Uma feliz coincidência chama a atenção no agro e no cooperativismo brasileiros. Três líderes atuais de organizações desses setores nasceram na pequena Ipumirim, cidade do Oeste de Santa Catarina. O trio é formado pelo CEO Global da JBS, Gilberto Tomazoni; o presidente da Aurora Coop Neivor Canton; e a presidente executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) Tânia Zanella.
Juntas, essas organizações somam receita superior a R$ 1,2 trilhão, cada uma com suas peculiaridades. A JBS teve receita líquida de vendas de R$ 432 bilhões (US$ 86,2 bilhões) em 2025, a Aurora Coop somou R$ 26,9 bilhões de faturamento em 2025, e a OCB representa as cooperativas brasileiras que alcançaram R$ 758 bilhões de ‘ingressos’ (faturamento) em 2025. A soma desses valores chegou a R$ 1,217 trilhão em 2025.
Eles nasceram na mesma cidadezinha de SC e estão no topo de negócios globais:
Enquanto as funções de Gilberto Tomazoni e Neivor Canton envolvem decisões executivas diretas de negócios no Brasil e exterior, o sistema cooperativo OCB é uma organização representativa e defensora do cooperativismo, que inclui os dados do setor entre os quais os da Aurora Coop. O fato de ser uma entidade que representa um setor gigante destaca a importância da liderança de Tânia Zanella.
Ipumirim, situado ao lado do município de Concórdia, é de colonização predominantemente italiana e tem pouco mais de 8 mil habitantes segundo o IBGE (2025). A maior empresa local é um frigorífico de produção e abate de aves da Seara, empresa da gigante JBS, controlada pela família Batista, mas que tem na gestão o ipumirinense Tomazoni.
Algumas pessoas se impressionam quando pensam sobre essa coincidência, considerando a relevância nacional e internacional desses negócios. Alguns dizem, “não pode ser”, “deve ter algo divino”. Mas esses executivos se prepararam com formação universitária, experiência de trabalho e networking para serem galgados a esses cargos.
Além disso, um líder ipumirinense nascido no Rio Grande do Sul, o ex-deputado federal e hoje consultor Odacir Zonta, afirma que ajudou a fazer conexões. Neivor Canton começou a carreira como office boy no escritório de contabilidade de Zonta e os dois seguiram próximos. O ex-deputado disse também que sugeriu para um diretor da Sadia contratar o recém-formado Gilberto Tomazoni. E Tânia Zanella foi trabalhar em Brasília a convite de Zonta para ser assessora jurídica do gabinete quando ele assumiu mandato de deputado.
Gilberto Tomazoni é graduado em engenharia mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O seu primeiro emprego foi como engenheiro estagiário da Sadia, então uma das grandes empresas de proteína animal do Brasil, com sólida presença nos mercados nacional e internacional.
Após 27 anos na Sadia, sendo quatro na presidência, ele deixou o cargo em 2010, pouco tempo após a fusão da empresa com a Perdigão, em 2009, que resultou na BRF. Em 2013, quando a JBS adquiriu a catarinense Seara, ele foi convidado e aceitou o desafio de liderar a empresa, com forte expansão.
O trabalho de destaque com forte expansão da empresa abriu portas para a função atual, de CEO Global da JBS, maior companhia de proteínas do mundo. Por isso, dos três líderes de Ipumirim, Tomazoni é quem decide sobre os “maiores cheques”. Questionado, sem aviso antecipado, sobre o que pensava dessa coincidência, ele atribuiu ao trabalho e competência de cada um.
– Não acredito que o local em que a pessoa nasce tem a ver com o seu futuro. Vai depender das suas escolhas e da sua dedicação em construir a sua carreira. Então, acho que é uma coincidência que a gente tem. Todos eles são meus amigos, mas eu acho que a história é construída com muito trabalho, com muita dedicação, com muita humildade para aprender todos os dias – disse Tomazoni em abril, quando saía da inauguração do JBS Biotech Innovation Center, em Florianópolis.
– Você está vendo aqui que estamos inaugurando um centro de biotecnologia. Nós estamos dando um passo à frente. É algo que não existe ainda no mundo – destacou ele sobre o novo centro de biotecnologia voltado à inovações para saúde animal, proteínas funcionais e alternativas.
