera Emily Hindrichs lembra do seu otimismo quando ingressou na companhia, em 2015: “Na época, pensei: tudo bem, isso é algo que eles vão resolver logo”. Dez anos depois, Hindrichs ainda não pisou no prédio. “Parece que estamos jogando dinheiro fora repetidamente”, afirma.

Durante a década de construção, o ator Andreas Groetzinger passou por um turbilhão de emoções. “Novas datas foram anunciadas repetidamente, mas elas simplesmente nunca se concretizaram”.

O que mais aborrece, segundo Groetzinger, é que “ninguém consegue identificar exatamente o que deu errado. É tudo uma grande teia de causas e efeitos, confusa e supercomplexa”.

Jürgen Marc Volm assumiu a liderança da reforma da ópera de Colônia em 2024, quando as obras já estavam 9 anos atrasadas. Ele aponta para a enorme complexidade do projeto: 64.000 m², 2.000 cômodos, 58 empresas diferentes com 72 contratos, além de 22 agências de planejamento.

“Muito trabalho teve que ser refeito porque as permissões não foram concedidas adequadamente e ocorreram falhas no projeto e na construção”, afirmou Volm à DW.

Acrescente a isso um processo de licitação rígido que muitas vezes favorece a proposta mais barata. Quando as empreiteiras vão à falência, o trabalho para, novas licitações acontecem, e os atrasos se acumulam.

Tivemos que trazer novas empresas, e elas tiveram que entrar no projeto enquanto ele estava em andamento, então as coisas mudavam continuamente”.

“A Alemanha tem um problema enorme”, diz Reiner Holznagel, presidente da Federação dos Contribuintes da Alemanha. “Grandes projetos não são mais construídos de forma rápida, eficiente e de acordo com os requisitos. Aquela boa e velha imagem positiva da Alemanha não é mais verdadeira”.

Holznagel aponta para as várias camadas de regulamentação, desde ambientais até de segurança, que tornam os processos mais lentos: “Construir na Alemanha é muito, muito caro. Não por causa dos materiais ou dos salários, mas porque temos muitas regulamentações. Elas custam enormes quantias de dinheiro, tempo e esforço”.

Para completar o quadro, a responsabilidade e a supervisão dessas regulamentações ficam a cargo de diferentes departamentos de uma grande e pouco integrada administração.

A reforma da ópera não é o 1º grande atraso de Colônia. A famosa catedral da cidade, o monumento mais visitado da Alemanha, levou 600 anos para ser concluída. A construção começou em 1248, e quando a cidade ficou sem dinheiro, um guindaste abandonado no topo de uma torre inacabada se tornou um marco por muitos séculos.

Muito tempo depois, em 1880, é que a igreja ficou finalmente pronta. A conclusão tornou-se uma missão nacional enquanto a Alemanha unia os seus muitos pequenos reinos e ducados num único Estado-nação pela 1ª vez.

“Eles levaram 600 anos para terminar”, diz Groetzinger e brinca: “Espero que a gente se saia melhor”.

No centro de Paris, 500 quilômetros a sudoeste de Colônia, ergue-se outra catedral famosa: Notre-Dame. Ela foi concluída muito mais rapidamente do que sua contraparte de Colônia, em 1345, e também pode servir de modelo para a Alemanha superar os problemas atuais com prazos e estouros orçamentários.

A torre e grande parte do telhado de Notre-Dame foram destruídos num incêndio em 2019. Pouco depois, o presidente francês, Emmanuel Macron (Renascimento, centro), anunciou que a igreja seria reconstruída em 5 anos. E isso foi feito no prazo e com o Orçamento estabelecidos.

Jean-Louis Georgelin, um general aposentado do exército, supervisionou o projeto com rigor militar. “Ele chamou isso de batalha de 5 anos”, lembra Philippe Jost, que assumiu depois da morte de Georgelin e liderou o projeto até sua conclusão, em 2024.

Jost diz que foi um senso de propósito comum que criou o “Espírito de Notre-Dame”. “Trabalhamos como uma grande família, juntos”, disse ele aos chefes de todas as empresas envolvidas no projeto.

Jost também disse a eles que estava lá para ajudá-los caso encontrassem problemas. “O dinheiro gasto para resolver um problema rapidamente é dinheiro bem gasto. É como combater um incêndio antes que ele se espalhe”, afirma.

Ele estava preparado para o pior. Quase 1/4 do orçamento da reconstrução era destinado a provisões para aumentos de preços, eventos imprevistos e riscos de programação.

Em vez de culpar, os franceses priorizaram a confiança e a comunicação. E mantiveram a equipe pequena. Jost dirigia uma organização que nunca teve mais de 35 pessoas e foi criada especialmente para esse fim.

Eles passaram mais de 1 ano procurando os empreiteiros certos e tiveram “que escolher os melhores”. O resultado foi uma reconstrução de 700 milhões de euros –R$ 4,3 bilhões–, concluída conforme prometido, em 5 anos.

É hora de a Alemanha aprender com as melhores práticas de outros lugares, defende Holznagel, presidente da Federação dos Contribuintes: “Quando vejo o estado de algumas pontes ou estradas — sem falar dos trens —, percebo que o Estado alemão tem um problema enorme, e dá para entender por que as pessoas estão tão insatisfeitas”.

A cantora Hindrichs se surpreende com o que ela considera uma falta de flexibilidade na Alemanha: “Sempre existe essa mentalidade teimosa e rígida: ‘Temos um plano, mas não há um plano B”.

O ator Groetzinger acrescenta que, durante décadas, os edifícios de ópera e teatro de Colônia não receberam a manutenção adequada, o que agravou o problema: “A Alemanha investiu tão pouco em sua infraestrutura que, quando finalmente começam a fazer isso, os problemas se tornam insuperáveis.”

A boa notícia? A ópera de Colônia está programada para reabrir no último trimestre de 2026. Para Emily, será emocionante: “Se eu puder cantar lá, será como um retorno ao lar. É por isso que tenho esperado”.


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Por: Poder360

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