• Terça-feira, 9 de junho de 2026

Mosca que devora tecido vivo é encontrada em gado nos EUA; Entenda o que é a bicheira-do-novo-mundo

A confirmação de novos casos da bicheira-do-novo-mundo expõe o avanço de uma das pragas mais temidas da pecuária, responsável por graves lesões, perdas produtivas e até morte de animais.

A confirmação de novos casos da chamada bicheira-do-novo-mundo (New World Screwworm) no sul do Texas colocou novamente a pecuária norte-americana em estado de alerta. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou recentemente a presença do parasita em três bezerros, uma cabra e um cão, marcando o avanço de uma ameaça que havia sido considerada erradicada do território continental americano há mais de meio século.

Embora o nome possa sugerir uma nova doença, a realidade é justamente o oposto. Trata-se de um velho inimigo da pecuária das Américas: a Cochliomyia hominivorax, mosca cujas larvas atacam tecidos vivos de animais de sangue quente. No Brasil, ela é amplamente conhecida como “bicheira” e faz parte da rotina sanitária das propriedades rurais, especialmente nas regiões tropicais.

O que surpreende os norte-americanos é justamente aquilo que o pecuarista brasileiro conhece há décadas: a capacidade destrutiva dessa infestação quando não há monitoramento adequado dos rebanhos.

A bicheira-do-novo-mundo é uma forma de miíase causada pelas larvas da mosca Cochliomyia hominivorax. Diferentemente de outras espécies de moscas que se alimentam apenas de tecido morto, essa espécie possui uma característica que a torna particularmente perigosa: suas larvas consomem tecido vivo saudável.

O processo começa quando a fêmea deposita ovos em feridas abertas, arranhões, cortes cirúrgicos, umbigos de recém-nascidos ou até mesmo em mucosas dos animais. Em poucas horas, as larvas eclodem e passam a penetrar nos tecidos, alimentando-se continuamente enquanto crescem.

Além da destruição dos tecidos, a infestação provoca:

  • Dor intensa;
  • Inflamação severa;
  • Mau cheiro característico;
  • Perda de peso;
  • Queda de desempenho produtivo;
  • Infecções secundárias;
  • Morte do animal em casos graves.
  • O problema pode atingir bovinos, ovinos, caprinos, equinos, cães, animais silvestres e até seres humanos, embora os casos humanos sejam menos frequentes.

    Uma confusão comum entre produtores é associar a bicheira ao berne. Apesar de ambas serem causadas por moscas parasitas, são problemas diferentes.

    O berne é provocado pela larva da mosca Dermatobia hominis. Nesse caso, normalmente uma única larva se desenvolve sob a pele do animal, formando um nódulo característico.

    Já a bicheira envolve centenas de larvas atacando simultaneamente uma ferida aberta. O dano é muito mais agressivo e rápido, exigindo intervenção imediata.

    Na prática, enquanto o berne costuma causar prejuízos principalmente à qualidade do couro e ao bem-estar animal, a bicheira pode evoluir para quadros fatais quando negligenciada.

    A presença atual da bicheira no Texas chama atenção porque os Estados Unidos travaram uma das campanhas sanitárias mais bem-sucedidas da história contra esse parasita.

    Entre as décadas de 1950 e 1960, o país utilizou a chamada Técnica do Inseto Estéril, considerada revolucionária para a época. O método consiste na criação massiva de moscas macho em laboratório, que posteriormente são esterilizadas e liberadas no ambiente. Quando essas moscas cruzam com fêmeas selvagens, não há geração de descendentes, reduzindo gradualmente a população da praga.

    O programa foi tão eficiente que permitiu a eliminação da bicheira dos Estados Unidos continentais, tornando o país livre da praga por décadas.

    Agora, diante dos novos focos, o USDA anunciou novamente a utilização dessa estratégia, combinada com vigilância epidemiológica, restrições ao trânsito de animais e monitoramento intensivo das áreas afetadas.

    A preocupação americana não surgiu de forma repentina.

    Desde 2023, autoridades sanitárias acompanham a progressão da bicheira pela América Central. A expansão dos casos no México elevou o nível de alerta ao longo dos últimos anos, até que os primeiros focos foram confirmados no Texas.

    Como medida preventiva, os Estados Unidos suspenderam anteriormente parte das importações de animais vivos oriundos do México e reforçaram os protocolos de inspeção sanitária na fronteira.

    Especialistas alertam que uma disseminação ampla poderia gerar impactos bilionários à pecuária norte-americana por causa de:

  • Mortalidade animal;
  • Custos veterinários;
  • Restrições comerciais;
  • Aumento da mão de obra para manejo sanitário;
  • Queda de produtividade dos rebanhos.
  • Enquanto a descoberta da bicheira gera apreensão nos Estados Unidos, o produtor brasileiro convive com o problema há gerações.

    Em praticamente todas as regiões pecuárias do país, o controle da bicheira faz parte do calendário sanitário das propriedades. O tratamento rápido de feridas, a cura adequada de umbigos de bezerros recém-nascidos, o uso estratégico de antiparasitários e a inspeção frequente dos animais são práticas já incorporadas à rotina do campo.

    Essa experiência acumulada faz com que muitos pecuaristas brasileiros reconheçam rapidamente os primeiros sinais da infestação, algo que ainda representa um desafio para criadores em regiões onde a doença esteve ausente por décadas.

    Mais do que um problema veterinário, a reintrodução da bicheira-do-novo-mundo nos Estados Unidos mostra como doenças e parasitas considerados controlados podem voltar a representar riscos significativos em um cenário de mudanças climáticas, intensificação do comércio internacional e movimentação constante de animais.

    Para o Brasil, o episódio serve como lembrete da importância dos programas de vigilância sanitária e do manejo preventivo nas fazendas. Já para os Estados Unidos, trata-se de uma corrida contra o tempo para impedir que um inimigo do passado volte a se estabelecer em uma das maiores indústrias pecuárias do planeta.

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    Por: Redação

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