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A arroba do boi vai chegar a R$ 1.000 — e isso é um péssimo sinal para o Brasil; vídeo
Preço nominal recorde não significa ganho real: a escalada da arroba reflete a perda de valor do dinheiro, aperta margens e exige cada vez mais eficiência do produtor rural.
Preço nominal recorde não significa ganho real: a escalada da arroba reflete a perda de valor do dinheiro, aperta margens e exige cada vez mais eficiência do produtor rural. A trajetória histórica do preço da arroba do boi gordo no Brasil costuma ser usada como argumento para sustentar a tese de que a pecuária atravessa um longo ciclo de valorização. No entanto, uma análise mais profunda dos dados revela que essa leitura é, no mínimo, enganosa. Segundo avaliação do engenheiro agrônomo formado pela Esalq/USP, João Pedro Ventorin, o avanço nominal da arroba ao longo das últimas décadas não representa, necessariamente, ganho real para o produtor — e pode, na verdade, indicar o oposto. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp Com base em dados do Cepea desde 1997, o preço da arroba saltou de aproximadamente R$ 26 para algo próximo de R$ 300 em 2026. À primeira vista, trata-se de uma valorização superior a 1.000%, número que impressiona e frequentemente é citado como prova da força da pecuária brasileira. Contudo, ao corrigir essa série histórica pela inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice de preços ao consumidor), o cenário muda de forma significativa. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});“ Quando os valores são trazidos para termos reais, a valorização da arroba cai para algo em torno de 100% em quase 30 anos”, explica Ventorin. Esse desempenho, segundo ele, é muito semelhante ao comportamento da arroba quando convertida para o dólar, o que indica que o ganho real do boi gordo foi limitado, especialmente para uma commodity de alta relevância econômica. A comparação com outros ativos reforça ainda mais essa leitura. Ao confrontar a evolução da arroba com a valorização do ouro e da prata no mesmo período, o resultado é contundente: em termos relativos, a arroba do boi gordo se desvalorizou cerca de 80%. “Ou seja, o produtor que manteve capital imobilizado em boi perdeu poder de compra frente a esses ativos”, afirma o agrônomo. Essa constatação leva a uma pergunta central: se a arroba não se valorizou de forma consistente, por que o preço em reais continua subindo ano após ano? A resposta, segundo Ventorin, está menos no boi e mais na moeda. “Não é que a arroba esteja ficando mais cara. É o dinheiro que não para de perder valor”, resume. A desvalorização do real ao longo das últimas três décadas ajuda a explicar esse fenômeno. Desde o lançamento do Plano Real, em julho de 1994, a inflação acumulada medida pelo IPCA alcança aproximadamente 708%. Na prática, isso significa que R$ 1 hoje equivale a apenas R$ 0,12 do poder de compra existente no início da moeda. Em outras palavras, o real perdeu cerca de 88% de seu valor desde a sua criação. Margem da pecuária recuou 68% desde a década de 90 Esse movimento não invalida o sucesso histórico do Plano Real. Ao contrário: a estabilização da moeda representou uma ruptura com o caos inflacionário vivido nas décadas de 1980 e início dos anos 1990, quando a inflação anual chegou a ultrapassar 2.500%. Desde então, mesmo os chamados “anos ruins” são aqueles em que o IPCA se aproxima de 10% em 12 meses — patamar incomparavelmente inferior ao passado.
Ainda assim, a perda acumulada de poder de compra é suficiente para distorcer a percepção de preços. Um artigo do Instituto Mises Brasil, citado por Ventorin, reforça esse ponto ao demonstrar que, desde 1994, muitos bens e serviços ficaram relativamente mais baratos quando analisados em termos reais. O problema central não está nos preços, mas na corrosão contínua da moeda. Desde os anos 1990, a pecuária brasileira vive um processo de compressão de margens que reflete maior risco e menor rentabilidade operacional para o produtor. Segundo levantamento da consultoria Agrifatto, a margem sobre a venda do boi gordo em São Paulo recuou 68% nesse período, resultado de um processo de intensificação da concorrência, aumento de custos e menor capacidade de repassar esses custos aos preços finais de mercado. Essa redução histórica evidencia que preços nominais mais altos da arroba nem sempre se traduzem em maior lucratividade real, impondo ao produtor a necessidade de aprimorar eficiência, gestão de riscos, ganho de escala e adoção de ferramentas de hedge para proteger margens em um ambiente de forte volatilidade. Essa mudança de perspectiva é crucial para o setor pecuário. A crença de que a arroba “sempre se valoriza” cria uma falsa sensação de conforto e mascara o aumento da complexidade econômica da atividade. “Se fosse verdade que a arroba se valoriza continuamente, a pecuária estaria ficando mais fácil. Mas a realidade é exatamente o oposto”, observa Ventorin.
Hoje, produzir boi gordo com margem positiva exige gestão refinada, escala, eficiência produtiva e controle rigoroso de custos — uma trajetória típica de mercados de commodities maduras. O avanço tecnológico, a competição global e a compressão de margens fazem com que o lucro seja cada vez mais desafiador, mesmo com preços nominais elevados. Nesse contexto, a projeção de uma arroba a R$ 1.000 no futuro deixa de ser motivo de otimismo. Mantida a tendência histórica de desvalorização da moeda, Ventorin estima que esse patamar possa ser alcançado por volta de 2099. “Não porque a arroba se valorizou, mas porque o real foi a zero”, conclui. A mensagem para o produtor é clara: mais importante do que olhar o preço nominal da arroba é entender o seu valor real, sua capacidade de preservar poder de compra e gerar rentabilidade frente a outros ativos. Sem essa análise, o risco é confundir inflação com prosperidade — e pagar caro por isso no longo prazo. Um post compartilhado por João Pedro Ventorin (@joaopedroventorin)
Por: Redação





