A estrutura do mercado global de proteínas enfrenta o seu maior teste de estresse em décadas. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) detalhou, nesta semana, os pilares da investigação JBS e BRF (via National Beef), uma ofensiva que mira o cerne do poder das chamadas “Big Four”.
Ao lado das gigantes americanas Cargill e Tyson Foods, as empresas brasileiras são alvo de uma devassa que busca desmantelar o que o governo Trump classifica como um oligopólio predatório, capaz de manipular preços e asfixiar a base produtiva do país.
O colapso da concorrência: 85% do mercado em quatro mãosO pano de fundo da investigação JBS e BRF é uma concentração de mercado que desafia as leis de livre mercado tradicionais. Atualmente, esse quarteto controla 85% do processamento de carne bovina nos EUA. Para se ter uma ideia da velocidade dessa consolidação, dados do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) revelam que, em 1977, a fatia das quatro maiores era de apenas 25%.
Segundo o secretário de Justiça, Todd Blanche, essa estrutura permitiu que a indústria operasse de forma coordenada. O governo alega que o fechamento estratégico de plantas industriais não foi apenas uma decisão logística, mas uma tática para reduzir a oferta de abate, aumentando o poder de barganha das indústrias sobre os pecuaristas e elevando as margens sobre o consumidor final.
Algoritmos sob suspeita na investigação JBS e BRFUm dos pontos mais inovadores e graves da denúncia envolve o uso de inteligência de dados para alinhar preços. Peter Navarro, conselheiro especial para Comércio e Manufatura, apontou a plataforma Agri Stats como a “arma do crime”.
“As empresas enviavam dados granulares sobre cada etapa da produção e, em troca, recebiam o que o sistema calculava ser o ‘preço de monopólio’ ideal”, afirmou Navarro.
Essa troca de informações comercialmente sensíveis sugere que a investigação JBS e BRF não trata apenas de domínio de mercado, mas de uma orquestração tecnológica para eliminar a concorrência real.
Inflação, Guerra e o Menor Rebanho desde 1950A pressão política sobre as brasileiras não ocorre no vácuo. O governo Trump corre contra o tempo para conter a inflação de alimentos, exacerbada pelos impactos logísticos da guerra no Irã. Simultaneamente, a pecuária americana definha: o país registra hoje seu menor rebanho desde 1950, com 86,2 milhões de cabeças.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, foi enfática ao ligar a crise ao “alarmismo climático” e ao excesso de regulação da esquerda radical. “Perdemos 100 mil fazendas na última década. O ataque ao gado virou política de Estado no passado, e o resultado é a insegurança alimentar que vemos hoje”, disparou Rollins. A investigação JBS e BRF é, portanto, o braço jurídico do plano de Trump para descentralizar a indústria e retomar a soberania alimentar.
O Balanço Financeiro em JogoEnquanto o governo oferece recompensas de até 30% sobre multas milionárias para denunciantes internos, as empresas tentam se equilibrar entre o compliance e a crise financeira. A JBS reportou um Ebitda negativo de US$ 319 milhões em 2025, refletindo um cenário onde o custo do gado subiu mais rápido do que o preço da carne nas gôndolas.
Já a MBRF, que controla a National Beef, aposta na sua relação com a U.S. Premium Beef , uma associação de 700 produtores, para provar que seu modelo gera riqueza para o campo. Nos últimos 27 anos, a companhia distribuiu US$ 1,6 bilhão em dividendos aos seus parceiros locais.
A grande questão que o mercado se faz agora é se a descentralização prometida por Trump, focada em fortalecer frigoríficos regionais, será capaz de reduzir preços ou se apenas fragmentará uma cadeia que hoje sobrevive graças à economia de escala das gigantes.





