• Segunda-feira, 1 de junho de 2026

Bancos endurecem crédito rural e exigem mais garantias após onda de recuperações judiciais

Instituições financeiras passaram a adotar estruturas de garantia mais rígidas para liberar financiamentos, em meio ao aumento da inadimplência e ao crescimento recorde dos pedidos de recuperações judiciais por produtores rurais.

Os bancos brasileiros estão adotando uma postura mais cautelosa na concessão de crédito ao agronegócio. Segundo reportagem publicada pela Bloomberg, instituições financeiras passaram a exigir garantias mais robustas nos financiamentos rurais após enfrentarem dificuldades para recuperar recursos em meio ao avanço das recuperações judiciais no setor.

A mudança ocorre em um momento delicado para parte dos produtores rurais brasileiros. Depois de anos de expansão impulsionada pelos altos preços das commodities no período pós-pandemia, muitos agricultores enfrentam agora margens mais apertadas, queda na rentabilidade, valorização do real frente ao dólar e aumento do custo financeiro, fatores que pressionam a capacidade de pagamento das dívidas.

Recuperações judiciais bateram recorde no agro

De acordo com dados da Serasa Experian citados pela Bloomberg, o agronegócio registrou quase 2 mil pedidos de recuperação judicial em 2025, um número mais de dez vezes superior ao observado em 2021.

O crescimento dos pedidos acendeu um alerta no sistema financeiro, principalmente porque muitos produtores recorreram ao mecanismo judicial para evitar a execução de propriedades rurais e outros bens oferecidos como garantia nos financiamentos.

Diante desse cenário, os bancos passaram a priorizar modalidades de garantia que possam ser executadas mesmo durante processos de recuperação judicial, reduzindo a exposição ao risco de inadimplência.

Banco do Brasil sente impacto da crise no campo

A Bloomberg destaca que o Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio nacional, já vem adotando essa nova estratégia nos financiamentos da atual safra.

Segundo a reportagem, os novos contratos com garantias reforçadas responderam pela maior parte do crédito liberado pela instituição desde meados de 2025. Ainda assim, o volume de novas operações representou apenas cerca de um terço do valor que o banco esperava receber em pagamentos do crédito rural durante o mês de maio.

O impacto da inadimplência também apareceu nos resultados financeiros da instituição. O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) do Banco do Brasil caiu para 7,3% no primeiro trimestre, o menor patamar em uma década, pressionado principalmente pelos custos relacionados ao crédito agropecuário.

Durante teleconferência com analistas, o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos do banco, Felipe Prince, reconheceu que a recuperação dos recursos emprestados ficou abaixo das expectativas da instituição.

Caixa também reforça exigências

Outra instituição que vem endurecendo as regras para o setor é a Caixa Econômica Federal.

Segundo a Bloomberg, o banco estatal tem priorizado operações com alienação fiduciária sempre que possível e aprimorado sua estrutura de garantias. A estratégia foi adotada após a inadimplência da carteira agropecuária saltar para 18,3% no primeiro trimestre, um avanço de 14 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior.

A carteira rural da Caixa soma R$ 64,9 bilhões e representa cerca de 2,2% do total de crédito da instituição. O banco afirma buscar uma exposição equilibrada ao setor, com foco na sustentabilidade das operações.

Bancos privados também aumentam provisões

O movimento não se restringe aos bancos públicos.

A reportagem da Bloomberg informa que o Bradesco, maior banco privado financiador do agronegócio brasileiro, atribuiu parte do aumento de 27% nas provisões para perdas com crédito justamente a operações rurais concedidas em anos anteriores.

O cenário reforça a preocupação crescente do sistema financeiro com a capacidade de pagamento de produtores que ampliaram investimentos em máquinas, equipamentos e expansão de área durante o ciclo de preços elevados das commodities.

Juros altos e queda das margens pressionam produtores

Apesar dos desafios, o agronegócio continua sendo um dos pilares da economia brasileira.

Segundo dados citados pela Bloomberg, as exportações do setor alcançaram US$ 169,2 bilhões em 2025, alta de 3% sobre o ano anterior. O agro respondeu por quase metade de todas as exportações brasileiras, consolidando sua importância para a geração de divisas e para a balança comercial do país.

Entretanto, o setor vem sofrendo com a combinação de custos financeiros elevados e preços menos favoráveis para diversas commodities.

Para o pesquisador da FGV Agro, Felippe Serigati, ouvido pela Bloomberg, a compressão das margens tornou muitos produtores mais vulneráveis. Segundo ele, quando ocorre uma quebra de safra ou qualquer problema de produção, as dificuldades financeiras tendem a se agravar rapidamente, criando um efeito de “bola de neve” sobre as dívidas.

Congresso discute soluções para aliviar endividamento

Em paralelo ao aperto do crédito, o Congresso Nacional analisa propostas para ampliar as alternativas de renegociação de dívidas rurais.

Um dos projetos em discussão permitiria alongar prazos de pagamento de operações contratadas até o fim de 2025, com taxas de juros subsidiadas entre 3,5% e 7,5%. A proposta ainda está em negociação entre parlamentares e a equipe econômica do governo federal.

Outra frente de debate envolve a modernização do seguro rural, permitindo que apólices sejam utilizadas como garantia em operações de crédito. A expectativa é que a medida reduza o risco para os bancos e, consequentemente, contribua para diminuir o custo do financiamento para os produtores.

Crédito rural mais seletivo deve marcar as próximas safras

O avanço das recuperações judiciais, o aumento da inadimplência e a necessidade de preservar a saúde financeira das instituições indicam que o crédito rural deverá continuar mais seletivo nos próximos ciclos agrícolas.

Para os produtores, o cenário reforça a importância de planejamento financeiro, gestão de riscos e construção de estruturas de garantia capazes de facilitar o acesso aos recursos necessários para custear a produção, especialmente em um momento em que juros, clima e mercado internacional seguem adicionando incertezas ao setor.

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Por: Redação

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