Três diferentes projetos do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), empresa referência internacional em ciência da cana-de-açúcar, receberão financiamentos aprovados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que somam R$ 83,96 milhões.
Duas das iniciativas estão relacionadas com uma nova tecnologia de plantio, incluindo a construção da primeira planta industrial de demonstração de sementes sintéticas de cana-de-açúcar. A terceira está voltada para o desenvolvimento de uma variedade resistente ao besouro Sphenophorus levis, praga conhecida como bicudo da cana-de-açúcar.
Os recursos serão liberados por meio da linha BNDES Mais Inovação. Eles poderão ser usados para realização de obras civis, aquisição de máquinas e equipamentos nacionais novos e contratação de serviços técnicos especializados em pesquisa e desenvolvimento, além de outros gastos operacionais.
Ao todo, os três projetos receberão investimentos de R$ 165,54 milhões. Além dos R$ 83,96 milhões financiados pelo BNDES, eles contarão com o apoio de R$ 72,9 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e R$ 8,68 milhões em recursos próprios do CTC.
"O conjunto de projetos que o CTC vem conduzindo, com a ambiciosa meta de fazer a produtividade da cana-de-açúcar no Brasil dobrar até 2040, se alinham aos compromissos do governo do presidente Lula com o desenvolvimento e a descarbonização. São iniciativas que contribuem para a redução significativa dos custos operacionais, do uso de defensivos químicos e fertilizantes e das emissões de gás carbônico", afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
O uso de sementes sintéticas no setor sucroenergético visa contornar desafios existentes no plantio convencional mecanizado, onde cada hectare demanda mais de 16 toneladas de colmos de cana-de-açúcar. Eles são depositados em sulcos no solo em um processo que depende do uso intenso de equipamentos pesados, que podem contribuir ao longo do tempo para a compactação do solo, a erosão e a perda de microbiota, afetando assim a sustentabilidade do canavial. Além disso, o alto consumo de combustível decorrente do emprego de plantadoras e colhedoras gera custos e impactos ambientais elevados.
Com a tecnologia em desenvolvimento pelo CTC, o plantio da cana-de-açúcar poderá ser realizado de forma similar a outras culturas, como milho e soja. Em um hectare, seriam utilizados cerca de 400 kg de semente sintética, reduzindo a compactação do solo e o consumo de combustíveis e insumos. Outra vantagem é a diminuição de custos envolvendo a utilização de água, já que não seria necessária a irrigação em vários dias subsequentes, como ocorre no plantio convencional.
A semente sintética é obtida por meio da produção in vitro do material biológico com capacidade de regenerar uma planta completa, o qual é envolto com uma estrutura protetiva que permite a manipulação, armazenamento, transporte e plantio mecanizado. Ela já é produzida isenta de doenças, o que contribui para a formação de canaviais de melhor qualidade.
O CTC também já desenvolveu um processo que viabiliza a produção em larga escala do material biológico usado nas sementes sintéticas de cana-de-açúcar. Um dos novos projetos que contará com o apoio do BNDES envolve a implantação de uma planta-piloto, capaz de sustentar a primeira fase da expansão da produção de sementes sintéticas.
A planta ocupa uma área de 10 mil metros quadrados da Fazenda Santo Antônio, sede do CTC localizada em Piracicaba (SP). A capacidade prevista nesta primeira planta é de produzir uma quantidade de sementes suficientes para o plantio de até 500 hectares de cana-de-açúcar por ano. Uma vez inaugurada, sua operação demandará a contratação de 72 novos profissionais.
Outro projeto com financiamento aprovado pelo BNDES envolve pesquisas para evolução na seletividade do material biológico e avanço na capacidade de germinação e desenvolvimento das sementes sintéticas.
Além disso, o CTC quer avançar com maior prazo de validade, viabilizando armazenagem prolongada e maior alcance logístico, podendo atender produtores que se situam em locais mais afastados das unidades produtoras.
O terceiro projeto apoiado pelo BNDES envolve o desenvolvimento de uma variedade resistente ao ataque de insetos, entre eles o besouro Sphenophorus levis, praga conhecida como bicudo da cana-de-açúcar. A iniciativa conta com a parceria de diferentes instituições de ciência e tecnologia.
O bicudo da cana-de-açúcar é uma das principais pragas que afetam os canaviais no Brasil, sobretudo em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Seu controle é difícil e o ataque pode levar à morte da planta.
O CTC foi fundado em 1969 como uma unidade de pesquisas da Cooperativa de Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar). Com o tempo, tornou-se uma referência no desenvolvimento de soluções agrícolas e industriais, contribuindo, por exemplo, com o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) lançado em 1975 pelo governo brasileiro.
Em 2004, transformou-se em uma instituição de pesquisa sem fins lucrativos e, em 2011, tornou-se uma sociedade anônima. Atualmente, tem como principais acionistas a BNDES Participações S.A. (BNDESPAR) e os maiores grupos do setor sucroenergético que, juntos, representam mais de 60% da produção de açúcar e etanol do Brasil.
O CTC conta com uma equipe especializada e um complexo de laboratórios, onde desenvolveu variedades de cana-de-açúcar que atualmente correspondem a 31% de toda a produção nacional. Seu modelo de negócio envolve a cobrança de royalties pelo licenciamento dessas variedades. Atualmente, a empresa vem priorizando pesquisas focadas em práticas agrícolas mais eficientes e com menor impacto ambiental e no enfrentamento dos desafios climáticos.





