O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá em 2026 uma meta de superavit de R$ 34,3 bilhões, que equivale a 0,25% do PIB (Produto Interno Bruto). A margem de tolerância de 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo permite que receitas e despesas fiquem no mesmo patamar (deficit zero) para cumprimento da regra.
O Orçamento de 2026 projeta saldo positivo de R$ 34,5 bilhões nas contas do governo. O valor está R$ 200 milhões acima do centro da meta fiscal. Contudo, economistas consultados pelo Poder360 avaliam que a chance de entregar superavit é mínima.
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A LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026 abriu espaço para que o governo Lula cumpra a meta fiscal pelo piso. Economista-chefe e sócio da corretora Warren Investimentos, Felipe Salto avalia que haverá dificuldades mesmo na tentativa de alcançar o deficit zero.
“A chance de entregar um superavit é próxima de zero. A tendência é o governo mirar a banda inferior da meta, que é o deficit zero. Contudo, mesmo para buscar esse resultado, entendemos que será bastante difícil. A aprovação do corte de benefícios tributários e outras majorações de tributos ajudam nessa tarefa, mas não resolve tudo. Entendemos que o Orçamento contém muitas receitas incertas, que dificilmente se verificarão”, declara ao Poder360.
De acordo com Salto, a equipe econômica terá de alterar a meta ou fazer um contingenciamento muito elevado. O economista afirma que essa 2ª opção “poderia ser impossível de se efetivar, dado o nível bastante baixo das despesas discricionárias e a pressão e espaço das emendas parlamentares”.
Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, diz que é “muito remota” a possibilidade do governo atingir superavit primário em 2026. O especialista menciona algumas exceções que foram feitas na busca para cumprir a meta.
“O governo já tinha autorização para pagar R$ 57,8 bilhões em precatórios fora da meta. A esta autorização somaram-se recentemente a capitalização dos Correios (R$ 10 bilhões), despesas estratégicas em Defesa (R$ 5 bilhões) e gastos com saúde e educação custeados com recursos do Fundo Social (R$ 1,5 bilhões). Estas exceções somadas chegariam a algo como 0,55% do PIB, de modo que, mesmo que o governo buscasse o centro da meta, para fins de cumprimento formal, um deficit de 0,3% do PIB estaria em conformidade com o objetivo”, afirma.
Em 2025, o governo espera um deficit primário de R$ 34,3 bilhões. A meta permite um saldo negativo de até R$ 31 bilhões.
Para cumpri-la, contingenciou R$ 3,3 bilhões do Orçamento federal em novembro.

A dívida pública percentual em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) foi a 79,0% em novembro de 2025, segundo o BC (Banco Central). Cresceu 0,6 ponto percentual na comparação com outubro deste ano. Em valores, equivale a R$ 10 trilhões.
Esses dados se referem à DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral), como é conhecido o indicador. O BC tem uma metodologia mais ampla, uma vez que inclui títulos do governo com a autoridade monetária e débitos dos governos estaduais e municipais.
Há consenso de que é necessário atingir superavits em sequência para estabilizar a trajetória da dívida. A situação fiscal, entretanto, dificulta que isso seja alcançado.
“Tendo pedido autorização explicitamente para o Congresso para buscar o limite inferior da banda (0% do PIB), é de se imaginar que há mais chances de um deficit próximo de 0,8% do PIB do que de um superavit em 2026. O superavit para estabilizar a dívida, em condições normais –economia crescendo conforme o potencial e juros no nível neutro–, é na casa de 2%. Em 2026, ainda teremos juros acima do neutro e deficit primário. O crescimento da dívida é inexorável”, diz Bittencourt.
Salto, por sua vez, afirma que o governo atual “acertou em muitas coisas, sob a batuta de Fernando Haddad [ministro da Fazenda], mas errou ao não avançar na agenda do gasto público com maior empenho”. O economista cita que a equipe econômica tentou levar adiante um pacote de corte de gastos em novembro de 2024, com revisão nas despesas dos militares e combate aos supersalários no funcionalismo.
“Conseguiu-se submeter a correção do salário mínimo à variação real do limite de gastos do novo arcabouço fiscal, o que, sem dúvida, foi um avanço. A agenda que se coloca para 2027 é a de um programa de consolidação fiscal mais intenso e abrangente. Será preciso colocar o dedo em diversas feridas que todos têm tentado evitar. Vinculações, indexações, gastos tributários (tema este em que Haddad avançou, mas ainda é preciso muito mais), subsídios financeiros e creditícios, fundos orçamentários e extraorçamentários, emendas parlamentares, Fundeb, etc.”, acrescenta.
Para ele, é necessário uma ação robusta para que as receitas do governo passem a superar as despesas de forma significativa. “Entendo que, com empenho e convicção, a partir de um programa completo, seria possível recuperar um superavit de 2% do PIB, suficiente para equilibrar a relação dívida/PIB, em um horizonte de 1 ano e meio, a partir de 2027. Mas isso se tudo caminhar na direção esperada ou necessária”, declara.
A mediana das estimativas de agentes financeiros é de deficit primário de 0,56% do PIB em 2026, segundo o Boletim Focus, do BC. Os economistas consultados pelo Prisma Fiscal, relatório publicado pelo Ministério da Fazenda, projetam um saldo negativo de R$ 72,1 bilhões.





