• Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Deloitte antecipou risco no Will Bank antes de venda ao Master

Relatório de 2024 indicava incerteza em ativo de R$ 581 mi; BC interveio na instituição depois de liquidar o controlador.

A Deloitte, empresa de auditoria independente, apontou em outubro de 2024 um risco contábil de R$ 580,9 milhões no balanço da Will Financeira, braço de crédito do banco digital Will Bank.

O alerta constava nas demonstrações financeiras de junho daquele ano e envolvia a precificação incerta de um fundo de “pré-precatórios”. Eis a íntegra (PDF – 3 MB).

O episódio antecipou os problemas que levaram à intervenção do BC (Banco Central) na instituição em 2026, após a liquidação do Banco Master, que havia comprado o controle do grupo.

O documento mostra que a instituição tentou retirar o ativo problemático do balanço da financeira para viabilizar a venda ao Banco Master.

A manobra, contudo, não sustentou a operação a longo prazo. O BC decretou o regime de administração temporária no Will Bank depois de liquidar o Banco Master no fim de 2025 por indícios de irregularidades na gestão e insuficiência de capital.

O centro da discórdia contábil era o chamado “FIDC AZO”. Esse fundo detinha direitos creditórios baseados em uma disputa judicial antiga da massa falida da construtora CIB contra o antigo DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem).

A administração do Will Bank avaliava que esses papéis valiam R$ 580,9 milhões com base em projeções de êxito na Justiça.

A auditoria discordou. No relatório de 1º de outubro de 2024, a Deloitte emitiu uma “opinião com ressalva”. Os auditores afirmaram não ter obtido evidência suficiente para confirmar se aquele valor era real.

Para contornar a ressalva e facilitar a venda do controle para o Banco Master e para a gestora Reag Investimentos –que também foi liquidada pelo BC e é investigada por ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital)–, o grupo realizou uma “reestruturação societária” em agosto de 2024. A operação funcionou da seguinte forma:

A operação transferiu o risco de um bolso para o outro dentro do mesmo conglomerado, sem resolver a incerteza sobre o valor real do dinheiro.

A venda do controle para o Banco Master e para a Reag foi apresentada no balanço de 2024 como a solução para garantir a “continuidade operacional” do Will Bank, que já apresentava desenquadramento de capital regulatório.

O mercado, no entanto, observou o colapso dessa estratégia em novembro de 2025. O BC liquidou o Banco Master sob acusações de que a instituição inflava seu patrimônio justamente com ativos de difícil mensuração –prática similar à identificada pela Deloitte no balanço do Will Bank um ano antes.

Sem o suporte financeiro do controlador liquidado e com o balanço ainda pressionado por ativos de baixa liquidez, o Will Bank entrou em regime de administração especial. O BC busca agora um comprador de mercado para assumir a operação e evitar prejuízos aos depositantes.

Por: Poder360

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