Na obra do artista, a placa central traz a réplica de um jornal que retratou o pai como instigador de uma rebelião ocorrida em abril de 2004. Nas laterais, fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados em resina representam a fragmentação e a anulação do sujeito encarcerado. “O objetivo é tanto se ver na pele do outro quanto procurar se reconhecer em um reflexo distorcido de si mesmo. É uma maneira de ver além da notícia. Eu explorei a saúde mental de um egresso após a passagem pelo sistema prisional, a experiência do meu pai como detento”, explica.“Além dos rótulos que foram tatuados em mim, teve a época do regime semiaberto, em que tive que conviver com ele. Eu já era adolescente, e ele estava diferente. Nós tínhamos que ficar monitorando o aparelho da tornozeleira eletrônica que ele usava. Ele chegou a usar drogas dentro de casa. Tudo isso teve muito impacto na minha vida”, conta Wallace.
Larissa Rolando fez uma escultura de coração empalado para a exposição - Foto: Thiego Mattos/Divulgação
Detida entre fevereiro e maio do ano passado, a jovem Larissa Rolando, de 20 anos, moradora de Bangu, na zona oeste, diz que a experiência no sistema prisional foi “uma virada de chave” em sua vida. Ela transformou o período difícil em reflexão pessoal e arte. Mulher trans, Larissa conta que já estava com os documentos retificados quando foi presa. A expectativa era cumprir pena em um presídio feminino, mas recebeu a informação de que ficaria em uma unidade masculina – o que provocou pânico. “Eu fiquei com muito medo, muito medo. Um medo estratosférico mesmo, porque, na minha cabeça, eu ia ser estuprada e ia acontecer tudo de ruim. Mas a realidade foi bem diferente. Os homens eram muito respeitosos e muito solícitos comigo”, conta. Apesar do tratamento, Larissa teve de lidar com condições precárias de higiene e alimentação no presídio. Ela diz que a experiência a tornou mais madura e a ajudou a rever amizades e prioridades. A mudança de perspectiva se refletiu também na produção artística. Ela decidiu investir na escultura como linguagem principal. “Para a exposição, fiz a escultura de um coração empalado, com veias saindo de dentro dele e, na ponta dessas veias, há CDs. Quis trazer algo que falasse da minha experiência. E em todos os momentos da minha vida, desde que eu era criança, desde a minha transição de gênero, a música sempre esteve comigo. Nos momentos tristes e felizes”, explica Larissa.Exposição
A exposição Coexistir Coabitar reúne obras de 27 artistas. Elas são resultado de uma residência artística realizada no Museu da Vida Fiocruz, voltada para egressos dos sistemas prisional e socioeducativo e seus familiares. O processo articulou arte, saúde e justiça social, tratando a criação como ferramenta de escuta e reconstrução de trajetórias. O curador Jean Carlos Azuos destaca que o ponto de partida são as histórias dos próprios participantes.Além da visitação, a programação inclui atividades educativas, como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa, ampliando o diálogo com o público.“As obras não partem de temas dados, mas de experiências reais. Arte, justiça social e saúde ampliada atravessam os processos de criação e se tornam matéria e linguagem”, diz Azuos.
Serviço
Exposição: Coexistir Coabitar Local: Largo das Artes – Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar) Visitação: até 25 de abril de 2026 Horário: terça a sábado, das 10h às 17h Entrada: gratuita Relacionadas
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