A França apresentou nesta semana, durante a Euronaval, perto de Paris, sua estratégia para ampliar a capacidade naval em um momento de aumento das ameaças a rotas marítimas estratégicas. O evento, realizado entre 3 e 6 de novembro, reúne delegações internacionais e é considerado a maior feira mundial de defesa naval.
Os ataques contra navios comerciais no Mar Vermelho e a intensificação dos ataques russos contra embarcações no Mar Negro recolocaram corredores marítimos no centro das tensões geopolíticas. Ao mesmo tempo, países europeus buscam fortalecer suas forças navais e ampliar a autonomia estratégica em meio à incerteza sobre a parceria de defesa transatlântica.
Com a segunda maior zona econômica exclusiva do mundo, a França está no centro desse movimento. Na abertura da feira, a ministra da Defesa, Catherine Vautrin, afirmou que o país está renovando seus submarinos de ataque, fragatas e navios de apoio.
O governo também prepara o futuro porta-aviões France Libre e o SNLE 3G, submarino nuclear de mísseis balísticos de terceira geração. A nova classe deverá substituir os submarinos atualmente responsáveis pela manutenção contínua da dissuasão nuclear francesa.
Drones ganham espaço na estratégia naval
A França é o único país europeu a operar um porta-aviões movido a energia nuclear e possui uma das frotas de submarinos mais equilibradas do continente. O país também é o segundo maior exportador mundial de armas, atrás apenas dos Estados Unidos.
Na terça-feira, o governo assinou um acordo para criar um ecossistema doméstico de fabricantes de drones capaz de responder rapidamente às necessidades operacionais da Marinha. Sistemas navais não tripulados e autônomos ocupam posição de destaque na edição deste ano da Euronaval.
François Watteau, diretor da Unidade de Gestão do Programa de Combate Naval da Direção-Geral de Armamentos, disse que os drones navais incorporam inteligência artificial e permitem operar a custos menores e a distâncias maiores. Em 2024, 92% dos fornecedores do Ministério das Forças Armadas estavam sediados na França.
O vice-almirante Éric Chaperon, hoje consultor naval da Thales, afirmou que a conjuntura geopolítica fez as Marinhas se concentrarem mais em equipamentos que possam ser entregues no curto prazo, e não apenas em produtos e tecnologias ainda em desenvolvimento.
A França também intensificou, desde setembro de 2025, as ações contra a chamada frota-sombra da Rússia, usada para contornar sanções ocidentais ao setor energético. Autoridades interceptaram e abordaram ao menos seis petroleiros suspeitos de integrar essa rede, em meio a preocupações com registros de bandeira irregulares ou fraudulentos.
Orçamento dependerá das próximas eleições
O governo propôs elevar o orçamento francês de defesa de 2027 para €63,4 bilhões. O valor representa aumento aproximado de €6,5 bilhões, ou 11,4%, em relação a 2026.
A continuidade dos planos dependerá das próximas eleições. Candidatos à Presidência devem participar da Euronaval, entre eles Raphaël Glucksmann, da esquerda, e os conservadores Edouard Philippe e Bruno Retailleau. Marine Le Pen, da extrema direita, também está prevista na programação.
O Estado francês é acionista da Thales, que mantém contratos relevantes com as Forças Armadas do país e com programas europeus de defesa e espaço. Empresas menores, porém, criticam a concentração de oportunidades em grupos como Thales e Naval Group. Martin Serrault, diretor-geral da fabricante de barcos infláveis Sillinger, afirmou que essas grandes companhias tendem a capturar a maior parte do mercado.
