Em um movimento estratégico para consolidar a transição ecológica e reduzir os custos de produção no campo, a prefeitura de Goianá, na Zona da Mata mineira, inaugurou na última sexta-feira (22) a sua primeira Biofábrica de Insetos para Controle Biológico. Instalada no Centro de Apoio à Agricultura e Produção Agrícola Rural, a unidade foca no manejo natural de pragas e promete transformar a logística de insumos biológicos para os agricultores familiares da região.
O projeto é fruto de uma articulação que envolve a Prefeitura Municipal, a Embrapa Milho e Sorgo, a Emater-MG, o Grupo de Estudos da Agricultura Familiar da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que viabilizou a cessão da área para o município.
Até então, o acesso a insumos biológicos, como as microvespas do gênero Trichogramma — utilizadas para o combate natural de lagartas que atacam lavouras de milho e hortaliças —, dependia do envio de laboratórios distantes por meio dos Correios.
"Qualquer atraso na entrega colocava em risco a lavoura. Agora, com a produção local, os agricultores ganham autonomia, reduzindo os custos de produção e diminuindo a dependência de inseticidas", explicou Vinícius Guimarães, chefe-geral da Embrapa Milho e Sorgo.
A produção regionalizada resolve o componente de perecibilidade desses inimigos naturais, garantindo que o produtor possa aplicar o controle biológico no momento exato da incidência das pragas na lavoura.
A implantação da biofábrica coroa o trabalho de um grupo histórico de cientistas e extensionistas da pesquisa pública brasileira. Lideranças locais apontam o pesquisador Ivan Cruz e o engenheiro agrônomo Luciano Cordoval de Barros (ambos recém-aposentados) como os grandes "esteios" do projeto, fundamentais na conexão entre a teoria científica e a prática no campo.
O suporte técnico essencial também contou com os especialistas Walter Matrangolo, Ivênio Rubens de Oliveira e Sinval Resende Lopes, além da cooperação interunidades da Embrapa, integrando os pesquisadores Fernanda Samarini e Marcos Vinícius Gualberto (Embrapa Gado de Leite), Alessandra de Carvalho Silva (Embrapa Agrobiologia) e João Paulo Guimarães Soares (Embrapa Cerrados).
A estratégia da biofábrica atua em sinergia com o Projeto Crioulo, liderado na região pelo produtor Lucas Sousa, que trabalha diretamente na preservação de sementes tradicionais e no fortalecimento da identidade agrícola do território.
Segundo Filipe Russo, secretário de Agricultura, Pecuária, Meio Ambiente e Segurança Alimentar de Goianá, a estrutura representa um marco que nasceu da demanda da própria base de produtores e extensionistas. O sucesso do modelo na Zona da Mata já desenha novos desdobramentos: a experiência e a tecnologia testadas em Goianá devem ser expandidas em breve para o município de Porteirinha, no Norte de Minas Gerais.
Com a biofábrica em operação, o município — que tem na pecuária leiteira uma de suas principais forças econômicas — projeta a Zona da Mata como referência em sustentabilidade para o agronegócio familiar, unindo preservação ambiental, viabilidade econômica e independência química para quem produz.