Tomazoni disse que estudou em Ipumirim até o final do ensino fundamental. O ensino médio fez em Chapecó porque não tinha na cidade e, depois, ingressou no curso de engenharia na UFSC, em Florianópolis. Revelou que era a mãe quem mais cobrava que estudasse enquanto do pai tinha uma empresa onde o jovem gostava de trabalhar.
– Em Ipumirim, aprendi coisas diferentes dos meus pais. Do pai, Arlindo Tomazoni, aprendi sobre a colaboração comunitária, o empreendedorismo, de fazer as coisas acontecerem. Meu pai era um produtor rural, mas se tornou o comerciante mais influente do município, um negócio que começou no distrito de São Rafael. E da minha mãe, Adelina, aprendi a importância de estudar – revelou o executivo.
Sobre a escolha da engenharia mecânica, disse que foi em função da empresa do pai, que tinha caminhões. Afirmou que era fascinado por caminhões e queria trabalhar com isso. Mas a carreira abriu portas para funções executivas até hoje. Tomazoni é casado, tem dois filhos e reside em São Paulo. À frente da JBS, viaja pelo mundo, e muitas vezes para Santa Catarina, podendo incluir Ipumirim.
Ser CEO de uma gigante de proteínas que envolve setores produtivos complexos, sazonalidades, desafios climáticos, impactos de guerras e muito mais requer habilidades diferenciadas. Segundo ele, é fundamental criar bons times e delegar. Disse que aprendeu com o pai a trabalhar com as pessoas. Contou que quando faltava algo no interior de Ipumirim, o pai reunia a comunidade e todos faziam a compra em conjunto. Um exemplo foi a aquisição da primeira repetidora de TV para a cidade.
– Isso me ajudou demais a construir times. É maravilhoso. Não é uma estrela que vence, mas um time – destacou Tomazoni.
Neivor Canton nasceu em Ipumirim, mas quando a cidade ainda era distrito do município de Concórdia. Oitavo filho de uma família de 11 irmãos, conseguiu o primeiro emprego como office boy aos 14 anos, no escritório de contabilidade de Odacir Zonta, o único da cidade. Passou a ser conhecido pelos empresários e fez o curso técnico em contabilidade em Concórdia para seguir na área. Mas as oportunidades o fizeram mudar de rota. Cursou letras e direito, foi professor, prefeito, líder associativista e executivo até chegar ao cargo atual.
Desde 2021 Canton é presidente da Aurora Coop, a Cooperativa Central Aurora Alimentos, de Chapecó, uma das maiores agroindústrias do Brasil, que exporta para mais de 80 países. Ela reúne 14 cooperativas agropecuárias associadas com 87 mil famílias cooperadas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul. Suas unidades fabris empregam mais de 51 mil pessoas.
A exemplo de Tomazoni, Canton está à frente de negócios complexos, cadeias produtivas longas, que dependem de uma série de fatores para ter resultados positivos. Questionado sobre o que mais o preocupa na função, ele destacou que é levar resultado aos associados, que são as 87 mil famílias donas desse negócio.
– As famílias de produtores no campo são a nossa maior preocupação. Nosso foco é devolver a eles o melhor padrão de vida possível – afirma o presidente da Aurora Coop.
Para ele, nascer em Ipumirim foi ter oportunidade de trabalhar cedo e, também, fazer uma série de conexões com pessoas, realizar atividades políticas e comunitárias que abriram portas. Canton teve diversas oportunidades de trabalho e exerceu funções públicas que exigiram esforço para conciliar os estudos com o trabalho.
– Como não tinha faculdade perto, fiz o curso de Letras em Palmas, no Paraná, que permitia frequência reduzida. Íamos na quinta e retornávamos no sábado a cada 15 dias. Mas logo iniciei na política. Aos 21 anos, concorri a vice-prefeito e aos 27 anos me elegi prefeito de Ipumirim. Tive dois mandatos, servi o município por 12 anos – destaca Canton.
Com origem na agricultura, ele se filiou à cooperativa Coperdia em 1980. E depois que concluiu os dois mandatos à frente da prefeitura foi convidado, em 1988, para cargo executivo na cooperativa que, na época, era presidida por Odacir Zonta.
Foi lá que avançou no associativismo do setor, presidiu a Federação das Cooperativas do Estado (Fecoagro) e a Organização das Cooperativas de SC (Ocesc). Ao mesmo tempo, foi professor de contabilidade, gestor universitário, cursou Direito na Unoesc e fez MBAs.
