A conquista das duas Casas do Congresso dos Estados Unidos pelos democratas não deve aliviar, por si só, o custo dos empréstimos corporativos. Para os diretores financeiros, déficits crescentes, demanda elevada por capital, inflação volátil e incerteza política continuam pressionando as taxas de longo prazo.

Josh Putnam, líder global e das Américas de finanças corporativas da EY-Parthenon, afirmou que as empresas devem entrar em 2027 esperando custos de empréstimos sustentadamente mais altos. Segundo ele, as condições de financiamento também tendem a permanecer voláteis independentemente do partido que controle o Congresso.

O impasse político pode aumentar os riscos, mas não necessariamente eleva sozinho os custos de longo prazo. Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon, disse que um governo dividido não empurraria automaticamente os prêmios de prazo para cima. Desentendimentos orçamentários recorrentes, risco de paralisação do governo, tensões envolvendo o teto da dívida e maior incerteza fiscal, porém, reforçariam a pressão de alta.

Gestão de dívida ganha prioridade

Putnam recomenda que os CFOs testem a resiliência das metas de investimento, reavaliem os vencimentos das dívidas e preservem a flexibilidade do balanço patrimonial. As empresas também devem identificar quais projetos podem gerar retorno superior ao custo de capital e redirecionar recursos quando isso não ocorrer.

Daco aconselha testar investimentos com diferentes custos de financiamento e estabelecer taxas mínimas que reflitam um custo de capital estruturalmente mais alto e volátil.

O risco não está restrito aos juros de longo prazo. Mark Williams, professor de finanças da Questrom School of Business, da Universidade de Boston, e ex-examinador bancário do Federal Reserve Bank, afirmou que os mercados cobram mais diante da incerteza, seja ela originada em Washington ou em Wall Street.

De acordo com Williams, os bancos tendem a apertar as condições de crédito e reduzir os empréstimos quando percebem aumento do risco. Empresas dependentes de commercial paper, modalidade de financiamento corporativo de curto prazo, deveriam considerar operações mais longas, diversificar as fontes de recursos e manter linhas de crédito em vários bancos.

Ele também recomenda que as companhias desenvolvam modelos internos para compensar eventuais atrasos na divulgação de indicadores econômicos provocados por paralisações do governo. Contratantes públicos, por sua vez, devem avaliar como possíveis atrasos nos pagamentos afetariam o fluxo de caixa.

Projetos de IA sob escrutínio

O investimento em inteligência artificial e em data centers pode enfrentar análise financeira e política mais rigorosa à medida que o financiamento encarece. A eleição transformou os custos dessas estruturas em uma questão política, segundo a análise: candidatos de ambos os partidos que fizeram campanha contra o aumento das contas de eletricidade venceram disputas importantes, e ao menos 14 cidades de Ohio aprovaram restrições ao desenvolvimento de data centers.

Williams disse que a incerteza regulatória pode elevar os custos e complicar o financiamento de projetos de IA e de infraestrutura digital. Fundos de crédito privado, apontados como os principais credores do setor, poderiam exigir juros maiores, enquanto os preços de títulos de empresas de IA já emitidos poderiam cair com a alta dos rendimentos.

O especialista observou que o mercado já vinha recalibrando os riscos da inteligência artificial antes da eleição. Entre as medidas recomendadas estão premissas mais conservadoras de valor presente líquido, análise de múltiplos cenários e testes de estresse com custos de empréstimo maiores e cláusulas de crédito mais rígidas.

Daco também afirmou que as empresas devem priorizar projetos com ganhos de produtividade mensuráveis, contabilizar integralmente os custos de energia e infraestrutura e combinar a adoção de tecnologia com investimentos em trabalhadores e qualificação.

A análise foi originalmente publicada pela Fortune.com e reproduzida pela InfoMoney.

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