• Quinta-feira, 26 de março de 2026

BC tem sentimento de “consternação” no caso Master, diz Galípolo

Presidente da autoridade monetária pediu a aprovação de PEC para ampliar a autonomia financeira da instituição.

O presidente do BC (Banco Central), Gabriel Galípolo, disse nesta 5ª feira (26.mar.2026) que a autoridade monetária tem sentimento de “consternação” depois do caso do Banco Master. Defendeu que a ética é um valor “muito caro” aos funcionários públicos da instituição.

Galípolo também pediu “ajuda” para a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65 de 2023 no Congresso, que amplia a autonomia financeira do Banco Central em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A proposta ajudaria, segundo ele, a repor funcionários públicos que saíram ou se aposentaram e a investir em avanços tecnológicos para um acompanhamento mais “granular” de supervisão e prevenção a irregularidades.

Galípolo declarou que o Banco Central discute de maneira recorrente aprimoramentos nas auditorias para evitar casos como o do Banco Master. “Eu não gostaria de fazer nenhum tipo de comentário que reduzisse a consternação que gerou dentro do Banco Central. Para todos os servidores do Banco Central, a ética é um valor muito caro”, disse.

O presidente do Banco Central declarou que foi um processo de “luto” que ainda está sendo vivenciado pelos funcionários da autoridade monetária: “A casa respondeu, como sempre, de maneira muito pronta, correta, buscando sanear todos os problemas e tendo, acima de tudo, esse valor que está do Banco Central”.

A PF apurou que Vorcaro pagou propina a funcionários do Banco Central para favorecer o Master. Dois foram afastados. Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária.

Galípolo disse que as investigações aassumem duas frentes:

Galípolo declarou que os funcionários públicos sabem como “fazer mais” na área de regulação e fiscalização, mas é preciso. Ele defendeu que o BC “sofre com limitações” que decorrem de recursos e apoio de estrutura legal. Pediu a aprovação de projeto de lei complementar sobre resolução bancária e da PEC que dê mais estabilidade ao BC.

“Eu não estou pedindo apoio, eu estou pedindo ajuda dos senadores para que a gente possa avançar com a PEC que pode dar recursos tanto do ponto de vista financeiros, tecnológicos e humanos para que a gente possa aprimorar e acompanhar tudo que está acompanhando no mundo e transformações no mercado financeiro”, disse.

Galípolo voltou a dizer que, em janeiro de 2025, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou que o Master estava fazendo venda de novas carteiras por causa dos problemas de liquidez, mesmo com as dificuldades de captações.

Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e identificou, em março, que as carteiras não tinham lastros. Os documentos obtidos eram, segundo Galípolo, insuficientes para constatar uma fraude, mas o BC procurou respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.

O Banco Central encontrou dificuldade de encontrar evidências e avançou nas investigações durante o processo de análise de compra do Master pelo BRB.

Galípolo defendeu o rito legal do processo para que não houvesse questionamentos posteriores. O BC deu “chances” para que fosse esclarecido, e o tempo de apuração foi destinado para fundamentar o processo e avisos às autoridades competentes.

O presidente do BC disse que a instituição atua dentro do seu papel no “mais absoluto rigor” e não recuou das prerrogativas e nem buscou “exacerbar” suas atribuições em busca de protagonismo.“Não vai ter salvador da pátria para um momento como este”, disse Galípolo.

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O dono e fundador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, está preso e é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Ele firmou em 19 de março de 2026 um acordo de confidencialidade com a PF (Polícia Federal) e com a PGR (Procuradoria Geral da República) que possibilita a delação premiada. O documento expõe riscos de várias autoridades públicas de Brasília. Esse acordo foi assinado quase 12 meses depois do anúncio de compra pelo BRB (Banco de Brasília), que tenta se recuperar financeiramente após a operação.

O Master foi responsável pelo rombo recorde no FGC (Fundo Garantidor de Crédito), de quase R$ 52 bilhões, mesmo tendo somente 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional. Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.

O Banco Master teria vendido títulos podres para o BRB, o que culminou nas investigações e na liquidação extrajudicial anunciada em novembro pelo BC. A autoridade monetária enviou um relato ao MPU (Ministério Público da União) em julho com os primeiros detalhes sobre as irregularidades.

Galípolo disse, em 9 de fevereiro, que a autoridade monetária teve “dúvidas” em janeiro e obteve evidências” das irregularidades em março de 2025. O diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, declarou que a autoridade monetária só conseguiu ter “certeza” das fraudes em 27 de junho de 2025.

A 1ª operação da Polícia Federal só foi realizada em 18 de novembro de 2025. Vorcaro foi solto em 28 de novembro e preso novamente em 4 de março deste ano após nova operação.

Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, do Banco Central, são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária. A CGU (Controladoria-Geral da União) também instaurou processos administrativos disciplinares. Paulo Sérgio Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central de 2017 a 2023, durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), sendo indicado pelos 2 ex-presidentes para o cargo.

Paulo Souza é alvo de investigações da PF por fornecer informações privilegiadas para Daniel Vorcaro. Belline e Souza atuavam no Desup (Departamento de Supervisão Bancária) e foram afastados dos cargos em 4 de março deste ano.

Por: Poder360

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