• Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Dr. Peyo: o cavalo que trocou as arenas para confortar pacientes terminais

De ex-campeão das artes equestres a Dr. Peyo, o garanhão francês desafia a ciência e devolve dignidade aos últimos momentos da vida humana.

De ex-campeão das artes equestres a Dr. Peyo, o garanhão francês desafia a ciência e devolve dignidade aos últimos momentos da vida humana. Num canto discreto do norte da França, longe das luzes dos espetáculos equestres, um terapeuta improvável percorre corredores hospitalares com passos calmos e atentos. Sobre quatro cascos, Dr. Peyo, um garanhão de 15 anos, tornou-se símbolo de acolhimento, empatia e humanidade no Hospital de Calais. Ali, em alas de cuidados paliativos e oncologia, ele oferece algo que muitas vezes falta nos momentos finais: presença, silêncio e conforto genuíno. Antes de vestir a manta hospitalar, Peyo foi um cavalo de destaque em apresentações equestres por toda a França. Contudo, seu destino começou a mudar longe dos aplausos. Após cada espetáculo, o treinador e dono Hassen Bouchakour notava um comportamento recorrente e incomum: o garanhão ignorava o palco e aproximava-se espontaneamente de pessoas da plateia que aparentavam fragilidade física, emocional ou psicológica. Ali permanecia, quieto, atento — como se compreendesse uma dor invisível.
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    Intrigado, Bouchakour iniciou uma longa investigação com veterinários e especialistas em neurologia, psicologia e psiquiatria. Foram quatro anos de observações e testes com mais de 500 cavalos, incluindo descendentes de Peyo. A conclusão surpreendeu: a atividade cerebral do garanhão apresentava padrões raros, distintos dos demais animais avaliados. A ciência ainda não explica totalmente o fenômeno, mas uma constatação se impôs — Peyo detecta sofrimento humano com precisão incomum. window._taboola = window._taboola || []; _taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Em 2016, Bouchakour tomou uma decisão radical: abandonou a carreira competitiva para seguir a vocação do cavalo. Juntos, passaram a visitar hospitais. Diferentemente de animais de terapia treinados para responder a comandos, Peyo age exclusivamente por instinto. No Hospital de Calais, ele circula livremente e escolhe quem visitar. Seu sinal é claro: para diante de um quarto e levanta a pata dianteira, indicando que alguém ali precisa dele.
    Foto: premioluisvaltuena
    Em muitos casos, Peyo entra nos quartos de pacientes gravemente enfermos — pessoas à beira da morte. Deita-se com cuidado ao lado das camas, permite o toque em sua crina espessa e oferece o calor do próprio corpo. As reações são profundas: pacientes que não falavam há dias encontram palavras, outros sorriem, choram ou simplesmente se acalmam. Nada é improvisado. Higiene e protocolos sanitários são rigorosos. Diariamente, Bouchakour dedica quase duas horas aos cuidados do garanhão: escovação completa, limpeza dos cascos, aplicação de loção antibacteriana, tranças na crina e, por fim, a manta hospitalar exclusiva. Só então Peyo está pronto para circular — no próprio ritmo, por escolha própria. Os efeitos surpreendem equipes médicas. Pacientes com ansiedade severa se acalmam, outros recuperam a disposição para caminhar. Há relatos de idosos que se preparam com antecedência, indo ao cabeleireiro na véspera, apenas para receber a visita do “doutor”. Para mais de mil pacientes terminais, Peyo foi mais do que um visitante. Foi companhia na travessia final. Um dos casos mais marcantes lembrados por Bouchakour é o de Daniel, 67 anos, ex-cavaleiro e paciente oncológico em estágio terminal. A conexão foi imediata. Quando Daniel faleceu, a família pediu que Peyo acompanhasse o cortejo fúnebre, caminhando ao lado do caixão — um gesto raro, carregado de significado.
    Foto: premioluisvaltuena
    Antigamente, as pessoas morriam em casa. Hoje, muitas partem sozinhas em quartos estéreis”, reflete Bouchakour. “Perdemos a suavidade da morte. Peyo devolve um pouco dessa dignidade.” Estudos continuam. Pesquisadores investigam a capacidade de Peyo de detectar cânceres e tumores em humanos, além de compreender por que ele escolhe acompanhar certos pacientes até o último suspiro. Alguns chamam de intuição; outros, de algo próximo ao inexplicável. Para a equipe do hospital, o rótulo é secundário. “ Pacientes que não conseguiam falar voltam a se expressar. Alguns encontram paz pela última vez”, relatou uma enfermeira local ao Uplifting Today. Reportagens do The Guardian também destacaram o impacto humano do trabalho. Peyo não é um cavalo dócil no sentido convencional. Tem temperamento forte, até difícil. Não busca carinho indiscriminado. Mas, quando escolhe alguém vulnerável, transforma-se: torna-se gentil, protetor, presente. Especialistas descrevem seu perfil neurológico como único; há quem o chame de “autista”, com inteligência acima do observado na espécie — uma afirmação que segue sendo estudada.
    Foto: premioluisvaltuena
    Ao deixar os holofotes e ingressar no ambiente hospitalar, Hassen Bouchakour e Dr. Peyo trocaram fama por propósito. Hoje, nos corredores silenciosos de Calais, o garanhão escreve, sem palavras, algumas das mais profundas lições sobre empatia, cuidado e humanidade. Peyo segue ativo em sua missão por meio da Les Sabots du Coeur. Mesmo já idoso — com cerca de 21 anos em 2026, segundo registros que indicam 15 anos entre 2020 e 2021 —, o garanhão continua visitando hospitais em diferentes regiões da França. Sua atuação o consolidou como um dos animais de terapia mais reconhecidos e respeitados do mundo, tanto pela comunidade médica quanto por familiares de pacientes. Em uma sociedade que frequentemente evita falar sobre a morte, o Dr. Peyo oferece uma lição silenciosa e profunda: é possível encarar o fim da vida com serenidade, dignidade e humanidade — com o conforto de uma presença amiga ao lado.
    Por: Redação

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