Os bancos brasileiros estão adotando uma postura mais cautelosa na concessão de crédito ao agronegócio. Segundo reportagem publicada pela Bloomberg, instituições financeiras passaram a exigir garantias mais robustas nos financiamentos rurais após enfrentarem dificuldades para recuperar recursos em meio ao avanço das recuperações judiciais no setor.
A mudança ocorre em um momento delicado para parte dos produtores rurais brasileiros. Depois de anos de expansão impulsionada pelos altos preços das commodities no período pós-pandemia, muitos agricultores enfrentam agora margens mais apertadas, queda na rentabilidade, valorização do real frente ao dólar e aumento do custo financeiro, fatores que pressionam a capacidade de pagamento das dívidas.
Recuperações judiciais bateram recorde no agroDe acordo com dados da Serasa Experian citados pela Bloomberg, o agronegócio registrou quase 2 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, um número mais de dez vezes superior ao observado em 2021.
O crescimento dos pedidos acendeu um alerta no sistema financeiro, principalmente porque muitos produtores recorreram ao mecanismo judicial para evitar a execução de propriedades rurais e outros bens oferecidos como garantia nos financiamentos.
Diante desse cenário, os bancos passaram a priorizar modalidades de garantia que possam ser executadas mesmo durante processos de recuperação judicial, reduzindo a exposição ao risco de inadimplência.
Banco do Brasil sente impacto da crise no campoA Bloomberg destaca que o Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio nacional, já vem adotando essa nova estratégia nos financiamentos da atual safra.
Segundo a reportagem, os novos contratos com garantias reforçadas responderam pela maior parte do crédito liberado pela instituição desde meados de 2025. Ainda assim, o volume de novas operações representou apenas cerca de um terço do valor que o banco esperava receber em pagamentos do crédito rural durante o mês de maio.
O impacto da inadimplência também apareceu nos resultados financeiros da instituição. O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) do Banco do Brasil caiu para 7,3% no primeiro trimestre, o menor patamar em uma década, pressionado principalmente pelos custos relacionados ao crédito agropecuário.
Durante teleconferência com analistas, o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos do banco, Felipe Prince, reconheceu que a recuperação dos recursos emprestados ficou abaixo das expectativas da instituição.
Caixa também reforça exigênciasOutra instituição que vem endurecendo as regras para o setor é a Caixa Econômica Federal.
Segundo a Bloomberg, o banco estatal tem priorizado operações com alienação fiduciária sempre que possível e aprimorado sua estrutura de garantias. A estratégia foi adotada após a inadimplência da carteira agropecuária saltar para 18,3% no primeiro trimestre, um avanço de 14 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.
A carteira rural da Caixa soma R$ 64,9 bilhões e representa cerca de 2,2% do total de crédito da instituição. O banco afirma buscar uma exposição equilibrada ao setor, com foco na sustentabilidade das operações.
Bancos privados também aumentam provisõesO movimento não se restringe aos bancos públicos.
A reportagem da Bloomberg informa que o Bradesco, maior banco privado financiador do agronegócio brasileiro, atribuiu parte do aumento de 27% nas provisões para perdas com crédito justamente a operações rurais concedidas em anos anteriores.
O cenário reforça a preocupação crescente do sistema financeiro com a capacidade de pagamento de produtores que ampliaram investimentos em máquinas, equipamentos e expansão de área durante o ciclo de preços elevados das commodities.
Juros altos e queda das margens pressionam produtoresApesar dos desafios, o agronegócio continua sendo um dos pilares da economia brasileira.
Segundo dados citados pela Bloomberg, as exportações do setor alcançaram US$ 169,2 bilhões em 2025, alta de 3% sobre o ano anterior. O agro respondeu por quase metade de todas as exportações brasileiras, consolidando sua importância para a geração de divisas e para a balança comercial do país.
Entretanto, o setor vem sofrendo com a combinação de custos financeiros elevados e preços menos favoráveis para diversas commodities.
Para o pesquisador da FGV Agro, Felippe Serigati, ouvido pela Bloomberg, a compressão das margens tornou muitos produtores mais vulneráveis. Segundo ele, quando ocorre uma quebra de safra ou qualquer problema de produção, as dificuldades financeiras tendem a se agravar rapidamente, criando um efeito de “bola de neve” sobre as dívidas.
Congresso discute soluções para aliviar endividamentoEm paralelo ao aperto do crédito, o Congresso Nacional analisa propostas para ampliar as alternativas de renegociação de dívidas rurais.
Um dos projetos em discussão permitiria alongar prazos de pagamento de operações contratadas até o fim de 2025, com taxas de juros subsidiadas entre 3,5% e 7,5%. A proposta ainda está em negociação entre parlamentares e a equipe econômica do governo federal.
Outra frente de debate envolve a modernização do seguro rural, permitindo que apólices sejam utilizadas como garantia em operações de crédito. A expectativa é que a medida reduza o risco para os bancos e, consequentemente, contribua para diminuir o custo do financiamento para os produtores.
Crédito rural mais seletivo deve marcar as próximas safrasO avanço das recuperações judiciais, o aumento da inadimplência e a necessidade de preservar a saúde financeira das instituições indicam que o crédito rural deverá continuar mais seletivo nos próximos ciclos agrícolas.
Para os produtores, o cenário reforça a importância de planejamento financeiro, gestão de riscos e construção de estruturas de garantia capazes de facilitar o acesso aos recursos necessários para custear a produção, especialmente em um momento em que juros, clima e mercado internacional seguem adicionando incertezas ao setor.
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