• Quinta-feira, 26 de março de 2026

Mercosul faz 35 anos sob tensão política e expectativa com acordo

Bloco é marcado por divergências entre líderes, perda de dinamismo e incertezas sobre seu papel em um cenário global fragmentado

O Mercosul completa 35 anos nesta 5ª feira (26.mar.2026) em um cenário de profunda fragmentação econômica global e reconfiguração das cadeias produtivas. Criado em 1991 com o objetivo de estabelecer um mercado comum, o bloco se consolidou somente como uma união aduaneira incompleta –com tarifa externa comum parcialmente harmonizada e livre circulação de bens ainda limitada–, marcada por baixa coordenação macroeconômica e exceções à TEC (Tarifa Externa Comum).

Atualmente, o funcionamento do bloco é diretamente impactado pelas diferenças políticas entre os líderes Javier Milei (Argentina, La Libertad Avanza, direita), Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil, PT, esquerda), Santiago Peña (Paraguai, Partido Colorado, direita) e Yamandú Orsi (Uruguai, Frente Ampla, centro-esquerda). Especialistas apontam que a principal variável é a percepção estratégica de cada liderança sobre a nova ordem mundial.

Para o professor de economia da USP (Universidade de São Paulo) Luciano Nakabashi, o bloco falhou em avançar para um mercado comum de fato por causa da relutância dos integrantes em ceder soberania. Segundo ele, a instabilidade das instituições nos países em desenvolvimento faz com que as prioridades mudem conforme o governo da vez, dificultando a harmonização necessária para uma união completa.

Segundo Nakabashi, uma integração real exige que os membros abram mão de autonomia em áreas críticas, como políticas monetária, fiscal e cambial, além do controle sobre o fluxo de capitais e pessoas.

A economista Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o Mercosul tem “um grau de institucionalidade baixo”“Não há canais institucionais para que determinadas controvérsias passem por mecanismos mais claros, para que os presidentes nem precisem saber do que se trata”, explica. Segundo ela, um organismo supranacional, como os que existe na UE (União Europeia), seriam importantes para que os técnicos olhem “para os interesses do bloco, e não dos países internamente”. Com a ausência desse órgão, de acordo com a economista, o bloco “varia muito o seu histórico em função dos presidentes e se eles são mais ou menos interessados na integração regional”.

Economicamente, o bloco perdeu tração: a participação do comércio intrabloco nas exportações totais caiu nas últimas décadas. Nakabashi ressalta, porém, que ainda há ganhos potenciais de escala e especialização, citando a integração já existente nos setores automobilístico e do agronegócio como exemplos de sucesso que poderiam ser expandidos.

A reconfiguração das cadeias produtivas globais, com a tentativa das potências ocidentais de reduzir a dependência da China, abre uma janela de oportunidade para o Mercosul. Contudo, o especialista afirma que a região só atrairá essas etapas produtivas se investir em infraestrutura e estabilidade. “Isso precisa de um ambiente institucional mais sólido… e de uma infraestrutura bem organizada, como transporte e energia, para de fato ter uma integração mais forte e reduzir o ‘Custo Brasil'”, afirma.

O chamado “Custo Brasil” refere-se ao conjunto de entraves estruturais –como alta carga tributária, burocracia excessiva, insegurança jurídica e deficiências logísticas– que encarecem a produção e reduzem a competitividade das empresas no país.

Em contraste com as tensões internas, a promulgação do acordo com a União Europeia pelo Congresso brasileiro em 17 de março de 2026 é vista positivamente para ambos os blocos. O diretor do Instituto de Relações Internacionais da USP Pedro Dallari  destaca que o tratado cria um mercado de 700 milhões de pessoas, o que forçará os países do Mercosul a adotarem padrões de “maior racionalidade econômica e administrativa”.

Dallari enfatiza que, além dos ganhos comerciais, o acordo fortalece o multilateralismo contra posturas isolacionistas e extremadas: “Esse quadro associativo terá impacto positivo para a modernização e dinamização da estrutura das sociedades do Mercosul”.

Na prática, o acordo tende a ampliar o acesso a mercados, reduzir barreiras tarifárias e estabelecer regras comuns em áreas como meio ambiente, compras públicas e propriedade intelectual. Para especialistas, esse tipo de integração pode elevar padrões regulatórios, aumentar a previsibilidade para investimentos e incentivar ganhos de produtividade nos países do bloco sul-americano. Segundo Dallari, ele “representa o fortalecimento da lógica da cooperação internacional em um contexto de guerras com forte impacto social e econômico”.

A paralisia econômica do Mercosul é agravada por uma divisão política entre seus integrantes. Segundo o especialista Thomas Ferdinand Heye, do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF (Universidade Federal Fluminense), o funcionamento do bloco é diretamente impactado pela forma como cada liderança interpreta a nova ordem mundial, em um contexto de relativo declínio da hegemonia dos Estados Unidos.

De um lado, governos de esquerda, como os de Brasil e Uruguai, veem o Mercosul como instrumento de autonomia estratégica, buscando diversificar parcerias em um cenário multipolar. De outro, Argentina e Paraguai, sob governos de direita, priorizam maior alinhamento com os Estados Unidos, o que tem levado a iniciativas unilaterais que tensionam o bloco por contrariarem a lógica de negociação conjunta prevista na união aduaneira, que restringe acordos comerciais individuais com países de fora do bloco.

Para Heye, movimentos como a aproximação comercial da Argentina e acordos militares firmados pelo Paraguai com Washington podem enfraquecer a coesão do Mercosul, uma vez que negociações desse tipo são, em princípio, limitadas pelas regras do bloco. O especialista afirma ainda que a política externa “errática e agressiva” dos EUA para a América do Sul figura hoje entre os principais fatores de pressão sobre a integração regional.

Lia Valls afirma que, neste mundo mais fragmentado “com mais tensões comerciais e políticas”, os países do Mercosul, em vez de se unirem frente a isso, têm ido “um mais para um lado, outro mais o outro”.

De acordo com Pedro Dallari, porém, as divergências entre os líderes do bloco “podem impactar a velocidade do processo de integração, mas a evolução, que é inexorável, é determinada fundamentalmente pela dinâmica econômica e pelo engajamento da sociedade”. Isso, segundo ele, é facilitado “pela contiguidade geográfica e pelo compartilhamento da participação em outros espaços de cooperação internacional”. O especialista cita como exemplo o fato de Milei, “mesmo adotando com frequência retórica contrária ao Mercosul”, não ter se oposto ao acordo com a UE, “pois isso não seria aceito pela sociedade daquele país”.

Por fim, Dallari aponta que a criação do Mercosul impactou os países da região para muito além da economia. Segundo ele, o bloco fortaleceu a democracia e a promoção dos direitos humanos e ajudou a preservar o Estado de Direito “em uma região caracterizada por um histórico de regimes ditatoriais”. Para o professor, os compromissos estabelecidos pelo Mercosul “evitaram, por mais de uma vez, que houvesse retrocesso político no Paraguai e impediram que o advento da ditadura na Venezuela se propagasse pela América do Sul”.

Valls também destaca que o bloco é um “ativo importante” para o Brasil, a maior economia da região e que historicamente carrega a bandeira da integração sul-americana.

Por: Poder360

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