O ministro do STF, Gilmar Mendes, impediu a CPI do Crime Organizado de quebrar o sigilo do fundo de investimentos Arleen. Em 2021, o Arleen adquiriu a participação da empresa Maridt no resort Tayayá, no interior do Paraná. A Maridt pertence à família do ministro Dias Toffoli.
O decano do Supremo atendeu a um pedido dos advogados na decisão desta 5ª feira (19.mar.2026) e citou a decisão do ministro Flávio Dino que suspendeu quebras de sigilo aprovadas em bloco pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS.
“Não se pode perder de perspectiva que a quebra de sigilo não constitui ato ordinário de investigação, mas medida de caráter excepcional. Por isso se mostra necessária a observância dos requisitos mínimos inerentes à fundamentação a respeito de atos que repercutem de forma direta e com tamanha gravidade sobre direitos fundamentais”, escreveu Gilmar. Eis a íntegra (PDF – 160 kB) da decisão.
A CPI do Crime Organizado aprovou na 4ª feira (18.mar) em votação simbólica a quebra dos sigilos bancário e fiscal do Arleen. O período investigado vai de fevereiro de 2021 a janeiro de 2026. O requerimento foi de autoria do senador Sergio Moro (União Brasil-PR). Os congressistas analisaram o pedido em bloco, quando avaliam diversos requerimentos simultaneamente.
O ministro descreveu a forma da votação em sua decisão e citou uma intervenção do senador Marcos Rogério (PL-RO) da “necessidade de maior cautela no exame de quebras de sigilo, com votação individualizada”. Segundo Gilmar, “parece evidente que os próprios integrantes da CPI tinham ciência a respeito da possibilidade de anulação de seus atos e, mesmo assim, decidiram prosseguir com a votação simbólica, sem discussão sobre os pressupostos da medida investigativa.”
Na época da compra da empresa Maridt, o fundo Arleen tinha como o fundo Leal, que pertencia ao empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Master. A gestão do Arleen era feita pela Reag, gestora de investimentos liquidada pelo Banco Central. A Reag está sob investigação da CPI.
Gilmar Mendes já havia suspendido as quebras de sigilo da Maridt, também determinadas pela CPI do Crime Organizado. Em 27 de fevereiro, o ministro decidiu que a medida foi aprovada “em manifesto e incontornável descumprimento dos limites” do objeto da CPI. Segundo Gilmar, a justificativa para a “providência invasiva” era “destituída de idoneidade por completa e absoluta ausência de fundamentação válida”.
O decano também declarou que a quebra do sigilo pela CPI não apresentou uma causa provável com falta de uma fundamentação concreta e sem provas que justifiquem a apuração. “Ao que parece, a jurisprudência sobre os poderes de investigação das CPls não evoluiu no mesmo compasso da evolução da tecnologia. O presente caso é um retrato sem filtro desse tipo de situação, a demandar cautela e rigor técnico“, afirmou. Leia a íntegra (PDF – 221 kB).
O ministro Dias Toffoli relatou o caso no Supremo até 12 de fevereiro de 2026, em 3 meses repletos de embates com a PF.
O ministro André Mendonça o sucedeu depois da reunião interna do colegiado.
Até então, a relatoria de Toffoli vinha sendo criticada por causa do resort Tayayá, hotel de luxo no interior do Paraná, que teve como acionistas os irmãos e um primo do ministro Dias Toffoli. O empreendimento passou a ser controlado no final de 2025 por Paulo Humberto Costa.
Reportagens dos jornalistas Paulo Ricardo Martins e Lucas Marchesini mostraram que o ministro continuou visitando os irmãos no local, mesmo depois da venda do controle para Costa. A maioria das viagens ao resort foi durante o recesso do Judiciário, nos meses de janeiro, julho ou dezembro. No resort há também um condomínio de casas e Toffoli é dono de uma unidade.
O Tayayá fica no norte do Paraná e a cerca de 130 km de Marília, que é a cidade natal de Toffoli.
Há ainda outra menção no noticiário a respeito do caso Master e que faz ligação com a família Toffoli e o resort. Segundo os jornalistas Pedro Augusto Figueiredo, Jenne Andrade e Luiz Vassallo, o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, é dono de um dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos do ministro no Tayayá. Zettel adquiriu a cota por R$ 6,6 milhões e depois usou o fundo para aportar mais R$ 20 milhões no empreendimento.
Preso preventivamente em 14 de janeiro, Fabiano Zettel se tornou um dos nomes centrais da 2ª fase da operação Compliance Zero, que mirou o Master.
Casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel, Zettel transita entre o mercado financeiro e a liderança religiosa na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.
Zettel foi detido por ordem de Dias Toffoli, numa operação em que a Polícia Federal quase deixou o empresário escapar, como relatou o Poder360. O episódio em que a PF demonstrou lentidão para cumprir as ordens de busca e apreensão só acabou sendo bem-sucedido porque Toffoli tomou as providências para garantir a prisão de Zettel –algo que tem recebido pouco ou nenhum destaque no noticiário a respeito do caso do Banco Master.
Em nota publicada em 22 de janeiro, José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro, afirmou que a Maridt Participações não faz mais parte do resort Tayayá.
A sede da empresa de José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli chegou a ter ⅓ de participação no resort de luxo em Ribeirão Claro, no interior do Paraná.
Em nota, José Eugênio disse que a participação da Maridt no empreendimento foi vendida em duas operações distintas: a 1ª para o Grupo Arleen, em 27 de setembro de 2021, e a 2ª para a PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025. Segundo o irmão de Toffoli, todas as informações da venda foram declaradas à Receita Federal.
Na 1ª etapa da operação, realizada em 2021, os irmãos de Toffoli se desfizeram, por intermédio da Maridt, de parte das cotas que tinham no resort.
O fundo Arleen, que comprou a participação por mais de R$ 3 milhões, é controlado pela Reag, administradora de investimentos ligada ao Banco Master, que foi alvo da operação Carbono Oculto em agosto de 2025. A distribuidora é suspeita de ter ligação com esquemas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis que envolviam a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e outras empresas financeiras.
A companhia também é citada nas investigações que envolvem o Banco Master. Segundo relatório do BC repassado ao TCU (Tribunal de Contas da União), fundos administrados pela Reag estruturaram as operações fraudulentas com a instituição financeira em 2023 e 2024. A operação de venda feita pelos irmãos de Toffoli, entretanto, foi em 2021, quando não havia suspeita sobre como operava a Reag.
Leia a íntegra da nota divulgada por José Eugênio Dias Toffoli:
“A Maridt, empresa com sede em Marília/SP, esclarece que não integra atualmente o Grupo Tayayá, sediado em Ribeirão Claro, Estado do Paraná. A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de parte da participação ao Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025.
“Todos os atos e informações financeiras da Maridt estão devidamente declarados à Receita Federal do Brasil, conforme exigido pela legislação.
Marília, 22 de janeiro de 2026.
JOSÉ EUGÊNIO DIAS TOFFOLI
Administrador”





