O churrasco, um dos maiores símbolos culturais dos Estados Unidos, está ficando mais caro, mais restrito e cercado de incertezas. O país vive um cenário considerado inédito por parte dos analistas do setor pecuário: a combinação entre o menor rebanho bovino desde 1951, preços recordes da carne bovina e uma crescente ameaça sanitária na fronteira com o México está pressionando toda a cadeia da proteína animal dos EUA.
O impacto já aparece nos restaurantes, nos supermercados e no bolso do consumidor. Cortes tradicionais utilizados em churrascos e steakhouses atingiram valores históricos, enquanto produtores convivem com dificuldades para reconstruir os rebanhos após anos de seca, aumento dos custos operacionais e redução da oferta de animais.
Agora, um novo fator amplia a preocupação do mercado: a possibilidade de avanço da mosca-varejeira do Novo Mundo, uma das pragas mais destrutivas já enfrentadas pela pecuária norte-americana.
A base da crise está diretamente ligada à produção pecuária.
Os Estados Unidos iniciaram 2026 com apenas 86,2 milhões de bovinos e bezerros, o menor volume registrado em 75 anos. A queda vem sendo contínua: eram 87,2 milhões de cabeças em 2024, 86,5 milhões em 2025 e agora o menor nível desde o início da década de 1950.
Além da redução do rebanho total, o país também registra queda no número de vacas destinadas à produção de carne e uma das menores produções de bezerros desde o final da década de 1940.
O resultado é uma oferta cada vez mais limitada de animais para abate.
Segundo Emily Kerr, economista sênior do Federal Reserve de Dallas, o principal problema do mercado não está apenas nos riscos sanitários atuais, mas na própria escassez estrutural de gado.
Nas palavras da especialista, o estoque bovino americano atingiu o menor nível em 75 anos, uma tendência que já vinha ocorrendo antes mesmo das preocupações com a nova ameaça sanitária.
A retração do rebanho não aconteceu por acaso.
Nos últimos anos, estados importantes para a pecuária, especialmente o Texas, enfrentaram sucessivos períodos de seca que reduziram a disponibilidade de pastagens e aumentaram os custos de manutenção dos animais.
Ao mesmo tempo, despesas com alimentação, combustível, mão de obra, suplementação e terras avançaram fortemente.
Diante desse cenário, muitos produtores optaram por reduzir seus rebanhos para preservar fluxo de caixa e rentabilidade.
Outro movimento que agravou o problema foi a redução do número de vacas reprodutoras. Embora essa decisão tenha ajudado a diminuir custos no curto prazo, ela comprometeu a capacidade futura de reposição de animais.
O mercado ainda observa um fator demográfico importante: parte significativa dos pecuaristas americanos está próxima da aposentadoria, reduzindo o interesse em investimentos de longo prazo para reconstrução dos rebanhos.
A consequência aparece diretamente no preço da carne.
Os bifes registraram alta de aproximadamente 17% em um ano, enquanto a carne moída avançou cerca de 19%, atingindo recordes históricos.
Para os restaurantes especializados em churrasco, a situação se tornou ainda mais delicada.
No Texas, considerado o coração da cultura do barbecue americano, cortes como o brisket tiveram fortes aumentos no atacado. Casas tradicionais passaram a reajustar cardápios para tentar absorver a escalada dos custos.
Alguns estabelecimentos reduziram margens de lucro. Outros passaram a estudar restrições de oferta para determinados cortes. Pequenos negócios especializados em churrasco foram os mais afetados pela combinação entre inflação, custos operacionais elevados e carne mais cara.
Enquanto isso, redes maiores conseguiram se adaptar ampliando a oferta de frango, carne suína e cortes bovinos mais acessíveis, capturando consumidores que passaram a buscar refeições com melhor relação custo-benefício.
Em meio à escassez de gado, uma preocupação sanitária voltou a ganhar força.
A mosca-varejeira do Novo Mundo é uma praga agrícola temida pelos pecuaristas porque suas larvas não se alimentam de matéria em decomposição, mas sim de tecido vivo dos animais.
As fêmeas depositam ovos em ferimentos. Quando as larvas nascem, elas penetram na carne e passam a consumir o tecido, provocando infecções severas, perda de peso, sofrimento animal e, em casos mais graves, morte.
A preocupação dos produtores não é exagerada.
Em 1976, durante o último grande surto registrado no Texas, a infestação atingiu quase 1,5 milhão de bovinos, o equivalente a aproximadamente 20% do rebanho do estado na época. Segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os prejuízos econômicos chegaram a cerca de US$ 330 milhões.
Hoje, especialistas alertam que um evento semelhante teria impacto ainda maior devido ao tamanho da cadeia pecuária e aos preços atuais do gado.
O temor aumentou nos últimos meses após o avanço da praga em território mexicano.
Mais de 200 casos ativos foram relatados recentemente no norte do México, incluindo registros a menos de 100 quilômetros da fronteira com o Texas.
Em outras regiões mexicanas, as autoridades contabilizam dezenas de milhares de ocorrências ao longo do último ano e meio.
A aproximação da praga levou o governo americano a reforçar medidas emergenciais para evitar sua entrada no país.
Entre as ações adotadas estão o fechamento temporário da fronteira sul para parte do comércio de gado, ampliação do monitoramento sanitário e novos protocolos de tratamento aprovados pelas autoridades de saúde animal.
Uma das principais armas dos Estados Unidos contra a mosca-varejeira é uma estratégia considerada referência mundial em controle biológico.
O método consiste na criação e liberação de centenas de milhões de moscas machos estéreis.
Como as fêmeas normalmente cruzam apenas uma vez durante a vida, o acasalamento com machos estéreis interrompe o ciclo reprodutivo da população selvagem, reduzindo gradualmente a infestação.
No Vale do Rio Grande, próximo à fronteira mexicana, o USDA concluiu recentemente uma nova instalação voltada para esse programa de contenção.
Mesmo antes da inauguração da estrutura, milhões de insetos estéreis já vinham sendo liberados ao longo da fronteira como forma de impedir que a praga avance em direção aos principais estados produtores.
Embora a ameaça sanitária gere preocupação, economistas avaliam que ela não é o principal fator por trás dos preços elevados da carne.
O maior problema continua sendo a falta de animais disponíveis.
A reconstrução de um rebanho bovino exige anos. Uma vaca retida hoje para reprodução só produzirá um bezerro que chegará ao mercado após um longo ciclo produtivo.
Por isso, o mercado trabalha com a perspectiva de oferta limitada também nos próximos anos.
Caso a mosca-varejeira avance para os Estados Unidos, o cenário poderá se tornar ainda mais complexo, combinando perdas sanitárias, aumento dos custos de produção, restrições comerciais e redução adicional da oferta de carne.
Para a pecuária brasileira, o cenário é acompanhado com atenção.
Os Estados Unidos seguem entre os maiores consumidores de carne bovina do mundo. Com menos animais disponíveis internamente, cresce a necessidade de importações e de complementação da oferta doméstica.
Isso pode abrir espaço adicional para exportadores internacionais, especialmente o Brasil, que já ocupa posição estratégica no comércio global de carne bovina.
Mais do que uma alta temporária nos preços, o que ocorre atualmente nos Estados Unidos sinaliza uma transformação estrutural da pecuária americana.
E enquanto o país tenta reconstruir seu rebanho e impedir o avanço de uma das pragas mais temidas da história da bovinocultura, uma conclusão já parece clara para produtores, frigoríficos e consumidores: o tradicional churrasco americano dificilmente voltará a ser barato no curto prazo.
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