A mudança da Coperdia para a Aurora Coop foi em 2007, quando assumiu a diretoria de Administração da coopercentral. Posteriormente, foi vice-presidente e assumiu a presidência em 2021.
Canton reside em Chapecó, onde fica a matriz da Aurora. É casado com Rosane Marina, eles são pais da Josiane, Cândida e Neivor Augusto, e têm um neto. Conhecido pelo jeito acessível de ser, ele atribui isso à família, ao pai e à igreja.
– O meu pai era uma pessoa bem extrovertida. Ele se relacionava bem com as pessoas. Talvez eu tenha um pouquinho do DNA do meu pai. Mas também o que me ajudou realmente a ser mais aberto com o público foi a experiência na igreja quando jovem. A missa era em latim e eu fui convidado a explicar aos fiéis o que acontecia – revelou Canton.
A ipumirinense Tânia Zanella é uma desbravadora de espaços como liderança feminina no Brasil. Com sólida cultura da terra natal do Oeste catarinense, ela conquistou cargos relevantes com muito trabalho e talento. O ápice foi em dezembro de 2025, quando foi eleita presidente executiva do Sistema OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, a primeira mulher a ocupar essa função em 57 anos.
A advogada graduada pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) atua no sistema OCB desde 2008, em Brasília. Ela era a superintendente da organização quando foi eleita ano passado. Também preside o Instituto Pensar Agropecuária (IPA) e é membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag). Com todas essas funções, neste ano foi reconhecida como uma das 16 mulheres mais poderosas do Brasil pela revista Forbes.
A OCB é a organização que representa o setor cooperativo brasileiro que é robusto, em especial no agro, no crédito e na saúde. O anuário estatístico de 2025 mostra que os ingressos somaram R$ 757,9 bilhões (faturamento), o país tem 4.384 cooperativas ativas que reúnem 25,8 milhões de cooperados.
Tânia Zanella destaca que a cultura de Ipumirim, onde cresceu e retorna sempre que pode, tem muita influência no seu trabalho, na forma como lidera. Ela diz que a cidade, por ser pequena, tem uma cultura forte de proximidade e o coletivo sempre esteve presente na trajetória dela desde cedo. Muitos ipumirinenses são referências para ela.
– Um grande exemplo é o meu pai, Valdir Zanella, atual prefeito de Ipumirim. Foi dele que herdei os princípios de valores e de trabalho, e tem uma frase que carrego sempre comigo: “A política é para servir e não ser servido”. Além disso, meus pais sempre foram do movimento cooperativista, participavam como associados e viviam o que o modelo representa na prática – afirma Tânia Zanella.
– Tudo isso está muito conectado com a minha história com o cooperativismo: um modelo que parte do princípio do desenvolvimento coletivo, de apoiar as pessoas e contribuir para o seu crescimento e prosperidade. Esse propósito de fazer a diferença, de poder retribuir para quem ainda está lá e de servir de inspiração para quem vem depois – tudo isso nasceu em Ipumirim – declara a mulher mais poderosa do setor.
A executiva afirma que foi trabalhar em Brasília a convite do então deputado federal Odacir Zonta, que sempre teve uma bandeira muito forte do cooperativismo e do agronegócio. Ela conta que as oportunidades foram surgindo e construiu uma trajetória até chegar ao Sistema OCB em 2008, onde começou como analista e no ano passado foi eleita a primeira mulher presidente da instituição.
Questionada sobre como vê essa coincidência de três lideranças de Ipumirim ocuparem funções relevantes, ela atribui à cultura local. Diz que sente muito orgulho em ser referência e poder inspirar futuras gerações.
– Orgulho de saber que Ipumirim é uma cidade que formou, e continua formando, pessoas que fazem a diferença. Fico muito feliz em poder dizer que sou ipumirinense e, hoje, poder trabalhar para devolver à cidade tudo o que aprendi, além de servir de inspiração para as futuras gerações que serão, também, o futuro de Ipumirim, de Santa Catarina e do Brasil – diz a executiva.
Como o pai é o prefeito de Ipumirim e parte da família reside na cidade, Tânia Zanella volta com frequência para a terra natal, especialmente com os dois filhos. Diz que Ipumirim é seu porto-seguro para recarregar energias e se reconectar.
– Não consigo voltar com a frequência que gostaria, mas toda vez que vou, retorno diferente. Mais inteira e preparada para seguir trabalhando em prol das pessoas, do cooperativismo e do nosso país – afirma ela.





