• Sábado, 31 de janeiro de 2026

Usuários veem chatbots de notícia como imparciais, diz estudo

Entrevistados nos EUA e na Índia dizem confiar nos chatbots, apesar de erros factuais e de informações desatualizadas.

*Por Andrew Deck

Os chatbots já são uma fonte de notícias em rápida expansão. 7% dos entrevistados nos Estados Unidos usam chatbots para se informar sobre notícias toda semana, segundo um relatório divulgado no último verão pelo RISJ (Reuters Institute for the Study of Journalism). Na Índia, esse percentual salta para quase 20%.

À medida que o uso de chatbots com inteligência artificial continua a crescer, há um potencial real de que esses produtos se tornem parte fixa da forma como muitas pessoas descobrem e consomem notícias –e, nesse processo, desestabilizam o tráfego tradicional de busca. Até agora, porém, pouco se sabe sobre quem são as pessoas que já recorreram ao ChatGPT para acompanhar as manchetes.

Um novo relatório do CNTI (Center for News, Technology & Innovation) aprofunda esse debate ao analisar os hábitos de consumo de notícias desses usuários. O CNTI entrevistou 53 participantes nos Estados Unidos e na Índia, os 2 maiores mercados do ChatGPT, que também apresentaram adoção precoce de outros produtos de chatbot.

O CNTI recrutou apenas entrevistados que utilizam chatbots de IA ao menos 1 vez por semana e que afirmaram “se manter informados sobre os temas e acontecimentos do dia” com algum grau de regularidade. Entre eles, os produtos mais populares foram o ChatGPT, o Copilot da Microsoft e as ferramentas de IA do Google, incluindo o Gemini e o AI Mode na busca.

Embora exista pesquisa de opinião útil sobre chatbots, para a maioria das pessoas a distinção entre “obter notícias” por meio de chatbots e “buscar informações” é, no mínimo, nebulosa. Isso torna especialmente difícil o autorrelato sobre o uso desses sistemas. Neste estudo, porém, os pesquisadores pediram que os participantes não apenas descrevessem seu uso em detalhes, mas também demonstrassem casos específicos e percorressem seus históricos de conversa.

Muitas das pessoas que entrevistamos não necessariamente viam o que estavam fazendo como ‘consumo de notícias’, mesmo quando o resultado citava dezenas de reportagens jornalísticas”, afirmou Jay Barchas-Lichtenstein, gerente sênior de pesquisa do CNTI e um dos coautores do relatório. “Você não consegue elaborar uma boa pergunta de pesquisa até ter razoável certeza de quais são os comportamentos e de como as pessoas falam sobre eles.

O estudo constatou que, no momento, mesmo usuários frequentes de chatbots não dependem exclusivamente deles para se informar. A maioria dos entrevistados continuava a acessar fontes jornalísticas tradicionais, usando os chatbots como complemento a esses hábitos. Um entrevistado nos EUA, fiel ao ChatGPT, segue usando o Google News como principal agregador de notícias e também mantém assinaturas do The New York Times e de 2 veículos locais de sua cidade natal.

A pesquisa também mostrou que entrevistados nos Estados Unidos e na Índia raramente utilizavam chatbots como um simples resumo diário de notícias. Embora 6 participantes na Índia tenham solicitado aos chatbots, de forma ampla, as “principais manchetes”, apenas um entrevistado nos EUA disse perguntar regularmente a um chatbot sobre as “últimas manchetes no [seu CEP]”. Em vez disso, os entrevistados tendiam a recorrer aos chatbots para buscar informações “que orientassem suas escolhas e ações”.

Isso incluía, por exemplo, dados para realizar investimentos financeiros, comprar produtos de consumo, planejar viagens ou lidar com a burocracia governamental.

Nos Estados Unidos, alguns entrevistados perguntaram aos chatbots como poderiam reagir da melhor forma ao recente shutdown do governo federal e como mudanças em tarifas afetariam suas atividades profissionais. Uma pessoa pediu ao chatbot que dissesse em quem votar em uma eleição. Outra alternou entre ChatGPT, Gemini e sites de escritórios de advocacia vinculados para “entender melhor seus direitos quando agentes do ICE estão atuando em sua região”.

