O aumento dos custos de produção, a pressão sobre os preços dos alimentos e as incertezas comerciais ameaçam a mobilização do eleitorado rural que sustenta o presidente Donald Trump. A preocupação republicana é que parte dessa base compareça menos às urnas na votação desta terça-feira (3), que renovará toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado dos Estados Unidos.
O resultado definirá a composição do Congresso e as condições políticas para a segunda metade do mandato de Trump. A pesquisa KFF, realizada em parceria com a Associated Press e publicada em setembro, indica uma diferença importante no entusiasmo eleitoral entre eleitores rurais republicanos, conforme a avaliação que fazem da economia.
Entre os que desaprovavam a atuação do presidente na área econômica, 59% afirmavam ter certeza absoluta de que votariam nas eleições de meio de mandato. O índice chegava a 79% entre os que aprovavam sua gestão. O levantamento ouviu 2.241 eleitores registrados em áreas rurais entre 12 e 24 de agosto.
A diferença não indica, por si só, uma transferência de votos para os democratas. Ela aponta, segundo a análise apresentada, para o risco de abstenção em um grupo que foi decisivo para as vitórias republicanas recentes. Dados do Pew Research Center mostram que Trump recebeu 69% dos votos de moradores de comunidades rurais em 2024, contra 29% de Kamala Harris. Em 2020, o republicano havia obtido 65% e, em 2016, 59%.
Custos pressionam produtores e consumidores
O indicador de confiança dos agricultores elaborado pela Universidade Purdue e pelo CME Group caiu de 135 pontos em agosto para 123 em setembro. Os insumos mais caros foram apontados como a principal preocupação por 52% dos entrevistados, maior proporção da série citada no material.
As expectativas financeiras também pioraram: 35% dos produtores esperavam uma situação mais difícil para suas propriedades nos 12 meses seguintes, enquanto 22% previam melhora. O aperto foi associado ao encarecimento de fertilizantes, diesel e frete, em meio às tensões provocadas pelas guerras, especialmente no Oriente Médio.
Nos supermercados, a carne bovina concentra parte da pressão. Uma projeção de outubro do Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estimava alta de 8,7% nos preços médios da carne bovina e de vitelo em 2026, contra 2,8% para o conjunto dos alimentos. A oferta restrita também pesa: o país começou o ano com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, o menor estoque de janeiro desde 1951, segundo análise da Universidade do Arkansas baseada em dados do USDA.
Tarifas ampliam tensão com o agro
A política comercial é outro ponto de desgaste para produtores dependentes de compradores externos. Análise da Brookings Institution relacionou o enfraquecimento republicano em estados agrícolas à combinação de tarifas, perda de compras chinesas e elevação dos custos de produção.
Um estudo do USDA calculou perdas superiores a US$ 27 bilhões nas exportações agrícolas americanas entre meados de 2018 e o fim de 2019, durante a primeira guerra tarifária de Trump. Cerca de 95% desse prejuízo foi associado à China. Os valores se referem ao primeiro mandato e não medem os efeitos das tarifas atuais, mas ilustram a exposição do setor a retaliações comerciais.
Às vésperas da votação, o governo anunciou medidas de apoio ao campo. Trump informou que liberaria US$ 15 bilhões para possíveis perdas com quebras de safra e custeio da produção. Na última semana de outubro, também havia anunciado outros US$ 13,7 bilhões para financiamento agropecuário.
O programa Farmer Bridge Assistance prevê mais US$ 12 bilhões, dos quais US$ 11 bilhões seriam destinados a pagamentos de transição para produtores de culturas elegíveis e US$ 1 bilhão a outras commodities. Com programas regulares e assistência extraordinária, o USDA estima que os pagamentos diretos federais ao setor cheguem a US$ 47,4 bilhões em 2026, alta de 69,8% sobre 2025.
Para o Brasil, a reorganização do comércio agrícola pode abrir espaço para a consolidação de mercados. O país já superou os Estados Unidos nas vendas externas de commodities agropecuárias e agroindustriais: em 2024, exportou US$ 137,7 bilhões nessa categoria, US$ 14,4 bilhões acima dos americanos. No conjunto das exportações do agronegócio, porém, os Estados Unidos ainda lideravam, impulsionados por produtos de maior valor agregado.
