• Terça-feira, 12 de maio de 2026

China pode recuar da salvaguarda após alta da carne bovina e casos de aftosa; EUA também entram no radar

Com preços recordes da carne bovina no mundo, casos de febre aftosa em países estratégicos e dificuldade de abastecimento global, mercado começa a enxergar mais chances de a China rever medidas que limitam importações brasileiras

A discussão sobre o futuro da salvaguarda chinesa para a carne bovina brasileira ganhou novos contornos nas últimas semanas. O que antes parecia um movimento firme de Pequim para conter o avanço das importações agora começa a enfrentar variáveis que podem mudar completamente o rumo do mercado internacional da proteína animal.

No programa Mercado Pecuário, da última quarta-feira (6), o analista de mercado da Scot Consultoria, Felipe Fabbri, avaliou que o cenário atual passou a favorecer mais o Brasil do que uma continuidade rígida das restrições impostas pela China. Segundo ele, fatores como a disparada histórica do preço da carne bovina no mercado internacional, relatos de febre aftosa em países estratégicos e o próprio desequilíbrio global de oferta e demanda podem pressionar os chineses a reverem sua política de salvaguarda.

A avaliação acontece em um momento em que a cadeia pecuária mundial enfrenta uma combinação rara de oferta apertada, estoques reduzidos e demanda aquecida, especialmente da Ásia.

“A pergunta de um milhão de dólares hoje é justamente essa: a China vai manter a salvaguarda ou vai recuar?”, comentou Fabbri durante a análise.

Casos de febre aftosa entram no radar e aumentam pressão sobre a China

Um dos principais fatores citados pelo analista foi o aumento dos relatos de febre aftosa dentro da China e também em países como a Rússia. Segundo ele, existe preocupação do mercado em relação à transparência das informações sanitárias divulgadas por esses países.

De acordo com Fabbri, as autoridades chinesas confirmaram oficialmente o abate de cerca de 6 mil animais em decorrência da doença, mas há dúvidas sobre o real tamanho da situação sanitária.

“A gente não sabe qual é o verdadeiro grau da febre aftosa por lá. Esses países historicamente deixam dúvidas sobre transparência sanitária. O número oficial pode não refletir o tamanho real do problema”, destacou.

Caso os surtos avancem, o impacto pode atingir diretamente a produção local chinesa, reduzindo ainda mais a disponibilidade interna de proteína bovina e forçando o país a ampliar as importações.

Esse cenário, na prática, enfraquece o argumento de restrição às compras externas justamente em um momento em que o abastecimento doméstico pode ficar mais pressionado.

Carne bovina atinge preços históricos no mercado mundial

Outro ponto considerado decisivo pelo mercado é o preço internacional da carne bovina. Segundo Fabbri, o produto vive atualmente o maior valor da história em dólar.

Hoje, a carne bovina negociada globalmente gira entre US$ 17 e US$ 18 por quilo, um patamar jamais registrado anteriormente.

A combinação entre menor oferta global, redução de rebanhos em grandes produtores e demanda aquecida fez com que a proteína bovina se tornasse uma das commodities alimentares mais valorizadas do planeta em 2026.

Nesse contexto, o Brasil ganha força por continuar sendo um dos poucos países capazes de ofertar grandes volumes com competitividade.

“Quem está comprando carne hoje precisa buscar parceiros com disponibilidade e preço competitivo. E o Brasil continua sendo esse fornecedor estratégico”, avaliou o analista da Scot.

Estados Unidos também pressionam mercado global

O cenário internacional ficou ainda mais aquecido após o governo dos Estados Unidos sinalizar flexibilização nas tarifas de importação de carne bovina para conter a inflação interna dos alimentos. A medida prevê redução temporária de tarifas e suspensão de cotas tarifárias para ampliar a entrada de carne no mercado norte-americano.

Segundo reportagem do The Wall Street Journal, os EUA enfrentam atualmente um dos menores rebanhos bovinos dos últimos 75 anos, fator que elevou fortemente os preços da carne no país. O próprio analista Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos, afirmou que os americanos “realmente precisam da nossa carne” diante da escalada dos preços internos.

Na prática, isso significa uma disputa ainda maior pela proteína bovina brasileira no mercado internacional.

Redistribuição de cotas pode favorecer exportadores brasileiros

Outro ponto levantado por Felipe Fabbri envolve as cotas internacionais de fornecimento para a China.

Segundo ele, mesmo que o Brasil desacelere parcialmente seus embarques em algum momento, outros parceiros do Mercosul — como Paraguai, Argentina e Uruguai — podem aumentar suas exportações para os chineses e, ao mesmo tempo, ampliar compras de carne brasileira.

Isso criaria um efeito de redirecionamento comercial, mantendo a proteína brasileira circulando de forma indireta para abastecer a demanda internacional.

Além disso, o analista lembrou que os Estados Unidos ainda não conseguiram preencher nem 10% da cota prevista para o mercado chinês.

Diante disso, o mercado começa a especular a possibilidade de a China redistribuir parte dessas cotas entre outros fornecedores, favorecendo países mais competitivos e com maior disponibilidade de carne, ou até mesmo de forma que a China pode recuar da salvaguarda.

Salvaguarda ainda gera incerteza, mas cenário favorece o Brasil

Apesar de ainda existir muita indefinição, o sentimento atual do mercado é que o cenário global começou a jogar mais a favor do Brasil.

A combinação entre:

  • preços internacionais recordes;
  • necessidade crescente de abastecimento;
  • redução de rebanhos globais;
  • casos sanitários em países estratégicos;
  • e dificuldade de outros fornecedores atenderem à demanda;
  • acabou reduzindo o espaço para uma postura extremamente rígida da China em relação às importações brasileiras.

    Para o mercado pecuário, a grande questão agora passa a ser entender até onde Pequim conseguirá sustentar a salvaguarda diante de um cenário internacional cada vez mais apertado.

    Enquanto isso, frigoríficos exportadores brasileiros seguem monitorando diariamente os movimentos chineses, principalmente em relação ao preenchimento das cotas, às tarifas extras e aos sinais políticos envolvendo o comércio global da carne bovina.

    O fato é que, neste momento, o Brasil continua ocupando uma posição estratégica no abastecimento mundial de proteína animal — e isso pode acabar pesando mais do que as restrições impostas pela país asiático nos últimos meses, de forma que a China pode recuar da salvaguarda.

    Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

    Por: Redação

    Artigos Relacionados: