• Quinta-feira, 30 de abril de 2026

Seca trava expansão nos EUA: 75% das vacas de corte estão em áreas críticas

Com 75% das vacas nos EUA em seca, falta de pasto, custos elevados e juros altos travam a retenção de fêmeas e prolongam a escassez de carne.

Com 75% das vacas nos EUA em seca, a pecuária de corte norte-americana enfrenta um dos momentos mais desafiadores das últimas décadas, com a estiagem avançando sobre as principais regiões produtoras e limitando diretamente a capacidade de recuperação do rebanho. O percentual está muito acima da média histórica próxima de 20% e revela um ambiente em que fatores climáticos e econômicos atuam juntos para frear a expansão do setor.

As informações foram apresentadas pelo analista de mercado Holden Ramey, da CattleFax, durante evento técnico nos Estados Unidos, com repercussão na imprensa especializada . A análise mostra que, apesar de preços historicamente elevados para a carne bovina, a realidade no campo impõe limites claros à retomada do crescimento.

A base da pecuária — disponibilidade de pasto e retenção de fêmeas — está comprometida. A seca reduz a oferta de forragem e dificulta a manutenção de novilhas, peça-chave para a reconstrução do rebanho. Ao mesmo tempo, o ambiente econômico pressiona as margens: juros elevados, insumos caros e volatilidade do mercado aumentam o risco das decisões produtivas.

Na prática, isso tem levado os pecuaristas a uma postura mais conservadora. A retenção de fêmeas ocorre de forma limitada e, em muitos casos, animais que seriam mantidos no sistema acabam sendo destinados ao mercado por falta de alimento, o que prolonga o ciclo de baixa oferta. Esse movimento ajuda a explicar por que a recuperação do rebanho norte-americano tende a ser lenta, seguindo um padrão mais prolongado ao longo dos próximos anos.

O reflexo já aparece no tamanho do plantel. Os Estados Unidos operam hoje com o menor rebanho bovino em cerca de 75 anos, resultado de um período prolongado de seca, custos elevados e maior abate de fêmeas. Menos matrizes hoje significam menos bezerros no futuro, o que mantém a oferta restrita e sustenta o mercado em patamares elevados.

Demanda firme e ajustes na produção sustentam o mercado

Mesmo com a forte alta nos preços, o consumo de carne bovina segue resiliente. Desde 2020, a carne moída acumulou alta próxima de 72%, enquanto os preços da carne bovina no varejo subiram cerca de 61%, superando com folga a inflação geral. Ainda assim, não há uma migração significativa para proteínas mais baratas. O ajuste ocorre dentro da própria categoria, com substituição de cortes nobres por opções mais acessíveis.

A qualidade da carne também tem papel importante nesse cenário. A maior participação de cortes classificados como Choice e Prime, aliada ao avanço de dietas ricas em proteína, ajuda a sustentar a demanda mesmo em um ambiente de preços elevados.

Do lado da produção, a indústria tem buscado compensar a menor disponibilidade de animais com ganhos de eficiência. O aumento do tempo de confinamento e o avanço no peso das carcaças — com ganho médio superior a 20 kg por animal — ajudam a elevar a produção de carne, suavizando parte do impacto da redução do rebanho. Ainda assim, esses ganhos não são suficientes para neutralizar a escassez estrutural.

O cenário também foi influenciado por mudanças no comércio internacional. O fechamento da fronteira com o México em 2025 reduziu drasticamente a entrada de gado vivo nos Estados Unidos, diminuindo a oferta de reposição. Mesmo com uma eventual reabertura, a expectativa é de recuperação gradual, diante de exigências sanitárias mais rigorosas e da maior capacidade produtiva do próprio México.

Com a oferta interna restrita e os preços elevados, os Estados Unidos passaram a importar mais carne bovina e a reduzir exportações, buscando equilibrar o abastecimento doméstico. Ao mesmo tempo, a menor disponibilidade de animais fortaleceu o poder de negociação dos pecuaristas, que passaram a capturar uma parcela maior da rentabilidade da cadeia.

Para os próximos anos, a tendência é de manutenção de preços firmes, sustentados pela oferta limitada. A recuperação do rebanho deve ocorrer de forma gradual, enquanto fatores como clima, custos e mercado continuarão determinando o ritmo da atividade.

Nesse contexto, o cenário abre espaço para países exportadores como o Brasil, que podem ampliar sua participação no comércio global de carne bovina. Mais do que um evento climático isolado, a seca nos Estados Unidos evidencia uma mudança estrutural no mercado: a combinação de oferta restrita e demanda firme reposiciona a pecuária mundial e cria um novo ciclo de oportunidades e riscos para o setor.

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Por: Redação

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