Os movimentos do governo federal para reduzir a forte dependência brasileira de fertilizantes importados começam a ganhar tração com iniciativas concretas do setor privado — e um dos projetos mais avançados nesse sentido envolve diretamente a família Batista, controladora da J&F Investimentos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, há negociações em andamento para viabilizar um financiamento robusto junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com foco na ampliação da produção nacional de potássio, insumo essencial para o agronegócio.
A iniciativa é liderada pela empresária Valére Batista, irmã de Wesley e Joesley Batista, que atua à frente da empresa responsável pelo projeto mineral. A companhia controla atualmente a única mina de potássio em operação no Brasil, localizada no estado de Sergipe — ativo considerado estratégico em meio à crescente preocupação com a segurança de insumos agrícolas.
Projeto da família Batista pode quintuplicar produção nacional de potássioA operação foi adquirida no fim de 2025 da multinacional Mosaic por cerca de US$ 27 milhões (aproximadamente R$ 143 milhões), sendo posteriormente rebatizada como Stratos. Hoje, a unidade produz cerca de 400 mil toneladas de potássio por ano, mas possui capacidade técnica para alcançar até 2 milhões de toneladas anuais, o que representaria um salto significativo na produção doméstica.
Para viabilizar essa expansão, a empresa negocia um financiamento que pode ultrapassar centenas de milhões de reais, com estimativas apontando para algo próximo de R$ 500 milhões. Esse aporte permitiria, inicialmente, ampliar a produção em cerca de 100 mil toneladas adicionais, com potencial de crescimento progressivo nos anos seguintes.
Dependência externa expõe fragilidade do agro brasileiroO avanço do projeto ocorre em um momento crítico: o Brasil ainda importa mais de 90% dos fertilizantes que consome, sendo extremamente dependente do mercado internacional — especialmente em potássio (97%), nitrogenados (97%) e fósforo (74%).
Essa vulnerabilidade ficou ainda mais evidente diante de tensões geopolíticas recentes, especialmente no Oriente Médio. A região do Golfo Pérsico, responsável por cerca de 45% da oferta global de enxofre — insumo essencial na produção de fertilizantes — tem enfrentado instabilidades que pressionam preços e aumentam os riscos de abastecimento.
Nesse cenário, ampliar a produção nacional deixou de ser apenas uma estratégia industrial e passou a ser uma questão de segurança econômica e alimentar.
Plano do governo prevê até R$ 15 bilhões para o setorAs negociações com o BNDES estão inseridas no contexto do programa federal Plano Brasil Soberano 2, que prevê até R$ 15 bilhões em crédito para setores estratégicos, com destaque para fertilizantes.
A iniciativa inclui financiamento para:
As condições dessas linhas ainda dependem de definição pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), mas a expectativa é de que funcionem como catalisadores para destravar projetos considerados prioritários.
Além disso, o governo federal também intensificou a atuação institucional sobre o tema, com a criação de um grupo de trabalho emergencial envolvendo o Ministério da Agricultura, Casa Civil e Ministério do Desenvolvimento.
Fertilizantes pesam até 60% do custo de produçãoO impacto dos fertilizantes sobre o custo agrícola reforça a urgência dessas medidas. De acordo com informações do próprio Ministério da Agricultura, os insumos representam, em condições normais, mais de 30% do custo de produção, podendo ultrapassar 50% a 60% em momentos de crise, comprometendo diretamente a rentabilidade do produtor rural.
Em 2025, o Brasil importou cerca de 43,32 milhões de toneladas de fertilizantes, consolidando-se como o maior importador mundial e o quarto maior consumidor global.
Meta é reduzir dependência até 2050Dentro do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), o governo estabeleceu a meta de que o país seja capaz de suprir até 50% da demanda interna com produção nacional até 2050.
Atualmente, o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) monitora uma carteira de 67 projetos, sendo:
Entre os projetos já em operação, destacam-se unidades como Serra do Salitre (MG), da Eurochem, além de plantas da Petrobras na Bahia, Sergipe e Paraná.
Projeto da família Batista ganha protagonismo no curto prazoApesar da existência de outros projetos estruturantes — como o da Potássio do Brasil, no Amazonas — especialistas apontam que iniciativas como a da Stratos, em Sergipe, têm maior viabilidade no curto prazo, por enfrentarem menos entraves ambientais e logísticos.
Diante disso, o projeto liderado pela família Batista desponta como uma das apostas mais concretas para acelerar a produção nacional de fertilizantes, reduzir custos ao produtor e aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro no cenário global.
Em um momento de pressão internacional e custos elevados, a equação é clara: produzir mais dentro de casa deixou de ser opção — virou necessidade estratégica para o Brasil.
Com informações da Folha de S. Paulo
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