Mercado: “Pibinho” do 3º trimestre confirma desaceleração da economia
Segundo dados divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira (4/12), PIB do país cresceu 0,1% em relação ao trimestre anterior e 1,8% na base anual
O desempenho tímido da economia brasileira no terceiro trimestre deste ano, do Produto Interno Bruto () em relação aos três meses anteriores, não surpreendeu o mercado e confirma o cenário de desaceleração da atividade econômica do país.
Essa é a avaliação predominante de economistas e analistas do mercado consultados pela reportagem do Metrópoles nesta quinta-feira (4/12), pouco depois da divulgação dos dados oficiais do PIB por parte do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (). Sob a ótica da produção, houve resultados positivos na agropecuária (0,4%) e na indústria (0,8%) enquanto a atividade dos serviços (0,1%) não mostrou variação significativa.
Segundo o IBGE, o PIB somou R$ 3,2 trilhões no terceiro trimestre, sendo R$ 2,8 trilhões referentes ao valor adicionado a preços básicos e R$ 449,3 bilhões, aos impostos sobre produtos líquidos de subsídios. A taxa de investimento foi de 17,3% do PIB, ligeiramente abaixo dos 17,4% do mesmo trimestre do ano passado. Já a taxa de poupança foi de 14,5%, igual à do terceiro trimestre de 2024.
Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o PIB avançou 1,8%, com crescimento na agropecuária (10,1%), na indústria (1,7%) e nos serviços (1,3%).
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O que diz o mercado
De acordo com André Valério, economista sênior do Banco Inter, “o resultado do terceiro trimestre reforça a tendência de acomodação do crescimento da economia”. “Nos últimos oito trimestres, o crescimento médio do PIB na comparação contra o mesmo trimestre do ano anterior foi de 3%. Esse trimestre marca um desvio dessa tendência, com o crescimento nessa métrica sendo de 1,8%”, observa.
Ainda assim, aponta Valério, “vemos uma economia bastante robusta, e o PIB caminha para ter um crescimento significativo em 2025, acumulando alta de 2,4% até setembro, ainda crescendo acima da tendência pré-pandemia”. “De toda forma, esperamos a continuidade da tendência de acomodação do crescimento, com o PIB encerrando o ano com alta acumulada de 2,2%”, projeta.
Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, avalia que o PIB do terceiro trimestre “confirmou o que o mercado já vinha monitorando: um verdadeiro ‘pibinho’”. “A economia praticamente ficou de lado, mostrando a perda de ritmo dos serviços e uma acomodação mais forte do consumo das famílias. A indústria extrativa segue sendo o principal ponto de sustentação do crescimento”, destaca.
“Pelo lado da demanda, tanto consumo quanto investimento avançam em ritmo mais fraco, pressionados pelo crédito ainda caro e pelo custo elevado do capital – um cenário que o IBC-Br [Índice de Atividade Econômica do Banco Central] já vinha antecipando. Além das taxas de juros altas aqui, as tarifas impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros pesaram sobre a atividade”, completa Spyer.
Para Marco Ribeiro Noernberg, sócio e estrategista de renda variável da Manchester Investimentos, os dados do PIB do Brasil mostram “que o país continua crescendo neste ano, mas já é uma leitura de uma economia um pouco mais desaquecida, especialmente se comparamos com o primeiro semestre”.
“A gente vê um nível de desemprego baixo neste momento, mas, ao mesmo tempo, a Selic passou o ano inteiro em taxas elevadíssimas, na faixa de 15%. E isso tem deixado o crédito cada vez mais seletivo. Vimos, inclusive, um estresse com relação ao crédito privado. Isso tira um pouco o ímpeto de um crescimento mais forte”, afirma.
“A perspectiva é que o país cresça próximo de 2,2% e, olhando para 2026, devemos ter um crescimento menor em relação a este ano, mas ainda na faixa de 1,7% e 1,8%. Então, na prática, os sinais estão mistos”, explica Noernberg.
“Temos um governo tentando estimular o consumo com gastos governamentais e, ao mesmo tempo, a questão da Selic muito alta e um crédito muito restritivo. Esses dois fatores se contrabalanceiam. O resumo geral é: temos uma economia que continua crescendo, mas em um ritmo mais fraco do que se viu recentemente.”
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, diz que, na ótica da demanda, “os sinais seguem compatíveis com um ambiente menos dinâmico”. “O consumo das famílias e do governo avançou de forma moderada, enquanto a formação bruta de capital fixo permaneceu em nível baixo, refletindo condições financeiras apertadas, menor confiança empresarial e um ciclo de investimentos ainda contido. O setor externo continuou contribuindo positivamente, com exportações mais firmes e importações enfraquecidas”, apontou.
Diante desse quadro, o quarto trimestre deve registrar expansão de 0,2%, o que motivou a revisão das projeções para 2025 e para os anos subsequentes. Assim, passamos a projetar crescimento anual de 2% para o fechamento deste ano, compatível com o carrego estatístico ainda elevado e com o desempenho favorável dos setores agropecuário e extrativo, mas já refletindo a estabilidade dos serviços e a composição menos favorável da demanda que marcaram o terceiro trimestre”, prossegue Ariane.
Segundo a economista, para 2026, a projeção é de crescimento de 1,5%, ante 1,7% da estimativa anterior, “refletindo condições financeiras ainda restritivas, desaceleração global e um ciclo de investimentos relativamente contido”. “Já para 2027, mantemos expectativa de expansão moderada, de 1,4%, em linha com um ambiente de juros estruturalmente mais elevados e um consumo que tende a crescer de forma mais gradual”, conclui.
Por: Metrópoles





