O republicano divulgou tarifas que ele considera recíprocas a produtos importados pelos Estados Unidos após o fechamento dos mercados, na véspera. O anúncio era amplamente esperado devido aos potenciais efeitos sobre o comércio internacional, até então difíceis de precificar pela falta de detalhes públicos.
Às 12h23, a moeda tombava 1,63%, cotada a R$ 5,603, em movimento global de desvalorização. Na mínima da sessão, atingiu R$ 5,592. Já a Bolsa brasileira tinha leve variação positiva de 0,05%, a 131.263 pontos, descolada da desvalorização de outras praças acionárias ao redor do globo.
Trump anunciou tarifas básicas de 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos e outras mais altas sobre alguns dos principais parceiros comerciais do país. "É a nossa declaração de independência", disse durante o evento na Casa Branca.
Ele exibiu uma tabela que listava as tarifas recíprocas, incluindo 34% sobre a China, 20% sobre a União Europeia e 10% para o Brasil. Os japoneses enfrentarão uma taxa de 24%.
"Estamos sendo muito gentis, somos pessoas muito gentis. Nós vamos cobrar aproximadamente metade daquilo que eles nos cobram. As tarifas não serão completamente recíprocas", afirmou o republicano.
O principal receio em relação ao tarifaço é que ele aumente a inflação em uma ampla gama de produtos e distorça cadeias de suprimentos globais, especialmente se os países afetados revidarem com mais impostos.
Os efeitos ainda podem se estender para a atividade econômica dos Estados Unidos, que já tem dado sinais de desaceleração. O potencial inflacionário do tarifaço pode forçar o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) a manter os juros em níveis elevados para conter a alta de preços, o que pode resfriar ainda mais a atividade econômica.
O cenário desenhado por especialistas é de uma "estagflação", isto é, quando a inflação está elevada e a economia não cresce.
"O dia promete muita volatilidade e movimentações bruscas depois desse choque tarifário. O anúncio veio entre os piores cenários esperados pelos analistas com essa taxa global de 10% sobre todas as importações", comenta Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Antes do tarifaço de quarta-feira, Trump já havia implementado uma tarifa de 20% sobre produtos chineses, taxas de 25% sobre importações de aço e alumínio e tarifas de 25% sobre mercadorias de México e Canadá que violem as regras de um acordo comercial da América do Norte. Nesta quinta, ainda entrarão em vigor as tarifas sobre os automóveis importados.
Os índices acionários de Wall Street estão afundando neste pregão por causa dos temores de uma recessão na economia. O Dow Jones caía 3,49%, a 40.751 pontos. O S&P 500 tinha queda de 3,85%, a 5.452 pontos, enquanto o Nasdaq Composite recuava 4,76%, a 16.762 pontos.
Na Ásia, a Bolsa de Shenzhen perdeu 1,10% e Xangai caiu 0,24%. O índice Hang Seng, de Hong Kong, tombou 1,52%. Na Coreia do Sul, a queda do Kospi foi de 0,76%. A Bolsa de Tóquio encerrou a sessão em tombo expressivo de 2,77%.
A repercussão também tem sido sentida no mercado de petróleo. O barril do tipo Brent, referência global, derretia 6,35%, cotado a US$ 70,21. O WTI, referência dos EUA, caía 6,85%, a US$ 66,83.
Já o índice do dólar, que o compara a uma cesta de outras seis moedas fortes, despencava 2,11%, a 101,48.
Mas, em relação ao Brasil, as taxas de 10% indicam que "saiu barato para o país", diz o economista André Perfeito. "E faz sentido, afinal, os Estados Unidos têm superávits comerciais em relação ao Brasil, então não seríamos alvo neste momento."
A leitura geral é que o país poderá se beneficiar do rearranjo dos fluxos comerciais, sobretudo no mercado de commodities.
"As economias mais afetadas, como China e União Europeia, devem direcionar suas demandas para outro lugar, particularmente o agro brasileiro, que sofre grande competição com o agro americano. Além disso, o fato de o Brasil ter sido menos taxado tornará os nossos produtos relativamente mais competitivos em relação aos outros países, o que pode permitir maiores exportações aos Estados Unidos", diz André Valério, economista-sênior do Inter.
Há ainda um movimento de "rotação" para fora dos Estados Unidos, no qual o objetivo é reduzir a exposição aos ativos de lá e, assim, diminuir os riscos.
Com a percepção de que o Brasil foi menos afetado pelas tarifas, somada aos preços baixos dos ativos domésticos por causa da forte desvalorização do final do ano passado, o fluxo de investimentos tem sido direcionado para cá.
Além disso, também é um fator de atração o diferencial de juros daqui e das demais economias. "Atualmente, o real é uma das moedas favoritas dos investidores justamente por conta desse fato, com as posições vendidas em dólar contra o real sendo a maior aposta contrária à divisa americana", diz Valério.