O comércio internacional de commodities agrícolas está em alerta máximo para as próximas semanas. No próximo bimestre, os preços do café devem oscilar globalmente em decorrência do compasso de espera pela distribuição da nova colheita brasileira aos terminais marítimos mundiais.
Conforme análises apresentadas por lideranças do setor durante o Seminário Nacional do Café, o cenário de estoques planetários severamente deprimidos atua como combustível para a volatilidade diária nas bolsas de valores.
Fatores que explicam por que os preços do café devem oscilar globalmenteA fragilidade estrutural na oferta global foi o ponto central destacado por Alex Perk, diretor de café para a Europa da Comexim Trade Group. Segundo o executivo, o atual patamar financeiro elevado da commodity reflete o descompasso logístico e a ausência de reservas reguladoras nos países consumidores. Na Bolsa de Nova York (ICE Futures), os reflexos dessa escassez são evidentes: o vencimento para julho do café arábica avançou 1,9%, encerrando a US$ 2,7340 por libra-peso, enquanto os contratos para setembro fecharam com valorização de 1,92%, atingindo US$ 2,6550.
Perk enfatiza que, até o produto brasileiro ganhar os navios — uma janela de transição estimada entre 30 e 60 dias —, as cotações permanecerão sem um rumo definido. Mesmo com a previsão de uma colheita expressiva no maior produtor mundial, o fluxo inicial de grãos será absorvido para mitigar o déficit imediato, mostrando-se insuficiente para recompor o equilíbrio de longo prazo entre a oferta e a demanda.
Divergências nas projeções de safra entre Conab e ComeximEmbora o mercado confie no potencial do cinturão cafeeiro do Brasil, o tamanho exato da safra atual gera debates e adiciona incerteza aos negócios. A Comexim estima um volume de 71 milhões de sacas de 60 kg para este ciclo, projetando uma divisão de 48 milhões de sacas de arábica e 23 milhões de conilon/robusta.
Em contrapartida, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou números mais tímidos em seu último levantamento, apontando um total de 66,7 milhões de sacas (45,8 milhões de arábica e 20,9 milhões de robusta). Independentemente de qual previsão se consolide, o consenso entre os analistas é de que o mercado operará sem margem para erros, reagindo de forma agressiva a qualquer mudança no ritmo dos trabalhos de campo.
Riscos climáticos e macroeconômicos: preços do café devem oscilar globalmenteExistem vetores externos complexos que justificam por que os preços do café devem oscilar globalmente ao longo deste trimestre. Com a proximidade do inverno no Hemisfério Sul, o setor produtivo acende o sinal de alerta para o risco de geadas pontuais, ao mesmo tempo em que precipitações recentes interrompem momentaneamente o ritmo da colheita em algumas praças. Paralelamente, as projeções intensificadas do fenômeno El Niño geram temores de quebra de safra de robusta na Ásia, o que fatalmente migraria a pressão compradora para o arábica estocado no Brasil.
Fora das fazendas, as pressões macroeconômicas moldam o humor dos investidores:
Pelo lado do consumo, as notícias trazem sustentação aos preços, já que a demanda global pela bebida segue aquecida e em expansão contínua. Danilo Pucci, CEO da Volcafé Brasil, asseverou no mesmo painel que uma retração no consumo de café só ocorreria sob condições extremas de estresse de preços — dinâmica similar à observada na recente crise global do cacau.
Para Pucci, a grande variável a ser monitorada de perto é o clima, cujos efeitos do El Niño tendem a penalizar de forma mais severa o mercado de robusta. Com os pilares de oferta fragilizados e incertezas no radar, o setor cafeeiro internacional operará sob forte vigilância e reajustes técnicos contínuos.





