Você beberia? Dejetos suínos dão origem a cerveja experimental no Brasil
Projeto da Embrapa em Santa Catarina transforma água tratada de resíduos da suinocultura em cerveja experimental e reacende o debate sobre reúso hídrico no agronegócio.
Projeto da Embrapa em Santa Catarina transforma água tratada de resíduos da suinocultura em cerveja experimental e reacende o debate sobre reúso hídrico no agronegócio. O que à primeira vista parece improvável — ou até repulsivo — tornou-se um exemplo concreto de inovação, ciência aplicada e sustentabilidade no agronegócio brasileiro. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram, em Santa Catarina, uma cerveja experimental produzida com água tratada proveniente de dejetos de suínos. O projeto, conduzido ao longo de cerca de uma década, não tem fins comerciais imediatos, mas cumpre um papel estratégico: demonstrar que o reúso da água, quando feito com rigor técnico e sanitário, é seguro e viável. A iniciativa surge em um momento crítico. Relatórios internacionais já apontam o avanço da chamada “falência global da água”, cenário de escassez hídrica que pressiona setores intensivos em consumo, como a produção animal. Nesse contexto, o experimento catarinense vai além da curiosidade científica e se posiciona como um alerta e uma provocação para o futuro da agropecuária.
A cerveja foi produzida em escala reduzida, com cerca de 40 litros, e apresentada como uma prova de conceito. O objetivo principal não foi lançar um produto ao mercado, mas avaliar a aceitação das pessoas e demonstrar que a água reciclada, quando corretamente tratada, pode atingir padrões elevados de qualidade. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Segundo o pesquisador Airton Kunz, da Embrapa, o estranhamento inicial faz parte do processo. “A reação das pessoas é natural, mas em vários países da Europa já existem bebidas produzidas com água de esgoto sanitário tratado. O nosso papel é mostrar que, com ciência e controle, isso é possível e seguro”, explica. No Brasil, a proposta não é incentivar o consumo desse tipo de bebida, mas quebrar o preconceito em torno do reúso da água, especialmente em um setor que depende diretamente dela. Apesar da aparência e do odor característicos, os dejetos suínos são formados quase totalmente por água. De acordo com os pesquisadores, entre 94% e 99% do volume é água, enquanto a matéria orgânica e os nutrientes representam uma fração menor. Foto: NSC TV“O dejeto animal é, na verdade, mais diluído do que o esgoto doméstico urbano. O problema não é o resíduo em si, mas a falta de tratamento adequado”, destaca Kunz. Quando descartados sem controle, esses efluentes podem contaminar solos, cursos d’água e contribuir para a emissão de gases de efeito estufa, como metano e amônia. Por isso, a Embrapa investiu em um sistema capaz de transformar um passivo ambiental em ativo produtivo.
A tecnologia é resultado de mais de dez anos de pesquisas e se baseia em um processo dividido em três etapas complementares, que permitem recuperar energia, nutrientes e água de alta qualidade. Digestão e geração de biogás Na primeira fase, ocorre a separação entre sólidos e líquidos, seguida da digestão anaeróbia da matéria orgânica. Esse processo reduz significativamente a carga poluidora e gera biogás, que pode ser utilizado como fonte energética. ⏱️ Tempo médio: cerca de 30 diasRemoção do nitrogênio Na segunda etapa, o foco está na eliminação do nitrogênio na forma de amônia, composto tóxico para o meio ambiente. O elemento é convertido em nitrogênio gasoso (N₂), reduzindo riscos ambientais. ⏱️ Tempo médio: aproximadamente 6 dias Recuperação de fósforo A última fase permite a extração do fósforo, nutriente essencial que pode ser reaproveitado na agricultura ou na alimentação animal, diminuindo a dependência de fertilizantes minerais. ⏱️ Duração: até 6 horasFoto: NSC TVAo final do processo, obtém-se uma água que atende aos padrões ambientais brasileiros para descarte em corpos d’água, sem causar impactos. Para uso na produção da cerveja, a água passa por um tratamento adicional, que inclui processos de clarificação, filtração e análises laboratoriais rigorosas. Somente após cumprir os critérios mínimos de potabilidade, ela é liberada para uso alimentar. O pesquisador Ricardo Steinmetz, coordenador do Laboratório de Estudos de Biogás da Embrapa Suínos e Aves, explica que esse é um nível acima do reúso convencional. “Essa água normalmente já seria utilizada na irrigação, na piscicultura ou na própria granja. No experimento, levamos a qualidade ao máximo para comprovar a segurança do processo”, afirma. A discussão ganha relevância quando se observa a escala da produção animal. Uma granja com cerca de 10 mil matrizes suínas pode demandar volumes de água equivalentes aos de uma cidade com 30 mil habitantes.
O reúso traz benefícios diretos ao sistema produtivo, como:
Menor captação de água de rios e aquíferos
Redução de odores e melhoria do ambiente nas granjas
Queda na emissão de gases de efeito estufa
Maior eficiência na gestão de resíduos
“Do ponto de vista legal, essa água já atende aos padrões para lançamento ambiental. Isso mostra o potencial da tecnologia”, reforça Kunz.
A cerveja experimental foi apresentada em eventos científicos ao longo de 2024 e 2025, despertando curiosidade e debate. O mestre cervejeiro Fernando Cavassin, que participou de uma das degustações, destacou a neutralidade sensorial do produto. “A água não interferiu no sabor nem na qualidade da cerveja. O resultado foi surpreendentemente positivo”, avaliou. De acordo com Steinmetz, a maioria das pessoas demonstrou interesse em conhecer o projeto, mesmo aquelas que optaram por não experimentar a bebida. O próximo desafio agora é captar recursos para ampliar a pesquisa, com a possibilidade de um projeto voltado à comercialização experimental a partir de 2026.
Por: Redação
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