Presidente equatoriano buscou apoio de Erik Prince em 2025 para combater organizações criminosas. Mais de um ano depois, país aprofundou cooperação com os Estados Unidos, enquanto a crise de segurança continua.
A promessa de uma aliança entre o presidente do Equador, Daniel Noboa, e o empresário americano Erik Prince, fundador da antiga empresa militar privada Blackwater, ganhou repercussão internacional em março de 2025. Na ocasião, o governo equatoriano apresentou a iniciativa como parte de uma estratégia para enfrentar o narcotráfico e a violência das organizações criminosas.
Mais de um ano depois, o cenário mudou. A parceria anunciada com Prince não se concretizou após as eleições presidenciais daquele ano, segundo declaração do próprio empresário à organização Human Rights Watch. Enquanto isso, Noboa ampliou a cooperação militar com os Estados Unidos e manteve uma política de enfrentamento direto às facções criminosas.
Apesar das operações de segurança, o Equador continua enfrentando índices elevados de violência. O avanço das organizações criminosas também passou a preocupar moradores de Quito, capital que durante anos esteve relativamente distante dos confrontos mais intensos registrados em cidades portuárias.
Como começou a aproximação entre Noboa e Erik Prince
Em 11 de março de 2025, Daniel Noboa anunciou uma aliança estratégica com Erik Prince, ex-integrante das forças especiais da Marinha dos Estados Unidos e fundador da Blackwater.
O objetivo declarado era fortalecer as capacidades das forças equatorianas no combate ao narcotráfico e na proteção das águas territoriais contra atividades ilegais.
A iniciativa foi anunciada durante um período de forte pressão sobre o governo, marcado por homicídios, disputas entre facções e ataques contra agentes de segurança.
Na época, Noboa defendia a necessidade de assistência internacional para enfrentar organizações criminosas que haviam ampliado sua presença no país.
Prince chegou ao Equador em abril de 2025 e acompanhou operações de segurança em Guayaquil, uma das cidades mais afetadas pela violência.
Sua presença provocou questionamentos sobre o papel que empresas privadas e especialistas estrangeiros poderiam desempenhar nas ações policiais e militares.
Afinal, o acordo com o fundador da Blackwater foi concretizado?
A resposta ganhou novos elementos em julho de 2026.
Em reportagem publicada pelo jornal espanhol El País, Erik Prince afirmou à Human Rights Watch que a aliança anunciada com o governo equatoriano não se materializou depois das eleições de 2025.
O empresário também declarou que sua empresa Vectus Global e organizações afiliadas não participaram das operações investigadas pela entidade de direitos humanos.
A informação é importante porque diferencia o anúncio político de 2025 das ações efetivamente realizadas nos meses seguintes.
Embora Prince tenha visitado o país e acompanhado atividades de segurança, não há comprovação pública de que a parceria anunciada tenha se transformado em um programa operacional permanente.
A cooperação militar com os Estados Unidos ganhou força
Sem a concretização da parceria com Prince, o governo de Daniel Noboa aprofundou sua relação com Washington.
Em março de 2026, Equador e Estados Unidos anunciaram operações conjuntas contra organizações classificadas pelas autoridades como terroristas e envolvidas com o narcotráfico.
A cooperação passou a incluir treinamento, inteligência, equipamentos e apoio militar direto em determinadas operações.
Para o governo equatoriano, a participação internacional é uma ferramenta necessária para enfrentar grupos criminosos que possuem recursos financeiros, armamentos e conexões além das fronteiras nacionais.
Entretanto, a ampliação dessa colaboração também provocou questionamentos sobre transparência, fiscalização e respeito aos direitos humanos.
Um relatório divulgado pela Human Rights Watch em julho de 2026 documentou denúncias de detenções arbitrárias, tortura e ataques durante operações de segurança.
A organização pediu esclarecimentos aos governos envolvidos sobre suas responsabilidades e os mecanismos de controle dessas ações.
