• Sábado, 10 de janeiro de 2026

Conheça o “Gado do Rei”, a raça africana Nkone que resiste a seca e produz carne barata

Raça africana Nkone da tribo indígena Zimbábue une rusticidade extrema, alta fertilidade e valor genético estratégico para a pecuária sustentável em áreas marginais.

Raça africana Nkone da tribo indígena Zimbábue une rusticidade extrema, alta fertilidade e valor genético estratégico para a pecuária sustentável em áreas marginais. A raça bovina Nkone é um dos exemplos mais emblemáticos de como a seleção natural, aliada à cultura humana, pode moldar um animal perfeitamente adaptado a ambientes hostis. Originária do atual Zimbábue, a Nkone é uma raça indígena africana do grupo Sanga, reconhecida mundialmente por sua resiliência, baixo custo de produção e eficiência reprodutiva, características que a tornam um recurso genético valioso para a produção de carne e formação de matrizes em regiões de clima árido e pastagens pobres. Mais do que uma raça produtiva, o Nkone é também um patrimônio histórico e cultural, com raízes que remontam a milhares de anos e conexões diretas com antigas civilizações africanas, migrações humanas e sistemas tradicionais de produção pecuária.
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    A raça Nkone faz parte do complexo Sanga, um tipo de gado africano resultante da mistura de três grandes troncos genéticos bovinos ao longo da história: window._taboola = window._taboola || []; _taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});
  • Bos taurus europeu, que chegou ao Norte da África em duas ondas migratórias, por volta de 6000 a.C. e 2500 a.C.
  • Bos indicus asiático, oriundo do Vale do Indo, introduzido em duas fases, aproximadamente em 2000 a.C. e 700 d.C., esta última associada a migrações pela costa leste africana.
  • Bos taurus africano, domesticado no Norte da África e região do Mediterrâneo entre 7.000 e 10.000 anos atrás.
  • Registros arqueológicos, pinturas rupestres e desenhos do Antigo Egito, datados de até 8000 a.C., mostram bovinos multicoloridos, com chifres em forma de lira, fenotipicamente muito semelhantes ao Nkone moderno. A leve corcova no pescoço, típica do Sanga, provavelmente surgiu mais tarde, com a pequena introgressão genética de zebus da região da Somália.
    Foto: Nkone Cattle Breeders Society of Zimbabwe
    A expansão do gado Sanga pelo continente africano ocorreu junto às migrações humanas. Os ancestrais do Nkone chegaram ao sul da África inicialmente com o povo Kohekohe, há cerca de 2.000 anos, e depois com as grandes migrações Bantu, entre 300 e 700 d.C. Esses deslocamentos seguiram quatro grandes rotas:
  • Para o sudoeste, em direção à Ovambolândia e Botsuana
  • Para o sul, alcançando o atual Zimbábue e o Transvaal
  • Para o sudeste, chegando a Moçambique, Zululândia e Suazilândia
  • Ao longo da costa leste africana, descendo em direção ao sul
  • No Zimbábue, esses bovinos deram origem a diferentes ecótipos regionais, como o Sanga Mashona no Highveld e o Sanga Tuli no sudoeste. O Nkone consolidou-se como um ecótipo próprio, altamente adaptado às condições locais. No século XIX, o rei Mzilikazi, fundador do Reino Ndebele, manteve um rebanho real exclusivo, conhecido como o “Gado do Rei”. Esse gado apresentava o padrão de cores Inkone, considerado nobre e simbólico.
    Foto: Nkone Cattle Breeders Society of Zimbabwe
    O padrão Inkone incluía:
  • Linha superior branca interrompida
  • Cabeça, cauda e patas traseiras salpicadas de branco
  • Flancos escuros contínuos em vermelho ou preto
  • Ventre e membros com manchas brancas
  • Os plebeus eram proibidos de possuir esse gado, e cada regimento Ndebele mantinha rebanhos com padrões específicos de cores, utilizados inclusive para confeccionar escudos e adornos cerimoniais. Entre as cores regimentais mais conhecidas estavam Iwaba, Ilunga, Inco, Ihlati, Hwanqa e Inhlekwane, cada uma associada a um grupo militar distinto. Do ponto de vista zootécnico, o Nkone reúne um conjunto de atributos raros e extremamente desejáveis: Resiliência extrema
  • Alta tolerância à seca, calor intenso e doenças endêmicas
  • Baixa exigência de manejo e suplementação
  • Alimentação eficiente
  • Capacidade de explorar pastagens naturais (veld)
  • Consome brotos de árvores, folhas e vagens
  • Excelente aproveitamento de forragens de baixa qualidade
  • Reprodução e fertilidade
  • Matrizes altamente férteis, com produção anual de bezerros
  • Mantêm desempenho reprodutivo mesmo sob estresse nutricional
  • Longevidade produtiva elevada
  • Características físicas
  • Porte médio
  • Pelagem variada, frequentemente com pele fortemente pigmentada, o que confere resistência ao sol
  • Chifres funcionais, que auxiliam na termorregulação
  • Dados de dois rebanhos localizados em áreas de sourveld na bacia hidrográfica central do norte do Zimbábue mostram números consistentes:
  • Peso médio ao nascer
    • Machos: 31 kg
    • Fêmeas: 28 kg
  • Peso médio ao desmame (205 dias)
    • Machos: 154 kg
    • Fêmeas: 143 kg
  • A gestação média é de 285 dias, e um ponto-chave da raça é que a distocia é praticamente inexistente. As vacas Nkone controlam naturalmente o tamanho do bezerro, mesmo quando acasaladas com raças maiores, reduzindo perdas e custos veterinários. A Nkone é reconhecida como uma das raças que produzem carne bovina com o menor custo por quilograma por hectare. Esse desempenho é comparável ao de outras raças nativas de porte médio, como a Mashona, tornando o sistema:
  • Altamente lucrativo em áreas marginais
  • Ideal para regiões de baixa pluviosidade
  • Estratégico para sistemas extensivos e de baixo investimento
  • Além da produção de carne, a raça também pode ser utilizada em pequena escala para produção leiteira e, principalmente, como linha materna em cruzamentos, transmitindo rusticidade, fertilidade e eficiência aos descendentes. Apesar de sua relevância, a população da raça Nkone sofreu forte declínio ao longo do século XX. Na década de 1970, estimava-se um rebanho entre 15.000 e 20.000 cabeças no Zimbábue. Nas últimas décadas, esse número caiu drasticamente, principalmente em função da reforma agrária e da perda de terras por produtores comerciais.
    Foto: Nkone Cattle Breeders Society of Zimbabwe
    Atualmente, o número exato de animais nos sistemas comunitários e de pequena escala é desconhecido, mas acredita-se que bons exemplares ainda existam em áreas remotas, representando um banco genético extremamente valioso. A retomada da raça é impulsionada por criadores organizados e pela Sociedade de Criadores Nkone do Zimbábue, que atua na preservação, registro e promoção do Nkone como peça-chave para o futuro da pecuária nacional.
    Por: Redação

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