• Domingo, 5 de abril de 2026

EUA falam em negociar terras-raras, mas Brasil aguarda proposta

Encarregado de Negócios dos Estados Unidos afirmou que Washington espera uma resposta brasileira.

Em 18 de março, diante de empresários reunidos na sede da Amcham, em São Paulo, o encarregado de Negócios dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, afirmou que Washington aguarda uma resposta brasileira sobre minerais críticos. No Planalto, a declaração causou estranheza: não havia, segundo o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), proposta formal a ser respondida.

Os Estados Unidos tratam o tema como uma negociação em curso. Já o governo brasileiro afirma que o que foi apresentado é vago demais para ser considerado uma proposta. Equipes técnicas de Brasília e de Washington—por meio do USTR, escritório norte-americano de representação comercial— realizam reuniões regulares, mas ainda não há anúncio público sobre o conteúdo.

O interesse norte-americano não é novo.

Em fevereiro, o secretário-adjunto de Estado norte-americano, Caleb Orr defendeu o processamento de terras-raras no Brasil e citou 2 projetos em Goiás financiados pela DFC (U.S. International Development Finance Corporation). No mesmo evento de março, representantes do governo dos EUA indicaram interesse em acesso preferencial às reservas brasileiras e sinalizaram expectativa por regras conjuntas no setor.

O que foi apresentado até agora, porém, veio de forma genérica. No contexto das negociações para retirada do tarifaço —antes de a Suprema Corte norte-americana derrubar sua base legal—, Washington incluiu “minerais críticos” em uma lista de pedidos ao Brasil, sem detalhamento. Na avaliação do Planalto, não houve proposta concreta direcionada ao país.

A avaliação do govenro brasileiro é a de que o interesse é dos Estados Unidos, enquanto o Brasil detém as reservas. Nesse cenário, caberia aos norte-americanos apresentar uma proposta para abrir as negociações.

O governo também rejeita qualquer modelo que transforme o país em exportador de matéria-prima bruta. A diretriz interna prioriza a exportação de produtos processados e preserva a possibilidade de restringir vendas externas em caso de necessidade doméstica.

No Planalto, a ausência de uma oferta estruturada é atribuída a divergências internas nos EUA. Para o governo brasileiro, há duas correntes no Departamento de Estado: uma favorável à cooperação, na qual minerais críticos seriam ativos estratégicos compartilhados; e outra que aposta em pressão por meio de atores subnacionais, como no caso de Goiás.

O fato de o memorando com Goiás ter sido assinado pelo Departamento de Estado, e não pelo Departamento de Energia —interlocutor técnico para temas de mineração—, causou estranheza. O Planalto interpretou a escolha como tentativa de dar um peso político ao acordo.

Lula afirmou que pretende discutir minerais críticos em eventual reunião com Donald Trump (Partido Republicano). Em outras agendas, como a de combate ao crime organizado, o fluxo foi diferente: o Brasil apresentou proposta, recebeu contraproposta em janeiro de 2026 e as negociações seguem em andamento.

No caso dos minerais críticos, a lógica se inverte. O governo brasileiro sustenta que aguarda uma proposta estruturada dos EUA para definir sua posição.

Quando houver uma proposta formal, o governo afirma estar preparado para responder. Parte dessa estratégia envolve a criação de um conselho de minerais críticos, que o Planalto articula vincular à Casa Civil.

Por: Poder360

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