Enquanto usuários nos EUA tendiam a pedir informações para embasar suas próprias previsões, na Índia os usuários eram mais propensos a solicitar que os chatbots fizessem previsões diretamente por eles. Houve pedidos para prever preços do Bitcoin e mapas astrológicos. Um entrevistado indiano solicitou ao chatbot uma “análise preditiva de setores da bolsa” com base em relatórios trimestrais de resultados — isso apesar de admitir que já havia perdido dinheiro anteriormente ao seguir conselhos de investimento fornecidos por chatbots.

De forma geral, os pesquisadores compararam esse uso de chatbots ao chamado “jornalismo de serviço” –aquele voltado a oferecer informações práticas e acionáveis para ajudar o público a tomar decisões. Nos 2 países, os chatbots mostraram-se menos eficazes para manter as pessoas conectadas às últimas notícias de última hora e mais úteis para orientar ações concretas.

Uma das descobertas mais interessantes do relatório foi o alto grau de confiança que os entrevistados depositam nos chatbots. Mesmo quando relatavam erros factuais recorrentes e reclamavam da incapacidade dessas ferramentas de fornecer informações atualizadas, os entrevistados tendiam a perdoar rapidamente os chatbots e a continuar usando-os para se manter informados. Por mais respostas erradas que tivessem recebido, essas falhas não eram consideradas decisivas para abandoná-los. Isso contrasta fortemente com a desconfiança generalizada que demonstraram em relação à mídia tradicional.

Os entrevistados disseram ao CNTI que se preocupam com o viés político das fontes jornalísticas tradicionais nos Estados Unidos. Na Índia, falaram sobre sensacionalismo e o alinhamento da mídia a interesses corporativos. No Digital News Report do RISJ do ano passado, 43% dos entrevistados na Índia afirmaram confiar, de modo geral, nas notícias. Nos Estados Unidos, apenas 30% disseram o mesmo.

Em comparação, os chatbots foram frequentemente descritos pelos entrevistados como uma fonte “neutra” de informação –equilibrada e sem opinião. Raramente discutiam viés algorítmico ou reconheciam que veículos jornalísticos eram frequentemente citados nas respostas dos chatbots. Muitos, inclusive, viam a simples presença de citações e fontes como “uma garantia de precisão”. No entanto, os pesquisadores observaram que quase nunca os usuários clicavam nessas fontes para verificar se estavam sendo representadas corretamente. Um entrevistado nos EUA disse que “sempre dá para conferir, se quiser”, mas contou aos pesquisadores que nunca sentiu necessidade de fazê-lo.

Como descreveu um entrevistado nos Estados Unidos, os chatbots de IA funcionam como uma lógica “80/20”. “Eles me entregam 80% da informação com 20% do esforço, mas você precisa ter cuidado ao confiar totalmente nesses 80%, porque sempre falta uns 20%”, afirmou.

Na visão de Barchas-Lichtenstein, usuários como esse parecem “ter atitudes mais positivas em parte porque esperam algo ‘bom o suficiente’, e não perfeito”.

Outro fator indicado pelo estudo é a sensação de colaboração que os entrevistados sentem ao conversar com chatbots, em diálogos que eles próprios moldam por meio de comandos e perguntas. Os chatbots respondem, e os usuários se sentem parceiros na busca por informação. “Os entrevistados repreendem suavemente o chatbot de IA para que modifique, esclareça ou corrija a resposta”, escrevem os pesquisadores. “A interatividade parece permitir segundas chances, algo que os entrevistados não concedem a textos fixos.

Essa capacidade de resposta também dá aos usuários uma sensação de “poder de decisão”, segundo os pesquisadores. “O ambiente informacional é, francamente, esmagador. De modo geral, estamos vendo que as pessoas sentem que precisam fazer um trabalho enorme para determinar quais fontes de informação são confiáveis”, disse Barchas-Lichtenstein. “As pessoas querem ajuda para fazer esses julgamentos, mas não querem que alguém decida por elas — é disso que estamos falando quando falamos em poder de decisão.

Em outras palavras, o que os chatbots perdem em precisão, esses usuários compensam com uma sensação de controle.

*Andrew Deck é repórter do Nieman Lab.

Texto traduzido por Davi Madorra. Leia o original em inglês. 

O Poder360 tem uma parceria com 2 divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.

Por: Poder360

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