As autoridades americanas negaram envolvimento em determinados episódios investigados, enquanto outros pontos permaneciam sem esclarecimento público.
Violência continua sendo um dos maiores desafios do Equador
A crise de segurança equatoriana não começou com o governo Noboa, mas se agravou significativamente nos últimos anos.
Segundo dados reunidos pela Human Rights Watch, o país registrou mais de 9.200 homicídios em 2025, com taxa de aproximadamente 50,9 mortes por 100 mil habitantes.
O número representa uma transformação profunda em relação à década anterior, quando o Equador figurava entre os países com menores taxas de homicídio da América Latina.
A expansão de organizações como Los Choneros, Los Lobos e Los Tiguerones está relacionada ao controle de rotas do tráfico internacional de drogas, extorsões e disputas territoriais.
A localização geográfica do Equador, entre Colômbia e Peru, dois grandes produtores de cocaína, contribui para a importância estratégica de seus portos e corredores logísticos.
As organizações criminosas disputam esses espaços e procuram ampliar suas atividades para diferentes regiões do país.
Facções também avançam sobre a capital Quito
Uma reportagem publicada pela Reuters em 29 de outubro de 2026 mostrou que Quito se tornou um novo território de disputa entre organizações criminosas.
Grupos que antes concentravam parte de suas atividades em regiões costeiras passaram a buscar espaço em bairros da capital.
Em algumas comunidades, moradores instalaram câmeras e portões para tentar reduzir a exposição à violência.
A atuação das autoridades produziu resultados localizados. No bairro de Solanda, por exemplo, o número de mortes violentas entre janeiro e setembro caiu de 13 em 2025 para duas em 2026, segundo os dados apresentados pela Reuters.
Entretanto, especialistas alertam que a redução da violência em uma determinada área não significa necessariamente o enfraquecimento das organizações criminosas.
Em alguns casos, a pressão policial pode provocar o deslocamento das atividades ilegais para outros territórios.
Esse cenário demonstra a complexidade de uma crise que envolve não apenas segurança pública, mas também o funcionamento das instituições, o sistema prisional e as redes internacionais de tráfico.
O histórico da Blackwater explica parte da controvérsia
Erik Prince fundou a Blackwater em 1997. A empresa ganhou notoriedade ao prestar serviços de segurança ao governo americano durante operações militares no exterior.
Sua atuação no Iraque tornou-se alvo de controvérsia após um episódio ocorrido em Bagdá, em 2007, quando funcionários da companhia mataram 17 civis na Praça Nisour.
Prince vendeu a empresa em 2010 e posteriormente passou a atuar em outros negócios relacionados à segurança e à consultoria internacional.
Por causa desse histórico, sua aproximação com o governo equatoriano despertou preocupações entre organizações de direitos humanos e especialistas em segurança.
O debate envolve os limites da participação de empresas privadas em operações que normalmente são responsabilidade de instituições estatais.
O que esperar da estratégia de segurança do Equador?
A situação atual mostra que a crise equatoriana ultrapassa a discussão sobre a contratação de especialistas estrangeiros.
O governo de Daniel Noboa continua apostando na cooperação internacional e no fortalecimento das operações militares e policiais.
Ao mesmo tempo, a persistência de homicídios, extorsões e disputas entre facções demonstra que a recuperação da segurança pública depende de medidas de longo prazo.
Especialistas e organizações de direitos humanos defendem que o enfrentamento ao crime organizado também exige fortalecimento das investigações, do sistema judicial e dos mecanismos de fiscalização das forças de segurança.
A aliança anunciada com Erik Prince em 2025 acabou não se transformando no projeto permanente inicialmente esperado. Entretanto, o episódio permanece como parte importante da história recente da política de segurança equatoriana.
Mais de um ano depois, o principal desafio de Noboa continua sendo o mesmo: reduzir a violência e recuperar o controle de territórios disputados por organizações criminosas, sem comprometer as garantias legais da população.
